quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Entulhos

Numa bagunça, não importa o que você tira do lugar.
Meu crime é perceber a sujeira por trás de cada olhar
Meu tormento é ter o dom de adivinhar

Minha doce intuição
Nunca mais você ouse me deixar.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Marcha

Onde é?

A saída do ovo, da casca, do novo
Da volta, do mundo, do trem, do segundo
Onde é
O ser que habita em mim e que é divino em você também
Parte daqui pra um minuto ou universo em profundo verso controverso
Sem sombra de dúvida
E sem querer voltar atrás...

Caminhemos, amigos, em frente
Atrás vem, mais que furiosa, muita gente!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Meu passarinho
Passsssarinho
Passsssssarinho

Canta, vai!

Formiga

Brancos, tão brancos...como não poderiam ser perfeitos?

Ainda lembra bem do sofrimento
Ainda batendo no liquidificador aquele azedo de ser ignorado
Ainda lembra

Lembra? Aquele dia em que eu te perguntei se você ainda estava naquela...naquela! Mesma coisa mesma
É tudo igual por enquanto
Só muda quando algo em mim se aproximar de outra coisa, quando ela se aproximar de mim
Quando ela se aproximar quando outro se aproximar
Quando dos próximos, antenas

Lambe os olhos, toma.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A noite apaga o último vestígio de sanidade: a luz das idéias.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Novamente me sou
Sendo-me em lugar nenhum
Em nenhum de vocês
Nenhuma curva
Nenhum ouvido
Nem mente turva

Não sou no copo
Não sou no samba
Não sou no carro
Não sou na tumba

Me sou e me tenho
De novo, sempre e sempre, outra vez
Pois de nada adianta lhes ser
E não ser-me sendo, sabendo me ser
Assim seja

Amém.

Despedida

Fiz esta canção pra você
Para nós
Para todos os que se encontram enrolados
E deixados
Nos cantos, nas praças, nos bares
Ao som do vento e sopro da noite
Para nós, simplesmente
Porque merecemos nada mais que uma canção

Nos jogamos no mundo
Sem nada esperar
Sem nada receber
Apenas andando
E descobrindo o melhor que há em nós e nos outros
E o pior, por quê não?

Esta canção cansada
De pés sujos e bocas secas
De choro e de vela, sem refrão
Para nós, que apenas queremos ir embora
Dançar
Ouvir
E cantar.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Procê

Contente estou
Quando feliz sou de poder te ver
Quando o tempo já não importa mais
Quando o dia e a noite parecem que tanto faz.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Progresso

A lei do silêncio
Está acima da lei do livre pensamento
Mantenhamos a ordem e o acatamento
E sigamos em frente, sem tormento.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Interessante ver a vida passar
E lhe dizer uma cantada de pedreiro.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Novamúsica

Na canção retrato o teu rosto tinto de papel
No chão, só notas caídas.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Umidade

Saíram os dois, a chuva e o vento
Por que não poderia sair também?
Pés empapados, metade de mim esfria ao som das gotas e do silêncio submisso dos que esperam sob os toldos...eu não espero, sigo pelo meio-fio, guias, canaletas, vias de acesso - tudo, como sempre, meticulosamente calculado

Olhos castanhos, cinzas, amarelos
Bestas coloridas andando pelas ruas da cidade (não são, afinal, exímios manipuladores de guarda-chuvas, esses curitibanos?)
Espremem instintos (ah, que recato!), doces gentilezas encrustradas de preconceito
Eu manobro como se possuísse um sabre de luz, observando as maravilhosas esculturas momentâneas que se formam ao cruzar uma ou duas pessoas em vielas estreitas

A poça dança no lodo do meu lado obscuro
Eu danço na poça obscura do meu lodo
Meu lodo dançou com a poça da minha obscuridade
Danço nos passos nas poças, pé ante pé, boca ante beijo empoçado

De volta para casa, posso utilizá-lo como escudo para possíveis pilhagens no caminho.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A teu

Não acredito em palavras.

Acredito em ações bem feitas
Em desculpas, em enganos e caretas

Acredito em olhares, farfalhar de lençóis, mudanças comportamentais repentinas
E no cheiro que deixam as crianças quando correm na saída do colégio, ainda que suadas e ignoradas pelo barulho da cidade

Creio nas coisas mais absurdas, do teto de palha ao monstro metálico que desliza sobre trilhos, sem neles encostar
Nos pássaros que cantam sob a chuva e nas bandas que morrem sem nunca deslanchar
Acredito (cegamente) em navios, em fantasmas e nas colheres do Uri Geller
Também nas lagostas e nos ninhos de cobra que nunca vi

Tenho fé na corrente sanguínea, nos ossos e na osteoporose
E acredito que tudo o que comi hoje de manhã transformar-se-á em nutrientes e bolo fecal
Além disso, acredito em pessoas que me observam e que me odeiam
Acredito em seus motivos
Acredito em meus motivos para não odiá-las
E, por quê não dizer, acredito em quem me ama

Mas não, não me peça para crer em palavras.

Livro II

Não deixa transparecer o que te incomoda
São apenas faíscas no incêndio, pequenos fascículos de ingratidão
Todos no mundo se perdem em cheiros, cores e sabores
E as pessoas ganham vida nova percebendo o mundo de formas diferentes.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Ponto.

Onde está?
Agora, o que oculta a língua morta
O que falta à linguagem
Palavras, gestos obscenos
Obscuros pontos finais, vírgulas, dois pontos: já não sei mais entender nada, gostaria que me dissessem na cara tudo o que sentem, esses seres.

Acabaram as rimas, os versos, os cantos
Toda aquela sofrível vertigem de ter tanto a dizer
Um quadra de esquisitos verbos (concubinar, maldizer, céucolorir)
Tudo se perdeu nos olhos abertos e boca fechada
Dedos finos, varetas - oscilando entre escorpião e sagitário
Meramente, contos novos a inebriar o mundo virtual - mapa astral?

Prédios em chamas, teto, trama, tontura, presença
E o que um dia foi um belo desconhecer
Tornou-se um "não sei o quê" de palavras malditas, novamente pregadas como anúncios de uma boa-vinda que, talvez, nunca existirá.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Eco II

...porque, dentre as coisas que não são ditas
Existe um universo de palavras perdidas
Poemas, versos, canções
E toda uma geração de rimas intransigentes
Que da boca pra fora não seriam mais que hálito ou mau-hábito
Daqueles que dizem sem pensar e sentem sem dizer.
É assim que o jogo acontece
Uma tentativa, duas
Na terceira sempre é decidido o desempate.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Casório

Amanhece...mais um dia depois de outro que veio depois de outro
Todos os dias são camadas do mesmo bolo...
O bolo de casamento entre a vida e a morte
Parabéns aos noivos!

Quem?

- Moça, esse EU é seu?
- Não, esse não é m'EU!
- Então toma o meu EU...
- Não quero o s'EU! Quero o m'EU, eeeeeeeeeeeeeeeeeeu!
- Procura no lixo, vai que você jogou fora sem querer...

E...

...a troco de nada a vida se perde a troco do toco de taco tecido
Justificam-se os meios, afinam-se os motivos
Aos poucos, tudo volta ao normal e ao caos que era antes
Porque dantes, tudo era rotineiro, agora tudo é comum e novo.

Com esses tanques todos, vocês bem que poderiam abrir uma lavanderia...vai ter bastante sangue pra limpar das roupas.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Namorado

Afunda-se novamente no travesseiro
Descasca mais um dilema

Quanto tempo mais, senhor, quanto tempo?

Endiabrada, colapso nervoso no frasco tenso
O ciúmes é algo realmente inexorável, absorvendo boa parte do seu precioso dia
Especula, calcula, meticulosamente atua
Atenua a tênue carne nua ao percebê-la tão enrugada...não há mais diferença entre traidor e traído, verdadeiro e fingido
Todos no mesmo balaio, até sua alma já o sentencia "culpado"
O réu, segue calado.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Namorada

Uma lembrança te visitou
Entrou pelo furaco da fechadura, caminhou pela sala cheia de gente
Você estava, mas parou de estar
Pois a tratante entrou sem avisar
Te tirou da festa, te deixou na bosta
Você a se perguntar:
"Por que me persegues, ó injúria irregular
És o auge da minha decadência, és o que de mim não posso mais esperar
Fostes um dia uma bela experiência
Agora, és infâmia perdida em meu penar
Gargalhada a me azucrinar
Fogueirinha que o tempo ainda tenta apagar
Tens o gosto do desgosto e uma saudade que me derrete a cada passo que na rua dás."

De repente, ela acendeu um cigarro, um sorriso na multidão se apagou
Todos piscaram ao mesmo tempo, ninguém viu mais nada, nem a lembrança, nem sua ausência inesperada
Todos se esqueceram
E a chave trancou a porta desesperada.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Vigília

Desafinando mais uma canção, ouvindo o som da noite
Perdendo os sentidos mais uma vez
Velo-te como a uma criança

Meu sono não me percebe, sigo perscrutando cada ponto do meu suave embriagar
Olhos pra conter o riso
Boca para não dizer o que não preciso
Ouvidos...
Vejo-te assim só, no ínfimo da vida
E meu cantar perde-se no sumo da tua voz

Desperta
Agora que o escuro já não causa tanto medo.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Tese

Com mil fios na linha do esdrúxulo
O limite do perigo
E a linha tênue entre a perseguição e o amor
Costuro o velho passado remendado
O pano surrado e gasto
Da vermelhidão recorrente, sangue mal-derramado dos meus pecados.

Procuramos sempre entender as coisas como se estas fossem um fim em si mesmas. O que não conseguimos perceber ao deparar-mo-nos com uma situação de risco é: por quê? As causas nem sempre estão muito claras à nossa vista, nem todos conseguem atingir a percepção necessária das reais causas daquilo que acontece à sua volta. Sempre a culpa é do outro - e lá estão, quatro dedos apontados em direção aos nossos próprios medos. Assim, deixamos que os fantasmas almocem, dancem, pensem, atravessem a rua...que possuam hábitos tão comuns e tanta liberdade que nem pareçam mais assombrações. Vez por outra, atingem o nível do inconsciente coletivo, presentes, embora inocentes...encontro-os sempre que posso, escovando os dentes, assumindo um compromisso, tirando dinheiro no banco...o que me assusta não é sua presença insossa e fosca, mas sim um pavor de não saber o que querem de mim...

