domingo, 4 de junho de 2017

Não briga

Pra quê que eu quero saber de mim?

Tanta coisa pra saber por aí, tanta...gente
É tudo
Tanto

Gente pedaços vidas mortes ensaios de não-seres
Aos prantos a dor exala sua derrota, é tudo tão gigante que ela não consegue respirar
O ar insólito: é gelatina! Pasta na corrente do tempo a migalha da mentira mal-passada
E ao mesmo tempo geme...geme o vazio itinerante entre duas narinas feias
Nunca imaginei que fosse chegar isso tão perto
Perto demais
Em volta de tudo

Às voltas com um novelho qualquer sem cor, prefiro não ousar
Vai que um teco de mim escapa
Vai que
Vai que tomara que me caia alguma parte imprescindível

Melhor não.

Deixa tudo, não esquece mais hein
De deixar
Deixar essa gente esse pedaço essa vida essa morte enunciada

Prega o terço pra sempre nas costas
Aceita que perdeu e ganha
Com navalha pescoço lança lenço névoa ponte
Com todos os menos fiapos que vai achando na parede
Prega-lhe o chumbo, filha
Não deixa escapar dessa vez
Não deixa
Deixa vir
Venha



terça-feira, 16 de maio de 2017

Ilusão confortável I

É aquele fio da meada que aparece sempre quando durmo. É aquela massa cinzenta que não consigo decifrar, por mais que eu aceite, tente, insista e sorria. Fica ali. Daquele jeito. Deita no meu colo com a minha sensação de que isso nunca vai acabar. E digo isso. Te digo mil vezes. Isso nunca vai acabar. Mais uma. Outra. E a gente vem, de mãos dadas, corpo unido, às vezes beijo, às vezes só respiração. Quero me libertar desse, e só com dor ele vai embora. Mas não quero doer, não quero que doa. Me conforta saber que ele sempre vai estar, sem rosto, parado, com o mesmo amor que lhe dei e que ele me deu. Em silêncio. Eterno.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Das perdas e ganhos

Sempre em sonho e comigo mesma
Aquilo que nunca foi vai ser pra sempre

Porque o sempre tem aquele gostinho de nunca mais
Amarga a saliva e oculta o suspiro
Mede as palavras
Retira o que digo

Esquece-me
E só o cinza do abraço me abraça e me perde.


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Pra onde vão os vazios
Quando nos enchemos deles?

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Durar

É que me dá saudade do meu
Daquele todo que é minha saudade, só minha
Por mais insistir eu desisto
E existo em nosso grito: sutil.

Agora sou o que era
E não mais me encontro onde fui

Por ruas
Alamedas
Vielas

Voltar a perder meu passado
Lembrar e esquecer onde dói
Morrer e enterrar
Ceder, durar
Partir.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Mais uma

Acabei de receber mais uma carta, não é que escreve bem? Parece que conta uma história. Parece que esconde mil outras mensagens ocultas. Parece uma carta...bem, pelo menos eu acho. Não, eu tenho certeza, só pode ser pra mim.

domingo, 10 de abril de 2016

Chá com Haendel

Buscando a inspiração, parei pra me assustar com minhas pausas decididas.

Parei um pouco, enganchando os fios da pouca-memória seletiva, arruinando sedas e linhos com palavras mudas - trágicas se não fossem cômodas - ao contrário do que sempre me acostumo a me convencer: sou um enigma pra mim mesma.

Devora-me ou te decifro, os algarismos que voam sobre a mesa, os gemidos resignados em semênticas ilusões. Respingos. Fúrias. Falsas injúrias.

Faço um chá ao som do vento, e o sopro vapor me amolece o crânio com beleza institucional: já não sou eu quem faz as perguntas, apenas respondo ao meu surdo interesse.


quinta-feira, 7 de abril de 2016

Delírios

Me deleito
No leito da sorte
Ao sabor da vida
Perseguindo a morte.

sábado, 26 de março de 2016

Opressão

Tentar explicar tudo o que parece:
a minha mente engana
me trai

E salivo conforme a canção, porque ela me levita.

O sal da boca me enerva
Já não sou mais aquilo
Aquela coisa toda tão estranha e especial
Aquilos todos
Os tudos do mundo perverso e eu
ali
sempre pronta
pra te ver
e oprimir.


sexta-feira, 25 de março de 2016

O novelo

Me descubro violenta
Me descubro odiosa
Ferir
Flechar
Furar

Tenho tudo em mim
Tenho o nada
Para nada ter e ser
Quando menos

O menor dos pormenores
Explodir:
Estilhaços
Pedaços
Parede
Destroços

Tudo vejo, que eu seja a culpa
Das mais sérias saciedades
Dos novelhos novos medos
Dos amados velhos olhos

Ferir
Sangrar
Furar

Ao final, tudo é verdade
Sou a culpa, sou o medo
O menos do fim, o meio

O novelo:
Ao tirar de mim, me sobra
Ou me falta o fio, o dedo.