Insípidos, inodoros, tão incômodos...

Voltando a mim, digo que nada do que fizermos pode isentar-nos do destino de assumir as responsabilidades pelo que deixamos passar.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Desvelo

Matei no peito a saudade derradeira
Ao vento as lágrimas, ao tempo a solidão

Cada um recebe o que entrega, e se a entrega não existir...de nada adianta esbravejar para o mundo um sentimento inexistente, de nada valem as tardes, as noites, os ocasos e acasos - tudo será cobrado com juros no futuro.

Mais uma vez, embriagarei
Desvelarei dobras no espaço-tempo
Serei sincera com o mundo
Com a mesa do bar
Com os olhos
Com os ouvidos
Com o copo americano.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Paisagem

Como bom cego, tenho o dom de sentir resquícios de saudades. Não faz muito tempo, mas ainda sinto o cheiro da paisagem guardada nas mentes, nos olhos, nas bocas...tudo isso misturado a uma sutil sensação de cansaço, uma vontade de querer voltar correndo e de querer seguir em frente ao mesmo tempo, uma vontade, duas...quanto disso vale à pena? Parece que eu também estava lá, de alguma forma, esperando pra que o acaso desse certo e para que a paisagem nunca saísse da tua mente, das mentes suas. O mais frio nisso tudo é que conheço, sempre, as coisas que me são oferecidas por obrigação e que, no fundo, eu sempre quis que as janelas mostrassem o céu aberto novamente.

Como bom carrasco, tenho o dom de libertar.
Nunca gostei da lei do "quem ri por último ri melhor"
Prefiro "rimos todos juntos sempre".
Só inteiro
Só entregue
Se não, só.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Lá em cima está
Cá embaixo, só posso observar...e tentar subir devagarinho.

domingo, 14 de novembro de 2010

HQ - Voltando à frequência

Verdes raios caóticos espalhados pelo céu da minha boca, teto do meu inconsciente totalmente tomado por pontos arroxeados - listras na mente, alfa-ohmygod - alguém me salve! Sobre um caldeirão fervente de tinta azul meus pés pendem a uma proximidade quase insuportável...sufoco ao sentir o calor de seus vapores e ao ouvir o som do ar rompendo a superfície...

Eis que surge ele, o raio-x!
Sua capa enigmática enfraquece as muralhas de pele e carne viva, penetra os sentidos inconstantes, bolhas de pensamento fric fric fric estou enlouquecendo aaaaah

- Olá garota! Quanta confusão, hein!
- Puxa, que bom que você chegou, já estava quase caindo em más tintas novamente!
- Veja bem, monocromatismo não é para qualquer um, temos que observar atentamente tudo o que acontece dentro das pessoas...
- Ah, se não fosse você...(!)
É preciso amor
É preciso saber deixar-se ser amado
É preciso deixar ir, deixar vir o tempo

O olho vê
A alma enxerga
E mesmo o mais turbulento mar tem momentos de calmaria.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Pulso

Abre-te
Pulsa-te

O extermínio da fragilidade
É o enfraquecimento da verdade
Não somos perfeitos, nem devemos deixar que nos seja cobrada a perfeição - nem por nós mesmos

Sou o que devo ser neste momento, e só o que posso é querer ser melhor a cada dia
Entendendo que sempre sou, independentemente do que venha a ser depois de amanhã.

domingo, 7 de novembro de 2010

Guia de cego

A alegria vem, você querendo ou não...
E quando vier, receba tudo
Vamos na alegria
Que sobre ela deslizamos
E para onde? Quem nos guia...

Te guio, me guia
Porque daqui eu não conheço nada além do que já vivi
E tenho esperança de sempre conhecer mais um pouquinho.

sábado, 6 de novembro de 2010

Não permita que eu sinta esse cheiro de medo
Que eu fareje a mentira por trás do olhar
Que eu esqueça que também minto
E que um dia até tentei enganar o tempo.
Respira...isso...
Muita hora nessa calma.
O que sinto já me basta - de suave a atroz agonia
Já será um prato cheio pelos próximos vinte dias.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Ponto

Olhei para um certo ponto indeterminado
Não sei por que, lembrei de alguma certa coisa boa em você
Assim, um ponto, um pontinho
Eram vários pontinhos
E todos eram esse caminho...que desembocava na curva do...

Mais indeterminado, só o próprio tempo
Que, de tanto esperar, já até esqueceu de como se esquece
Por que, então, não lembrar, ao invés de esquecer?
Lá - no ponto - tinha uma luz
Mas estava meio apagadinha
Deve ser por que saudade
De ver ser sinceridade
Amizade
Tudo junto
Eu...não separo mais nada, nem ponto, nem vírgula, nem pensamentos.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Mente itinerante

Não sei ao certo aonde foi
A minha mente perdeu-se no espaço
Procurei entre ruínas e ilusões
De mala e cuia, segui seu passo

Corri por dez quilômetros de terra seca
A mente mentia numa esquina suja
Ao me ver, assusta-se a dita cuja
E seu rastro atira poeira de lambuja

Tinha pressa, pois, sem mente, que demora!
Já meus pés encontravam-se cansados
Eis que achei-me na casa de uma senhora
Onde a mente tomava coca-cola

Perguntei à mentirosa de seus sonhos
Perguntou-me se eu ainda a queria
Tente lembrar, disse ela, daqueles planos
Mentecapto como estou, já não podia

No infinito fui cobrar minha sentença
Para os mestres do tempo pedi auxílio
Sei que mente não me escapa, tenho crença
De que um dia retorna de seu exílio

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Olho

Vista-se em seus sapatos de andar no mundo
Novamente olhe em volta
Agarre o que puder
O que não puder, entregue

Vista assim, a realidade é tão sarcástica
A olho nu, olho fechado
Olhos para cima, mais uma, outra vez
Céus para mim
Terra para ninguém
Terra para nós

Deito-me no olhar
Ao que deleitar-me deixo-me
Fascínio rubro do anoitecer
Deixo-me existir...
Sem retirar da tua existência
A matéria do sofrer intenso, carnal
Abominável monstro de algum lugar
Em algum momento
Que de algum penar
Fez seu doce alento

Minto-me
Preciso-te
Presa-te
Encontro-me.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Incinerador

Meu corpo em chamas
Queimo, respiro, queimo
Queimou
Agora tudo é tristeza
Tudo é pena, penso eu, na minha ambivalência

Mas, que olhares que nada
Temos é o menor sofrer do mundo
Temos o mundo
Sacrifico a minha carne, tudo
Agora, queimo
Ardo
Imploro para continuar sentindo dor
E eis que a dor passa
E passará...

domingo, 24 de outubro de 2010

O óbvio do não-óbvio
Obviamente, objeto lançado ao ar
Oblívio - como lembrar de algo que nunca aconteceu?
Obtuso - a discórdia vem montada a cavalo de patins.

sábado, 23 de outubro de 2010

Inverteram a piada
Não entendi mais nada

- Ora, você nunca entende! (gargalhadas)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Insensato momento em que tento reter na retina o fulgor de um olhar.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Callado

Não só os cheiros
Mas os toques, os lumes, as bocas
Não apenas um índio nu
Em pêlo, nu
Mas a vinda ao mundo
Exuberante, gutural

Gritam, desvairadas
As penas, folhas
Plenas de sub-humanidade
E apenas seguem...as plácidas águas

Para onde correm os rios se não para o mar?

A lamúria é um canto indígena
É um canto, bem como cantos de outras tribos em outras gerações
Pois, por tudo o que é mais sagrado na pajelança
Canta-se para afastar os terrores mais ou menos niilistas
Desesperos do além-vida
Triunfos do aqui-voar.

Objeto

A lucidez me embriaga

O mundo é pastoso, conturbado

Os sentidos ofuscam meu verdadeiro sentido de sentir

O amor é minha única flecha

À caça dos anos e das vidas e mais vidas que me preenchem

Em busca do destino
Destino
Destino
Maldito dia em que inventaram a palavra!

domingo, 17 de outubro de 2010

Pontual

O ponto
É o final
Mas não é em si
Um fim
Pois está na metade
E o fim não justifica o meio.

sábado, 16 de outubro de 2010

Entrelinhas

Bom livro
É aquele que mostra sem querer
E que pode proporcionar
Os prazeres do mundo sem viajar
As curvas do rio sem velejar
E no percurso...as dúvidas, se tiver...

te faz sorrir quando a* personagem sorri
chorar quando chora
desesperar-se
pra acabar um dia, mesmo assim!

FIM!

*"Agora, todos os dicionários importantes brasileiros - Houaiss, Aurélio e Michaelis - e o Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) registram "personagem" como substantivo comum-de-dois, ou seja, registram que tanto se pode usar "O personagem" quanto "A personagem"." - Fonte: Google.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Utópsia

Um dia eu chego
Ah, se um dia eu chego
Eh, mas eu chego mesmo

Cheguei!

- Pegue uma senha...

Trair são

Desconsiderando tudo o que eu disse
Desconstruindo tudo o que um dia considerei verdadeiro
Desobstruindo todas as passagens do medo
Transformar-me-ei num camaleão
Numa pedra
Num rojão
Tudo para que o que penso agora me complete (neste exato momento)
E seja mais real do que a realidade que querem me fazer acreditar que é a real realidade
Traição, sublime, traição
Se não foras tu, eu mesma não existiria em minha pobre lealdade a velhos conceitos (mofados com cheiro azedo)
E, se tão amarga não fosses, nem teria graça provar de tua vacuidade de sentidos.

Liberdagem

A única liberdade de que gozam os seres humanos
É serem inteiramente responsáveis por seus atos
Assim sendo, seu destino é presa inalienável de suas escolhas
E estamos atados à liberdade até os dentes.

Linha de raciocínio

Eu vou te tirar da minha cabeça
Nem que seja a marretadas.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Oferenda

Bloco de sombras
Bloco de blocos
Jogos de armar

Na hora em que você atravessar essa rua
Na exata hora em que você ousar pousar sobre mim o seu olhar
Nesse instante
Um bloco de concreto desarmado bem na frente da minha glândula pineal
Tapará o sol e impedirá que ela funcione direito

Meu equlíbrio, novamente distante
Meus labirintos, tontos e emborcados, seu líquido como um sacrifício ao Deus-me-livre
As mãos desistentes
E os pés a seguir cegamente passos igualmente trôpegos

Que se danem os semi-deuses
É por uma criança que meus lábios se partem em silêncios
E as crianças são sempre oferecidas ao só-Deus-sabe

Ofereço-me em teu lugar
Oferta de mim feita, quem sabe trará boa colheita
Ou chuvas torrenciais?
A única certeza, então
É a oferta de mim-pão
Ao Deus-me-proteja, irmão de Deus-duvida, filho de Deus-dará.

sábado, 9 de outubro de 2010

Amor

- O que eu já te disse não te basta?
- Não, preciso que você fale sempre, mais e mais...me faça acreditar de verdade!
- Pois bem, eu te amo.
- Ah, não, assim eu não quero! Quero CONVICÇÃO!
- Mas, amor, é a única certeza que eu tenho!
- Meus ouvidos não se convenceram ainda...
- Deve ser porque ELES ainda não aprenderam a me amar...

Suave

O silêncio é uma ciência
Das mais inexatas possíveis
Inexata, incolor
Suave terreno baldio
De palavras deixadas para depois
Ou simplesmente, abandonadas...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Obrigada por me fazer lembrar que você existe
E que eu também existo
Olha, é verdade!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Vão

Dizem por aí que me entreguei...
Quem antes de você me conheceu, diz que não me reconhece mais
e quem agora me conhece, pensa que sempre fui assim
Mas eu não sou isto
Nem a entrega, nem a omissão
Meu dom maior é adivinhar pelo olhar
sentir
E é só isso o que posso oferecer

Dizem por aí que me entreguei...e que não exijo nada em troca
Deixe que falem, essas bestas
Não sou delas, não são minhas
E a injúria fica pairando sobre suas cabeças como nuvens pesadas e escuras

Que o mar me leve na onda do vazio
Se de mim escaparem palavras vadias
Sempre fui assim? Sempre sou
A entrega, a omissão
A linha do contraponto do sim e do não
Desanuvião.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Uma flor

Um caule verde entortando (como um desmaio lúcido e colorido)
Um copo com água

Guardo na estante o instante do aroma
Como se fosse possível captar a brisa da fecundidade intrínseca do desabrochar
Uma flor
Não é mais que uma flor
E nem quer ser

Leva o tempo, traz
Balança, dança
Descansa no olhar
No olhar que lhe retira a mais pura essência (malditos olhos, olhai!)
Fixa assim, a suave renúncia de viver para a beleza
Para outros jardins e sóis
Para outros botões.

Da palavra vício

Injetou em si mesmo aquele doce veneno
Os olhos lacrimejavam
Sabotava a cada passo a resolução, o acordo feito com sua (inconstante) consciência
Os olhos fixos no rastro luminoso que deixavam alguns automóveis
As mãos inquietas, dançarinas - gesticulava mesmo sem falar nada
O que era de seu medo, afinal? O que tinha feito com todas aquelas esperanças, colocadas propositalmente à beira de um incinerador? Teria deixado tudo acontecer à maneira do tempo, mas seu orgulho sempre foi maior do que qualquer lei universal. Seu orgulho e sua vontade. A vontade de recuperar o orgulho que se esvaíra pelo bueiro há alguns anos (talvez mais).

Sinto uma falta permanente de razão
Um despudor sub-repticiamente projetado para explodir na hora certa
Uma calma inconveniente
Uma leveza insensata que não posso mais explicar.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Libertad

Quando eu não sabia de nada
Eu era mais livre pra sentir
Eu já fui mais livre
Eu já fui

Agora sou esta presa fácil
Do destino que insisto em escolher.

sábado, 25 de setembro de 2010

(R)imáculo

Silenciei
Meu peito silenciou-se de uma perfeita harmonia
Suave brisa do amor
Aos tolos enfastia
A mim, poesia.

(Os poetas mais sinceros são aqueles que falam do que todo o mundo já sabe)

Être

Empresta as asas à imaginação
Deixa sair de si
Todo esse amor
Toda essa alegria
Explode em cacos que não ferem, são confetes, serpentinas

Só o seu ser já me deixou sendo.

Café com Caê

Gosto de livros
Porque eles tão pouco caso fazem dos significados
Que se comprometem apenas com a metamorfose das interpretações de cada pessoa que sobre eles pousa a vista

Cada pessoa é um livro
Ou uma maneira diferente de ler a vida.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Olhos abertos

Morto ele está
E morto permanece
Só que vivo, muito vivo

Agora compreendo o real significado da "morte"
Como uma transição entre o sonho e a realidade.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Lume

Era um átomo
Um istmo perfeito que enlaçava os rios, truncava os risos, mareava...
Uma selva, um temporal
Pântano do não-óbvio
Onde jacarés vagarosamente caçavam a minha sombra

Rítmico, tétrico, encefálico
Nada de novo, nada de mais
Demasiadas palavras, silêncios, frêmitos intermitentes
Nada de novo, nada de mais
Nada além do novo, do acaso
Dos lumes e dos ais

Esse lusco-fusco ainda me ludibria
A estranha passagem entre o sim e o não
O claro e o não tão claro assim...

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Fogueira

No sentido vertical
Quero viver olhando para cima
A lua me dá conforto
O sol (mesmo queimando as retinas) aquece meus pensamentos

Não precisaria olhar para o meu reflexo
Nem focalizar outros olhares
Perturbadores - franco-atiradores

Já dizia a minha mãe, parafraseando (inconscientemente) R.R.C. - "Você é uma bruxa".

domingo, 19 de setembro de 2010

Flutuar

O vôo é novo, tudo é novo
Parece que estou abrindo os olhos pela primeira vez
Parece até mesmo que estou flut...opa, estou mesmo!
Passei pelas vozes enfadonhas, passei pelas projeções de mim mesma, passei pelo receio de não existir
Agora subo, continuo subindo
E é só pensar em cair que já me encontro rente ao chão
"O segredo é não ter medo"
Uma voz dentro da minha cabeça me mostra a direção
E eu, quase desgostosa, não tenho escolha a não ser segui-la

Desperta
Olha para o teto e agradece
Que mais uma etapa da sua vida começou.

Diálogo sem intenção de ser uma conversa II

- Oi, você tem noção de tempo?
- Ontem mesmo te falarei que não!

- Oi, você tem noção de espaço?
- Onde você quer chegar fazendo aquelas perguntas?

- Oi, você tem senso comum?
- É...mais vale um pássaro na mão do que dois voando...

- Oi, cê tem bruchov?
- Gosto, gosto de batata.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Duplo sentido

Na insistência de olhar o sol de olhos abertos
Alguns acabam ficando cegos
Não percebem que a luz se faz ver pelas sombras
E que até as flores precisam desta para não morrerem

A noite é tão necessária quanto o dia
Absorver o frio, sentir falta do calor
Nesse sentido, a ausência é a avalista da presença
Ausência de sentido é o que denota que este um dia existiu

"E o silêncio é a moldura da música"

Em branco

Tanto de tinto instinto
Tento tanto que já não me contento
Tanto pranto, teu manto, meu canto
Tonteia até o tempo de não mais tentar

{De que valem as melodias, se o som já me transpassou veias e ossos, atingiu até meu sistema imunológico?}

Foi-se o tempo do mito
Agora quero o rito, o dito pelo não dito
Repito, quero o dom de dizer
Mas não tenho, não posso
E só digo palavras em branco

{Falsidade ideológica ou a falsa idéia lógica?}

Eu continuo falando sozinha (quem sabe as paredes tenham mesmo ouvidos...)
Ensaiando pra um dia
Poder mesmo me ouvir (em alto e bom tom, bemol, sustenól)
E assimilar os brancos que me preenchem por enquanto...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Nascimento

Salta o salto mais largo
Pensa, suspende o grito (guturalmente, é um sussurro em flor)
Sois então a pena mais leve que gira no ar, flutua esplêndida massa
Chega ao seu destino, dobra-se como quem amortece a queda brusca
Cede ao cansaço (uma fração de segundo apenas, um arrepio de cálido fulgor)

Espasmos te dirão com quem andas
Pulando sem direção
A passos largos, de mãos dadas com outros botões
Mais alturas, mais espaços
As pedras ficam cada vez mais altas e o salto...cada vez mais distante
Chegando lá em cima, senta no topo da imensidão azul
Sente o topo do mundo, o topo das idéias
E o teto do mundo é o céu
Que para ti se abriu no dia em que você, chorando de fome e alívio
Saltou do ventre da sua vida.

Maré II

Sei bem o que é ter o corpo fechado
Conheço o olhar de quem não tem nada a perder a não ser o tempo
E de quem espera não perder mais nem um minuto em devaneios

Permita-me escolher desta vez a voz da noite - suave, um pouco rouca
Escorro-me na areia: faz tempo que não chove!
Sei bem como é não estar presente
Conheço o olhar de quem pressente uma traição
E de quem tem certeza de que já traiu

Já vi esse rosto em algum lugar (terá sido no espelho?)
Esse olhar, que mais uma vez aponta para o rumo da coisa que coisa que coisa que coisa ainda mais agora
Olharei para dentro, então, já que não encontro mais nada do lado de lá do mar
Vagueio pelo lado de cá
Sem ver o horizonte, mas sentindo a brisa da manhã bagunçar o meu cabelo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

É no balanço do tempo
Que meu coração vem se embalar
Molha a terra, chuva vem molhar
Me empresta teus ventos, mamãe Iansã
Deixa carregar

Leva embora, leva
Deixa ir a tristeza
Deixa ir o tempo, deixa vir
Vaivém das luzes, vaivém dos anos
Tudo passa, um dia há de passar.

domingo, 5 de setembro de 2010

Duelo

Do livre-arbítrio manifesto
à facada púrpura de cuja fenda escapam vísceras dúbias (entre lisas e ásperas, sempre vísceras) - ingratidão e defesa. Vem o cavalo armado até os dentes, sobre o qual um nobre guerreiro a serviço da honra:
Me defendo como posso
Me defendo como posso
Me defendo como posso
Me defendo como posso

Desconheço esse jogo
Desconheço as regras
Desconheço
Me defendo como posso
Me defen
mdef
f.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Fundo

Prestes a me devorar por inteiro
A farinha do desejo, a farinha do desprezo, do desespero
Me como em carne viva avivando os sutis temperos do acaso
Te alimento como a uma lagarta gorda e cruel sob espesso véu de pele verde
Rastejando pelos poros, cruzando mares infinitos
Não sem ambigüidade
Mas livre de acessos de raiva momentâneos - imanifestos (pela fresta do esquecimento, lembra-te)

Sempre fui, sempre sou
Sempre estou
Aqui

Olhando-me no espelho da profundidade horizontal
Mergulhei e me afoguei
Não volto mais
.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Receita do dia

Olhou para todos os cantos da cozinha, procurava a espátula de metal. Daquela velha mosca, sempre a importunar, já conhecia os caminhos e vaivéns, sempre o mesmo itinerário - bancada, cadeira, fogão, topo da geladeira, de volta à bancada. Acendeu o fogo, preparou a fôrma, espalhou a grossa pasta branca no recipiente. O relógio marcava incessantemente 17:34 - 17:34, sempre em hora, nunca se atrasava. Lambidas nos olhos de mosca que morde o pão velho. Mordidas no pé do preto fogão do chão úmido de lajotas amarelas. Carne crua. Carne vermelha, vermelha - sem gordura, era muito mais saudável. A panela em riste, colher de pau, alho, cheiro-verde, manjericão. O molho era o sumo do sumo do crepitar nebuloso de seu mais íntimo pesar. As lágrimas eram de cebola, o fogo ardia em chamas azul-antigo (às vezes lhe passava alguns conselhos inúteis) e os restos jogava na pia, como se esta fosse o receptáculo mor de sujeira gosmenta. Ao atirar as lascas de orégano, um sentimento inefável percalçou um suave domínio sobre todo o ambiente. A música que emanava do óleo borbulhante lhe incendiou, o sabor ritmava em todo seu sangue. Começou a dançar, e não parou até que a sua batata terminou de assar.

sábado, 28 de agosto de 2010

Um rendez-vous com Nabokov

Tem que ser molhada
Tem que ser úmida
Se não for, ai dos ais

A pequena pele, a pequena
A pele pedindo óleo
Pelos poros vazando maré de azar
Poluente
Tem que ser poluente
Se não, não arde os olhos

Abra-se, Vladimir, deixe-me entrar no seu estilo sórdido
Estiliza-me
Para que eu deixe assim escapar mais palavras que me fazem sentido
A meus poros táteis do tédio e da presunção.

Insólita Insônia II

Pode devolver minha cabeça, agora!
Não precisas mais dela (até que te serviu bem enquanto não querias pensar em nada, né?)
Agora carece-me - esta que nunca foi sua - minha cabeça
Em suma, ouvidos, olhos, boca e nariz, todo o conjunto da obra, com mente altamente prática incluída, fizeste como O.O.F. com uma casa na praia - uso-capião - não é mesmo? Então, tô precisando bem dela agora.
Me devolve!
Já!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tépido

Trânsito fúnebre austero medíocre
Transe hipnótico autêntica prática
Clássicos prognósticos, fábulas tóxicas
Crises, absurdos, gnomos, pomos-de-adão
Bárbaros, ressurreição
Breve alucinação
Cômica fábrica mística, quase inóspita poluição
Cítricas peles cáusticas
Tangem címbalos, pélvicas mãos
Trazem água, fervente galão

Rubor

Hora de enxergar um passo através...
Mais um passo
Atravesse o rio
E encontre a saída do labirinto
Na entrada do labirinto
Na entrada da boca da língua pelo céu transpassado em vermelho vivo

Azul celeste, brilha o branco do olho cego
Brilham idéias, brilham pensamentos
Entram na mente da gente, esses caras
"Uma verdadeira broca cerebral" - como diria O.O.F.
A voz dela vai lá dentro da gente, semente espalhada no subconsciente
Inclemente, avisa aos descrentes que a hora já chegou
E que a mudança do mundo começou
E o céu já vai flamejar
Em vermelho vivo vivo vivo vivo até queimar.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A última era do egoísmo

Beba deste vinho
Não te pertences mais
És a sombra do que pensas que és de verdade
És um estalo do dedo de Deus

Meu filho
O fogo santo queima a maldade
A terra seca engole a iniqüidade
Os falsos, imorais e pecadores
Estão em ti tanto quanto a verdade e a complacência
A água limpa os erros desordenados
E a inocência retomará seu eixo
quando deixares de pensar em exigir dos outros mais do que tu mesmo podes oferecer
Quando fechares os olhos para as ofensas
e te concentrares no amor puro e compassivo
Verás que tudo isso faz sentido.

Maré

O escuro da noite
Não é apenas a ausência de luz
São os olhos negros do leopardo quando persegue a sua presa
Os dedos cobertos de fumaça de carvão na mina
Os cabelos da moça que se vai no próximo trem

Estrelas pintam o céu com brilho antigo...tão antigo que muitas já nem brilham mais
O que vemos é um passado restante
Uma imagem semelhante
Ao que agora se apresenta como real
Lua vertiginosa - você ainda está?
O mar negro do céu se abre
E as portas do infinito escancara
Para os olhos atentos - dedos dos pintores da alma

Quando reluzia teu olhar
As estrelas se envergonhavam
Só ficava o fulgor opaco servindo de cenário para o beijo inerte do sono e da adolescência
E a lua diminuía a cada verso que cantava aos meus ouvidos silenciosos
Pois a voz da noite
Se rende aos tons e semitons da vontade do amor
E aos silvos agudos que ecoam nas esquinas da febril cidade
Anunciando o nascer de uma nova calmaria.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Interurbano

Uma hora
E o tempo de uma vida embalado pra viagem
O tempo que não espera as dívidas serem pagas
Que não espera os dedos se acostumarem à velocidade dos anos
Que a fadiga não consegue limitar

Uma hora e muitos assuntos
Muitos pensamentos
Astutos minutos
Diminutos vencidos pelo cansaço

A saliva quente que esfria ao tocar o vento da noite
Faz dizer mais do que deveria
E as palavras cortam a distância
Como lâminas iridescentes atravessando a solidão

As aventuras numa terra distante
Se mesclam às lembranças de um passado recente
E as fotos ficam me olhando, olhando...os olhares que também me cortaram um dia
Mas que agora
São apenas fotografias.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Reencontro

Chuva de estrelas cadentes
Shiva, Krishna, Buda e Cristo
Príncipe dos mares, princípio e fim da espécie humana
Cachimbando caboclo da luz
Cachimba e joga tudo quanto é ruim fora
A maldade não tem lugar na terra de Deus
E os homens de Deus têm lugar nas estrelas
O lugar dos deuses astronautas, meus mestres nesta vida, meus guias

Seres divinos escutam a minha conversa com a lua
Fadas duendes elfos e salamandras
Amém, a todos eles
Do que não conheço não falo
Do que já aprendi não me orgulho

Amo o sol, a natureza e o som
A vibração inicial que deu o sopro incisivo da vida terrestre
Ao ciclo cármico meu agradecimento
Pela oportunidade de ter encarnado desta vez
Como mais uma filha da poeira cósmica, da luz
Para aprender pelas diferenças
Que somos todos iguais.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A incrível maravilha da metalinguagem onírica

Não permita, ó Deus, que o tempo apague a minha razão
Que a face oculta do medo tome as rédeas do meu viver
Que o equilíbrio me esqueça
Que as palavras sejam ditas sem pensar
Por mais necessárias que sejam para saciar meus desejos
Por mais sonhos esquisitos que eu possa seguir tendo para me livrar desses fantasmas
Por mais incertezas que comecem a lentamente se revelar dentro de mim

Um sonho dentro de outro sonho dentro de outro sonho dentro de um copo
A ante-sala da vitória é bem decorada
Mas tem muitas portas
Posso escolher seguir pelas portas dos caminhos tortuosos
Ou pelo portal do caminho reto - nesse, só passo se levar apenas o desapego do mundo ilusório

Quanto mais ando, mais vejo
Quanto mais canto, mais me desprendo
Canto, então.

domingo, 8 de agosto de 2010

Campus

Germano, esse era o seu nome.
Abraçado aos corredores vazios da faculdade, como se estes lhe refugiassem de si mesmo, como se tivessem algo além de azulejos frios para lhe oferecer, recordava sempre as velhas professoras: Beth era a mais durona, Paula a mais esquecida, Célia a menos exigente. Subia e descia os degraus da escadaria esperando encontrar um não-sei-o-quê de lembranças que deixara por lá ao abandonar o curso, mais especificamente um não-sei-quem que lhe havia roubado todo o seu início de juventude e de felicidade universitária. Passeando pelos locais externos ao campus, avistou o beco atrás da casinha suja usada como depósito, um verdadeiro canto. O seu cantinho. Seu e dela. Deles.

Indagou por onde andariam aqueles olhos (verdes e tristes) que haviam colorido suas tardes perdidas, jamais esquecidas, com perguntas que ele não sabia responder. Lembrou-se da forma como ela o fazia sentir, dos devaneios sem fim e das caminhadas que sempre chegavam à mesma pensão úmida no fim do dia.

Sempre doía na sua alma ter que se despedir de todas essas lembranças. Doía mas, no fim, saía mais leve de lá.
Semestre após semestre, sempre retornava aos antigos corredores.

sábado, 7 de agosto de 2010

Aprendi que...

...abrir-se para o novo é ::
se recompor, deixar o passado em seu lugar, olhar para o futuro, viver o agora.

Bem assim como me ensinaram...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Sh.

Calam-se as bocas
Os indigentes passam frio
E calam a boca
Pra não entrar um ar gelado
Nem sair mais besteiras

Cobrem os rostos: são-paulinos, corinthianos, palmeirenses
O gelo cobre o resto da calçada
E as luvas não servem mais pra nada
A não ser pra fingir ser um assassino em série

O frio luta esgrima com os lábios
Os lábios espremem o frio com os dentes
E os dentes?
Brrr.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Sonho inventado

Entrei por uma porta
Um tapete verde reluzia sob meus pés
A chave eu engoli
E me tranquei pelo lado de fora

Andava sem muita precisão
Cambaleando entre palavras tortas
Tropeço num ce cedilha
Me deito sobre flores mortas

Abstraio os quadros nas paredes, que me seguem todos com o olhar
Abstratos, retratos
Sombras que se movem, arbustos fluorescentes

Estava escrito na porta:
"Só entre se tiver certeza"
Certeza do quê?
Certeza...é o que não me importa
Por isso entro sem a certeza
De sair
Com a clareza
De seguir
E com a nobreza
De tentar

"A mando de quem entrastes aqui?"
Sob o comando do possível erro
Me lancei ao acerto
Sou filho da luz
Posso ser onde eu quiser.

Diálogo sem intenção de ser uma conversa

- Onde você aprendeu essa técnica, babaca?
- Qual, a de ignorar as ofensas?
- É, essa daí, seu ridículo...
- Ah, foi num curso há alguns anos...aqui em Curitiba mesmo...
- Poxa, se você não fosse tão idiota eu te pediria o contato de quem te ensinou isso aí...
- É, ali perto da Biblioteca Pública, sabe? Do lado da loja que vende bombom a um real...
- Hmm...você é um porco mesmo, bombom a um real??
- Pf.

sábado, 31 de julho de 2010

Som, barulho e afins

As palavras se repetem, repetem...
Recorrentes são as frases mal-ditas e pouco expostas à luz do sol, o que as deixa com um aspecto velho e cheirando a mofo
Repetem versos, repetem refrões, versões de um mesmo som
Traduzidas e praticadas, reduzidas, esticadas
Repetidas
Inúmeras inúmeras INCONTÁVEIS vezes
Repetidas
Atenhamo-nos agora ao cerne da questão: onde andará a repetição?
Eu te digo, companheiro, está no final da canção.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Explosão

Alguém me disse
que todos os números levam ao mesmo infinito
E que, antes de ser eu mesma
Sou eu, eu sou
A semente da criação divina
O centro
O sol
A fonte da sabedoria universal
e do amor eterno

Alguém me disse isso e sumiu
Um dia fui procurar quem me falou todas essas coisas
Para me desfazer do peso de sentir tanta imensidão
E voltar a ser pequeno pequeno, um grão de areia, um minúsculo capítulo da história da humanidade, um trecho da evolução do homem-macaco, homem-máquina-pó, máquina-pó

Buscava nos livros o caminho de volta, mas só encontrava mais e mais emaranhados de complicado conhecimento, intricados caminhos, difíceis de trilhar, teorias, técnicas todas demonstrações claras da consciência que eu deveria adquirir mas que evitava por preguiça e preconceito
Nas pessoas buscava lições, argumentos para definitivamente fechar os olhos a tudo o que se me apresentava e que eu via como a mais pura verdade, por mais dura que fosse e por mais desapego que isso pudesse exigir de mim
Em cada história só enxergava mais e mais o poder divino, o súbito olhar da criação a me derramar sentidos e me encher de possibilidades

Depois de procurar bastante, ainda tentanto ignorar a inexistência do caminho para alcançar a minha ignorância completa
De tanto forçar a mente para entender
De tanto tentar explicar o impossível
Meu cérebro explodiu

Só sobrou o meu espírito
E foi aí que eu entendi.
As pombas também voam
As pombas voam
Eu não.

sábado, 24 de julho de 2010

Alegria

Sei da plena necessidade da tristeza
Assim como da insalubre tarefa de libertá-la pelo mundo afora
A tristeza se agarra nos fios
Os mesmos fios de cabelo que balançam ao som do blues
As mesmas raízes brancas
O mesmo vento que venta ventando
E a mesma coisa que continua coisando
Como coisava antes por aqui
Agora coisa por lá
E por aí.

Eco

E este ser sempre a me falar
E este ente sempre a sussurrar
A urrar como quem quer esconder a alegria
De esquecer quem lhe fez mal algum
Ou de lembrar de palavras que nao podem ser ouvidas, salvo pelos ecos que vazam das realidades paralelas que tanto insistem em existir.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Cativeiro

Cada pessoa no caminho
É um ser diferente para sermos
Cada pessoa
É mais uma pessoa dentre tantas que habitam nossa personalidade, seja ela de um mundo paralelo ou real...

Faço agora um cofre de palavras
Em que frases criminosas mal-ditas transitam e se dão as mãos, tocam gaita e esperam a liberdade incondicional
E não se perdem no infinito do espaço
Nem se misturam ao universo virtual da MINHA realidade paralela.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Samba

Me dê um tempo
Pra que meu samba recomece
Sem breque desencontrado
Sem coro desafinado
Sem surdo de papelão

Só o samba
Aquele velho samba
Empoeirado
Amarelado
Enredado
Samba-choro-canção
Que de bamba só tem a metade

Meu desconsolo
Num samba-partido
Meu samba-saudade
Meu breve refrão.

Verde novo

Deixo o verde, abandonado
Aos poucos o passado toma seu rumo de casa
E as lembranças não mais vêm perturbar meu sono
Caídos, um a um, os galhos de um velho abacateiro se desfazem ao som do vento, exauridos pela correnteza dos anos...
Os tons mudam, modulam os passos da solidão companheira, aquela breve e embriagada paixão rotineira, companheira.
Cantiga, diga lá - sobre que versos vou caminhar
Bemóis de memórias que vazam pelos ouvidos e pálpebras e unhas e cabelos
Os dedos - suam
As mãos - tremem
Os ouvidos - vivos, muito vivos
E o rosto...ah, impávido rosto, imutável (quantas faces te negastes a revelar para não deixar conhecer sua verdadeira feição?)

Eis que o verde deságua
Em teus amarelos sorrisos.

domingo, 11 de julho de 2010

Mais uma vez

O amor zomba de mim
Como a uma criança que não sabe amarrar os sapatos.

sábado, 10 de julho de 2010

Quanta petulância
Aquele que não lê um poema sequer
Querer escrever a poesia, a vida, ou coisa qualquer.

Itinerário

Quase silencioso
Passa o bonde, solta gente, solta gritos, ais descomunais
Quase na curva
Despenteia nossas notas musicais
Novas notas, bemóis
Sustenidos rivais
Arquejantes melodias...dissolvo o sentido na esperança de não mais sentir o tempo que passa
E o que não passa

Sou passageira
Mais uma
Passageira.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Espera

Cospe e me abraça a inútil paixão
E a rima vai ficar pedindo pra esperar.

Tiro

Tudo gira
E a minha cabeça sempre no lugar

O mundo se entorta, entorta as entradas
Engatinha na vida
E já quer apostar corrida.

As páginas mudas
As linhas tortas
Engatilham os caminhos ligeiros
Avalio o desconforto - faria tudo de novo?
Peço licença e continuo
Sigo pela curva, a endireitada curva, a mesma curva acidentada e ensanguentada
Á(ssssssssssss)cido gosto de erva e curativos
Pernas bambas, pés descalços, rosto encharcado de teimosia
Mais uma vez, a flecha certeira - e lá vem ela!

Me deixe em paz com meus desassossegos
Que de ti não quero nada além do olhar...
Eles pensam que me conhecem
De fato, conhecem...
Vou ali perguntar-lhes do que se trata.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Não quero mais saber das pessoas

Não quero mais saber dos bichos

Não quero mais saber das plantas

Os poemas, que nem me venham bater à janela

As canções, não me toquem, não me cantem

Não que eu não queira mais saber do sofrer

Mas não quero mais saber do escuro, do claro, do jogo de sombras que o sol desenha na calçada

Nunca me obrigue a abrir os olhos

Quando posso sonhar.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Do chão que pisamos juntos - o resto das folhas secas.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Coisa

Abriu a porta do quarto, avistou a pilha de roupas. Lá estava ela, sentada ao pé da cama revirada, olhos borrados de chorar, lábios vermelhos e cabelos desgrenhados, imprecava contra a humanidade. Não era compreendida, essa pobre mulher. Esse podre homem, que tanto mal lhe fazia, era amado de forma doentia, era perseguido, sonhado, venerado, idolatrado. Odiado.

Ao final do terceiro dia, ele entrou no quarto. Ela se jogou a seus pés como um náufrago se agarraria a um pedaço de madeira, beijou seus dedos, amou. Ainda assim, ele não a perdoava por ser quem era - ela, tão louca inconstante. Ele, tão inteligente e superior a qualquer sentimento mesquinho, limitou-se a dizer um "bom dia". Juntou a louça suja do quarto, as meias, os papéis rasgados e encharcados do choro da bela moça; olhou e sorriu.

Esse sorriso iluminou o sorriso do lixo humano que antes se encontrava largado à poeira e aos ratos. A luz saiu dele, entrou nela, transpassou encarnações, ultrapassou a barreira do som. Alumiou-se uma faísca de mulher na coisa que era.

La nada

A caminho do caminho
Mais belo é andar sozinho
Pois sozinho me encontro, me acho fácil, macio
E só, somente só, caminho comigo, com Deus e o mundo
Abro os olhos, me vejo
Me entrego a mim
E a nada temo
Pois nada tenho
E nada tenho a perder.

sábado, 3 de julho de 2010

Ser ou não estar

Estamos
Se não estivéssemos, seríamos
Sendo, não somos
Pos só somos se estamos

E não estaríamos sendo algo que não é?

Sendo assim, me rendo à maré
E que seja o que o tempo quiser

Pois o tempo, ah...o tempo não engana nem o mané.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Quem não tem cão caça como gato.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Esquecimento

De nada adiantaram as palavras ditas e re-ditas, novamente se esquece do que decidiu sentir.

Olhou para o relógio: parado novamente. Sempre esquecia de ajustá-lo, sempre achava estar com tempo suficiente, mas sempre chegava atrasada aos compromissos. Pegou algumas fotos velhas que jaziam sobre a escrivaninha e começou a observar...em todas aparecia de olhos fechados. O que aquilo queria dizer? Exatamente não enxergava o que se passava em sua vida, não via as lições que deveria aprender com os problemas que enfrentava. Seguia guiando-se no escuro, cega e muda, pois não se comunicaria com ninguém até atingir a perfeição humana (uma promessa feita ao nascer).

Guardou as fotos, em alguns instantes adormeceria ao som de trombetas e sinos.
Velhas cartas sobre a mesa
Assim recordava
Assim guardava rancores
Assim murmurava

Por onde andariam aqueles passos largos?

O sol iluminava e queimava, ardia os olhos, os lábios
Vermelhas suas lembranças
Vermelhas suas saudades
Verdes as esperanças
Amarela sua felicidade
Cor-de-rosa seu amor

domingo, 27 de junho de 2010

Brancos, brancos

De tão tristes ficaram brancos

Meus cabelos longos e brancos

Nenhum fio sequer permanece intacto

à suave cor que se embrenha pela pele

e sobe pelo couro cabeludo

Até a ponta

Pontas brancas

Raízes brancas

Sem rugas, me sinto impotente

Sem rugas, não tenho experiência

Mas tenho cabelos brancos

Brancos como a neve

Brancos como só a melancolia sabe ser

E como só as mais belas melodias sabem cantar

Limpos, brancos, transparentes

Tudo isso é reflexo do presente

E do passado que deixei passar.

No silêncio me ouço, ouço as luzes, ouço o mar
Achei que estivesse sozinha
Quando me deparei, lá estava ela, a saudade, novamente a me repreender
Estava me esperando
Pra me dizer que eu não devia sentir vergonha de tê-la como companheira
Ou que eu não deixasse de dizer o que sinto
A quem quer que fosse

Ela me pegou pela mão, me abraçou
Lamentamos juntas os desafios da vida
E descobrimos que somos felizes
Uma tem à outra, não estamos a sós
Beijei-a na testa, agradeci,
e ela sumiu.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Insólita insônia

Enquanto o sono não vem, faço uma canção para os meus sapatos velhos
Desgastados, só lhes resta a carcaça
Calçados, me parecem feios e sem vida
Me servem tão bem
Mas não me protegem mais da chuva
Nem das pedras no caminho
Muito menos da tortuosidade dos próprios caminhos

Com eles trilhei florestas e cordilheiras
Corri de elefantes, subi e desci escadarias
Dancei, escorreguei, tropecei
E até cheguei a acreditar que nunca encontraria sapatos melhores
Mas esse tempo passou
E comprei um par de sandálias.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Da sabedoria

Aprendi a viver
Quando me libertei para fazer as minhas próprias escolhas

Aprendi a amar
Quando aprendi a perdoar

Aprendi a aprender
Quando todas as experiências, fáceis ou difíceis, passaram a me favorecer
e quando não quis acumular mais conhecimento só para mostrar para o mundo do que sou capaz
Aprendi a admirar as pessoas
Quando aprendi a me admirar
E a ouvir os outros
Quando ninguém mais quis me escutar

Aprendi a seguir bons conselhos
E a aconselhar somente pela expressão da verdade no meu coração

Aprendi a olhar nos olhos
Aprendi que não estou sozinha no mundo
Aprendi que todo ser humano está aqui para aprender a ser um melhor ser humano
E que a evolução é constante, conforme a força de vontade de cada um
A natureza mostra tudo, o saber Deus é quem dá
Sigamos, então, aprendendo...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Não devia ter sonhado hoje ::

O sono me aturdiu
O sono me arrebatou
De tão real, me iludiu

E a vigília se tornou meu pior inimigo
Hoje
O sonho foi mais divertido que a realidade

Devia ter acordado logo.

domingo, 20 de junho de 2010

Dessa imensidão
O mergulho é só um vislumbre

Legal é quando o mar te invade
Você é o mar
Você é imenso
Imerso

Bate no fundo e volta, sobe, flutua
De tão densos não conseguimos flutuar
De tão leves não conseguimos mergulhar
O meio é então
O caminho, o equilíbrio, o estável estado de estar

A água te envolve,
Te molha sem querer
E quem é o dono da maré?

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Alguma coisa

Que susto vi nos teus olhos, um susto afigurado pelo piscar súbito e desvio de visão. Assim se transfigurou a minha face e os meus dentes franziram a minha testa como quem não quer demonstrar qualquer afetação. O rubor me denunciou...o que acontece é que sempre espero demais de qualquer situação, e a cara sempre cai no chão, aconteça o que acontecer.

- Depois não vá dizer que eu não avisei!

Júlia me disse que tem que ser feliz. O que lhe digo, minha irmã, é que nem tudo na vida se resume a felicidade, e, digo mais, o amor é ainda melhor que a felicidade. O tempo é curto e infinito, o amor é infinito, o amor...é infinito.

Ele passou pelo corredor de pés descalços e subiu as escadas. Foi até o quarto da mulher, que dormia babando na fronha. Pegou um copo americano, colocou sobre a mesa, encheu de água. Logo, sua dentadura boiava dentro do recipiente e ele dormia abraçado ao dorso quente da enfermeira.

Ela

Muito velha pra ser jovem
Muito nova pra ser experiente
Muito gasta pra ser útil
Muito lúcida para a loucura
Muito feia para a moda
Muito séria para a aventura
Muito política para a malandragem
Muito livre para o escritório
Muito injusta para a caridade
Muito sincera para a verdade
Muito clássica para a cidade
Muito fêmea para os homens

Muito aérea
Muito escorregadia
Muito efêmera
Muito entusiasta

Para ela
Para ela
E só para ela.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Lorota

A Monalisa me sorriu - é verdade!

- Pedro, não me amole, você só quer me enganar
- Tá, mas eu sempre acabo contando a verdade, já você...
- O que você está insinuando?
- Que a essas alturas você já devia ser sincera comigo.
- Tá, mas e se eu só conseguir mentir, achando que estou sendo verdadeira?
- Nesse caso...tudo bem, contanto que você não engane a si mesma...
- Ah, você é demais!
- Demais é o meu pai, eu sou normal.

Do desprendimento

Pedras, espinhos, ribanceiras
Caminho tortuoso do sangue pelas veias
Artérias quentes que te querem abraçar
Matéria de que sou parte, daquilo que não me pertence mais
Pernas pro ar, vaca no brejo
Tudo isso no liquidificador, com uma pitada de pimenta
Aguenta
Agora, solto no espaço meu pensamento viaja
A dez quilômetros por hora e acelerando

Outra vez, mais uma
A dormir, a sonhar, a vagar pelas estrelas
E a esperar um ônibus vazio, com lugar pra sentar
Sem olhos pra me ver, me ouço pensar
Penso
Pensei
E não cheguei a conclusão nenhuma.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Rumo

Eis que a vida segue.
Retoma seu curso e ruma pelo caminho do meio, a violenta dádiva de viver, extrema e inconstante - me perfura os pulmões com suas agressões, quando me deixo ferir.
Os caminhos são naturais: nem sempre iguais, mas sempre pra cima e evoluindo, pois mesmo que não queiramos admitir, estamos em constante aprendizado. Todas as coisas ruins são boas, tudo é bom pra quem vive sem esperar, o conforto se torna fácil, a morte se torna fácil, os relacionamentos são simples. Daqui eu não levo nada além daquilo que eu aprendi.

:: Quando chegar o momento de eu cantar
Eu cantarei um canto alegre, canto pela paz e harmonia
E todas as coisas que por mim passarem vou cantar

A vida é simples pra quem não espera nada
Além do sol, da natureza e das estrelas sempre a brilhar
E do som que emana do vento e da correnteza do mar

Hoje, no meu canto não tem guerra
Só tem amor ::
O silêncio é individual e coletivo, porque ele une, transforma, centraliza as atenções da sua mente para o seu ser. O essencial é mudo. A essência é.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Obviedade

Quis tanto escrever sobre o óbvio, que acabou caindo na excentricidade. O excêntrico, no entanto, com o passar dos tempos deixou a marginalidade e tornou-se o centro, o óbvio mais óbvio que ninguém jamais pôde imaginar. De seus dedos saía apenas o novo, o exótico, o inédito, mas depois era o velho, o comum, o vulgar, tudo jogado às suas costas com a fama e o peso da credibilidade. Assim, contou sua história para o mundo, ora inventando, ora revelando fatos verídicos insalubres, mas sempre rodeado de expectativas e de mulheres. Aos seus pés, puxa-sacos, aproveitadores, mais mulheres.
Sempre quis a obviedade, mas agora era o óbvio em pessoa, um peixe fora d'água com cara de comum.

Fim do meu, fim de mim

Começo este pelo fim, dizendo que não estou mais nem aí
Por mais incrível que pareça, me cansei
Cansados meus ossos e cansada a minha pele
Canso meus ouvidos facilmente ao que outrora quis tanto ouvir

Penosas foram as palavras malditas
Triste fim
Triste

Ainda bem que me alegro facilmente, tem gente muito pior do que eu por aí.

O meio

Vivo na dualidade
Entre o sim e o não
Entre o escuro e o claro
Me calo
Falo sem pensar
O que penso antes de pensar
Pois, se me ponho a pensar
Penso que penso errado
E deixo de pensar

O certo e o errado
Nenhum desses me conforma
Quero sempre o meio
Pelo meio caminho sem amarras
E sem direção certeira
Até encontrar a calmaria
Na imensidão das idéias
No percurso dos monólogos
Dos diálogos com minha consciência
Peço, sem intermitência
Senhor, dai-me paciência.
Fechei as minhas portas, engoli a chave. (2)

terça-feira, 25 de maio de 2010

Da fúria

A qualquer momento você vai explodir em fúria
Os gritos de revolta vão escorregar de teus ombros e inundar a sala, os quartos, estragar a TV
Você vai querer nunca ter me dado ouvidos, vai querer me bater com a faca de cortar pão
Esmagar meus dedos na porta
Estraçalhar aquele meu vestido que você tanto gostava

Mas, entendo que é só sua raiva florescendo
Entendo que é só a sua mente
E que você é muito maior que isso
E que o meu querer é maior do que você e do que eu, é grande, então.

Vou ali descascar uma ferida, já volto.

domingo, 23 de maio de 2010

Nós, como enganos

E hoje me pergunto:
- Onde foi que eu me errei?

Nos erros nos acertamos na vida e consertamos o nosso passo, pulsamos no infinito do espaço

Poeira cósmica que somos
Não admitimos
nunca
Que o apego ao erro
É o pior condutor de enganos.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Até quem respira do mesmo ar sabe que somos feitos de um só tempo, de uma só vida
Da vida intensa que negamos um dia
E dos sofrimentos que nos fazem crescer

Todos os caminhos me levam ao centro de mim

Passeio

- De tempos em tempos me vem à memória um pedacinho do teu rosto que caiu de um quadro

No caminho que meus passos junto aos teus fizeram
Vejo uma flor que seca e torna-se paisagem
Vejo luzes de todas as cores
Vejo formas geométricas
Vejo meus desejos amortecidos pelo esquecimento
Vejo uma construção imponente de cimento e pedras
E a lembrança de uma discórdia distante
De um olhar
De um sorriso
De outros sorrisos
E de outras gentes que por aqui andaram junto a nós

Quanto disso é meu?

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Salgo a caminar por la mañana azul

La calle se acerca
Las luces se apagan
Los hombres se visten
Y la mujer se peina
Se peina
Se pinta
La reina

Del pueblo que la mira
Nace un grito de infamia
Como el que le dan a los criminosos - BANDIDA

Banida está de la sociedad
Y por la suciedad camina tranquila
Así, en las esquinas, esperando al hombre que la salvará.

Assim mesmo

Na minha pele deixo-te marcar os sinais sutis - leve na areia a lagarta que volta pra casa
Descanso na sombra, quero sempre ver os olhos...de escuro a claro nos segundos das horas
Parece ser tanto o comum que não parece, as letras, as frases, os versos, as melodias - minha mão, tanto verde, tanta terra pra pisar - de tantas coisas já ditas sobrou o que já não importa mais...

- Um dia me debruço sobre você e corto teu cabelo.
- Tá, mas então vou pintar a tua orelha de azul anil
- Ué?
- É.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Verso

Escrevi em verso e rima
Uma história de princesa - a princesa
Uma fábula, um poema
Um conto sem tema - um hai-kai
Aberto por todos que tiverem razão
Incerto
E de suas impressões, fiz um pano de prato
De suas opiniões, fiz uma grande manta azul
Com retalhos, mil pedaços
Cada olhar em dois pontos, um ponto de observação
Dos despudores a minha cama
Do autoritarismo meu sonho de consumo
E das minhas palavras o erro de não dizer
Que todos fazem sentido - como podem - daquilo que me lêem

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Ao lado

Arte me envolvo me demito
Que te quero mais perto
Que minha própria alma prima
Matéria de que sou parte - arte
Sou prisma e quadro da mesma paisagem
Que seus olhos nítidos refletem
Assim que esquecem de os meus olhar.

Uma surra

Sentei num banco molhado
Era meu corpo que gelava
Eram minhas mãos que tremiam
Era meu pensamento que viajava

Caí de madura, arrebentei-me no asfalto
Não haveria nada que me fizesse parar naquele momento?

Ouvi um silêncio dentro de mim :: era minha consciência que me dava pauladas

Cada golpe me dava a sensação de ser uma pessoa horrível, de fazer mal, de bagunçar outras cabeças para arrumar a minha. Aos poucos as batidas foram cessando, parei de gemer, parei de ofegar...meu sangue tomou seu curso natural, como se nada tivesse acontecido, e eu parei de pensar. Minha consciência desistiu de mim.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Um livro aberto sobre a mesa, um rádio, uma gaveta

Assim se encontrava nu, com seus pesadelos e ambições. Perdeu a casa, perdeu o cachorro, perdeu a mulher num desencontro, perdeu o dinheiro e a vergonha de ser pobre. Fora lindo, fora exuberante como um pavão, fora quase um rei. Agora era só com seus delírios. Uma história contada e re-contada milhares de vezes por pessoas alheias à sua felicidade, pessoas esdrúxulas com idéias quadradas e anéis, filhos e parentes para cuidar, grama para cortar, contas a pagar, carros a estacionar. Nada lhe dava mais alegria que sentir-se ótimo perto delas, saber que não tinha mais com que se preocupar, já que o destino lhe daria tudo de que precisasse. Sua memória agora era como uma caixinha de surpresas que lhe revelava fotos desbotadas de sua distante vida, aleatórias como só os sonhos sabem ser. Viveu para sempre em seu onírico mundo, isolado da maldade e do desconforto, longe do chão, perto de Deus.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Livro

Mudo de idéia, recomeço numa nova linha de raciocínio
Eis que me entrego às palavras, às doces palavras unidas em frases unidas em diálogos unidas em histórias que fazem parte do meu livrinho de comédias crônicas - insaturadas de realidade imóvel e terrivelmente coerente, em que páginas e mais páginas de fantasia auto-mutante saltam aos olhos de quem lê.

Capítulo um :: A saída pela direita

Descobri que sou um bicho e que tenho sentimentos
Descobri que animais não são respeitados neste mundo

Capítulo dois :: O caminho torto

Tropecei numa pedra, machuquei o joelho

Capítulo três :: O salto

Resolvi desistir do hermetismo
Resolvi escrever um best-seller

Capítulo quatro :: A pena

Me flagrei solitária escrevendo novamente.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Dança

Dançando na madrugada fria, danço noite, danço dia
Dançam as nuvens, dança a foice no braço torto manso, olhos paralíticos, olhos de lince, olhos de ver
Dançam as árvores em sutil balanço presas à terra que inunda fértil a criação do universo
Danço peixes, danço mares, danço pregos prepotentes de estilhaços nos pés
Os pés esburacados, as mãos que balançam o equilíbrio perfeito
A dança do sorriso, a dança da dança do não ser, a dança do poema e do verso, dançarinos das palavras malditas
Danço a invenção, a rima, a prosa e a carta de amor, dançaremos juntos até meu verso calar - até minha boca secar
À repetição, ao cansaço, à timidez e à preguiça, dancem, pois, por não temer a má notícia
Das trepadeiras nodosas, dos troncos e das bebedeiras, dançam então, ao sopro da floresta inteira, as sete maravilhas do mundo redondo, os tetos limpos, os gatos frescos, os pais aflitos
Danço na escada da escola retalhada pelo tempo
A dança que deixam meus passos atentos

domingo, 2 de maio de 2010

Aqui

Ali me deito, sobre o tapete rosado de flores machucadas. Ali, repouso meus olhos e meus ouvidos, deixo minhas lembranças e desejos, descubro que sozinha posso sonhar à vontade...ali se curam doenças, se regeneram tecidos, se criam as mais belas canções e, a vagar pela madrugada escura, imagens se tornam pessoas, pessoas se tornam anúncios e o caos se transforma na coerência pura. Ali nunca estive, ali sempre sou. Ali, dentro de mim, tudo se torna confortável e minha vida inteira faz sentido, alimento-me, nutro-me, cubro-me de realização e cuidados. Em todo lugar, ali existe. Aqui também.

sábado, 1 de maio de 2010

Eis que...

...não esqueço, não esqueço, não esqueço, não esqueço.

Esqueci.

Observante

Inevitável abrir os olhos, perceber, fazer acontecer. É o rumo natural que se toma, a todo instante, estando em paz com o divino...crescer é parte da obra humana, crescer é ser cada vez mais observador e ouvinte de tudo o que acontece ao seu redor, desenvolver uma consciência, uma plenitude que só chega a um certo nível no tempo da velhice (que não quer dizer muitos anos de vida). Mesmo depois de velho, o espírito evolui, evolui, continua existindo e evoluindo e nunca volta atrás, em sua infinita magnitude. Todas as pessoas que passam por nossa vida são ali colocadas por algum motivo, nada de coincidências, nada de enganos. Os enganos são criados por nós e pela nossa limitada mente, escassa de experiências e supostamente portadora de todo o saber do mundo. O que nos engana são os julgamentos. O que nos mata é a ponta da língua. O que nos fere são nossos próprios pensamentos.

Nenhum mal pode me atingir, pois sou infinito.

Sem mim

O tempo passou e eu não estava em mim. Estive sem mim esse tempo todo. Acordei, e agora tudo parece diferente.
Às vezes eu me despersonalizo. Às vezes me dissolvo no vento, no tempo, no tédio, na solidão dos meus pensamentos. Sempre que volto à realidade, esta é tão real que é insuportavelmente deliciosa, minhas palavras são sinceras, minha mente flui como um rio desesperado. Penso que existo, mas a única coisa que realmente existe é o amor, o tempo não existe, e eu sou feita do mais puro amor divino. Ainda assim, é esperado de mim resolver as minhas pendências, chacoalho-me e calço minhas botinas de andar no mundo, disposta a enfrentar tudo e todos. Sem palavras para explicar o que são esses lapsos de vida colocados sobre meus ombros sem a minha autorização, deixo-me levar por esse tempo que não passa, esse desdobramento da alma que resulta em infinitas reflexões, essa desilusão tão fantástica que ocorre naturalmente desde que me conheço por gente. A isso chamo o meu sono de vigília, minha doce saudação ao mundo que me aguarda, sem temor, sem conflitos, sem julgamentos...amorosamente amorfo, enfim.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Próxima parada

As costas da senhora doendo, os cabelos do moço chacoalhando, as mãos fortes do pedreiro segurando no alto. Entram bolsas, saem guarda-chuvas, entram pacotes, saem celulares, bonés, óculos e todos os acessórios necessários para uma viagem por Curitiba. A chuva torna tudo mais dramático e abafado, janelas fechadas, cabelos molhados, pés pisados e barrigas encostadas intensificam a sensação de desconforto dos passageiros de pé. Aos sentados, resta a solidariedade pelo esforço dos outros em segurar-se nas curvas, evitado por alguns ao estarem tão esmagados a ponto de não terem que se apoiar em nada. Lá de longe eles se vêem, cada um a seu tempo, e dão graças a Deus por estarem a certa distância. Ela não tem que desligar o MP3, ele não terá que parar de pensar na prova de amanhã. A conversa não existirá, mesmo quando o biarticulado estiver mais vazio. Ela olha o horizonte cinza, ele observa um velhinho que reclama da artrite com uma dona de casa. Ambos pensam em quão falsamente se comportam; até que se gostam, não acham defeito algum no outro. Mas não dá pra conversarem a sós. Não mesmo! Ela torce para que ele desça logo, ele para que o tubo da moça não demore em chegar. Assim, interagem mostrando compreensão - justificam-se com diversos argumentos, entre eles o de que não se viram - e indignação - ele/ela não veio falar comigo, eu devo ser uma pessoa terrível mesmo!

Foi a viagem mais longa do dia.

domingo, 25 de abril de 2010

Da sorte desfeita

Qualquer coisa é menos irritante que uma conversa não terminada.


- Olhe amigo, penei pra chegar até aqui, viu?


Minha cabeça liquefeita, especialmente naquele dia eu sofria por antecipação. Buscava dar sentido às palavras, arranhava algumas expressões inofensivas, tentava ser o mais próxima de mim mesma possível. Nada adiantava, as coisas pareciam todas fora de lugar, o mundo parecia desordenado e, no entanto, eu sabia estar fazendo a coisa certa. Até que não tinha sido tão ruim aquela segura distância mantida por tanto tempo...no fim das contas, eu sou realmente conhecedora de tudo o que se passa na minha mente?
Apanhei uma caneta, comecei a rabiscar um velho caderno...tudo o que saía eram padrões de formas geométricas, nada de poesia, nada de melodias, nada de rimas...e eu que só queria fazer uma música para tirar de mim todo aquele peso. Sem sucesso, dormi. Adormecendo, me vi correndo através de uma ponte e saltando sobre um abismo que apenas encontrava um caudaloso rio em seu final. No rio, água. Nas profundezas, pedras. Novamente na superfície, ar respirável e um fio de esperança vertendo juntamente com meu corpo lento que se dirigia até a margem. Finalmente, quem eu esperava encontrar.

sábado, 24 de abril de 2010

Penso que te esqueço, e quando penso...já estou te seguindo mais uma vez.

- Te segura, minha filha, que isso é coisa boa pra você.

Ela me falava assim, como quem não quer nada, como quem só espera dizer aquilo que você acha que não quer ouvir. Eu ouvia também, atenta, sedenta, mais alguns minutos com ela e já poderia saltar novamente para a vida, como da primeira vez. Sua voz macia me dizia para que não enfraquecesse, que fosse firme em qualquer coisa que fizesse, mesmo que aquilo não saísse como esperado...quem espera demais nunca está conformado, segundo ela, e nunca nos poderíamos apegar aos resultados de qualquer coisa que fosse. Fazendo com certeza, sabendo que é bom, não haveria mal nenhum, pois o mal está dentro da cabeça das pessoas. Assim me conquistava, me tranquilizava, me dava ânimo para seguir em frente, com poucas palavras, mas sábias e de coração aberto, como só uma mãe sabe ter.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A luz

Um dia Dora chegou em casa mais cedo e encontrou tudo diferente. Os chinelos, mesa, cama, óculos, livros, todas as coisas fora do lugar. Seus CDs e discos não estavam no local de sempre, suas roupas penduradas no teto, a máquina de lavar no banheiro. Um arrepio escalou sua espinha, pensou em assalto. Pensou alto, pensou...lá fora piscavam as insistentes luzinhas de natal e a vizinha estendia despreocupadamente um tapete na janela. Enxugou a testa, refletiu...estava parada na sala, pronta para colocar tudo no seu devido lugar quando, subitamente, surgiu uma luz intensa, brilhante, amarelada, que pairou no recinto como um grande fantasma e logo pousou sobre a mesa de centro. Abismada, Dora apanhou um pedaço de gengibre que por ali passava e mascou sem receio. Aquele bolo de taturanas não lhe havia feito muito bem, com isso chegou à conclusão de que passava por uma fase estranhíssima de sua vida. Seu filho lhe roubara, um mês antes, todas as forminhas de pão-de-queijo (que algum tempo depois ela descobriria serem trocadas por carne moída no açougue) e sua tia do interior vivia lhe telefonando para tentar passar um trote dizendo ser da Polícia Federal. Essa grande luz repentina era, no mínimo, interessante.

Recortes

Perdi a paciência e te cortei em três pedacinhos
Com um deles fiz um avião de papel, que planou sobre toda a cidade quando o lancei da torre da Telepar
Do segundo fiz um belo embrulho e presenteei minha melhor amiga
O outro eu coloquei no liquidificador e reciclei, transformando-o num belo caderno de anotações inúteis.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Manifesto

Em busca de uma nova visão de si mesmo
Abre-te encéfalo, abre-te

Que abram-se as portas da percepção
Para que estas não sejam emperradas por pensamentos mesquinhos
Que abram-se aos poucos, no entanto, para que não haja falhas em sua estrutura
Que a transformação ocorra naturalmente, pouco a pouco
por vontade e motivação próprias de cada um, já que ninguém evolui por outros
Que julgamento nenhum desmotive a busca de conhecimento
Que preconceitos, ilusões e mentiras não prejudiquem o caminho do bem

A mente expandida é um elástico, nunca volta ao seu tamanho original.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

De resto

Veja se o que te falta não é o que me sobra...assim, poderíamos até completar um ao outro, quem sabe...se o destino quisesse que nos quiséssemos...até daria certo, não?

- Me atirei no mar infinito da lúcida história da minha vida :: Descobri que por muito tempo andei devagar, pisando com cuidado sobre corações abarrotados, procurando tempos para encaixar no meu ócio e recortando uma personalidade inútil e vazia. Notei que muitos anos da minha saga foram consumidos pelo sono, alguns outros pela (má) alimentação e a grande maioria pelas tentativas de resolver dilemas. Passei alguns meses dentro de ônibus lotados, longos bimestres em engarrafamentos, filas de bancos, hospitais, escolas, restaurantes e supermercados, dois anos inteiros ao telefone, seis em frente ao computador, um semestre escovando os dentes e outro tomando banho. Usei nove dias para pedir desculpas sinceras, cinco para agradecer, treze para olhar as estrelas e, em média, vinte para cada música que foi ouvida repetidas vezes. O cinema me tomou três anos, os bares me tomaram quatro e as feiras-livres uns dois. Gargalhei durante três anos, chorei durante dois anos e meio, fui ao banheiro por novecentos dias.
Falta alguma coisa aí...sim, é o resto da vida.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Para ver

Um pombo-correio me trouxe a notícia de que você estaria na cidade em poucos dias.

Para te receber, fiz uma faixa em preto-e-branco, um buquê com cravos do meu caixão, uma escultura de unhas roídas e remorsos milagrosamente desenterrados. Preparei uma sopa de pedras e rosas, espalhei perfumes sufocantes no pescoço, enrolei uma echarpe nos pulsos para disfarçar. Desafinei propositalmente todos os violinos da região para que, quando tocados, tua fina audição não fosse mais que um pesado fardo. Joguei sal no chão, escondi morcegos atrás da tua porta. Esperei a tua chegada com dez facas na mão, estiletes e uma tesoura.

Esperei...e eis que chega o teu dia.

Quando te vi, mil carros passaram por cima de mim. Caíram os muros, caíram as pontes, caiu o helicóptero que sobrevoava. Caiu uma máscara, mais outra, e outra mais...todas as músicas tocaram ao mesmo tempo e todos os sinos badalaram. Todas as emas gemeram, todos os sabiás cantaram. As luzes dos faróis piscaram em ritmo alucinante, os trens soltaram mais fumaça do que o normal, uma fumaça colorida, estranha...tremores de terra aos teus passos lentos, raios de sol descamando a minha pele, feridas abrindo-se incessantemente. Ratos pulando de alegria pelas ruas, gente dançando, flores desabrochando a contragosto do meu orgulho. Era de se esperar, enfim, que tudo mudasse ao toque do seu repentino reaparecimento. E era de se esperar, também, que todas as vontades de odiar a tua presença se voltassem contra mim.

Assim, você me machucou e tornou a me machucar, assim, sendo tão assim. Tentei seguir firme em meus intentos de evitar te olhar nos olhos e, ao falhar, meus olhos se inundaram de uma preguiça insuportável de vingar-me.
E te amei como nunca amei outros olhos.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Fechei as minhas portas, me tranquei e engoli a chave.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Sonhos são versões alternativas da realidade

- Sonhei com você comendo dois pães, uma aranha me picando e meu cabelo pegando fogo.
- O fogo significa renascimento. A aranha significa traição. Os dois pães, portanto, você deve imaginar o que significam...
- Ah, entendi, você me traiu, então?
- É, mais ou menos por aí...
- Ah tá...pensei que fosse um mau presságio, que susto!

domingo, 11 de abril de 2010

Saudade

A saudade das estrelas-cadentes
A saudade do mar
A saudade da saudade que eu nunca tive
A saudade de estar

A ansiedade de caírem estrelas-cadentes
A ansiedade de ver o mar
A ansiedade de ter saudade
A ansiedade de estar

A novidade ao cair a tarde
A novidade ao ouvir o mar
A novidade sem ansiedade
A novidade está

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Rei

De profícua imaginação, o caramujo se contorce em si mesmo, acomoda-se em sua espiral e passeia pela praia. Olhando os gigantes que desviam, as crianças que apontam com nojo e os cachorros que lhe aproximam o focinho, o molusco atira-se num fantástico mundo em que é dono de tudo e de todos, onde o povo lhe rende silenciosa obediência. Em seu úmido casulo pode ouvir os pensamentos de seus súditos e, ao menor sinal de idéias subversivas, mandá-los para a prisão ou para o enforcamento. Em seu delírio assiste a uma disputada corrida de maruins, em que conhece uma apaixonante barata-do-mar. Passeia pelos mares infinitos, todos parte de seu patrimônio, conhece os mais distantes limites do oceano. Inebriado com o som das sereias, se deixa levar pelas ondas, ora flutua, ora arrasta-se pela areia profunda. Tem na cabeça uma leve coroa e no casco um belo manto de seda vermelha. Fazem parte de sua corte inúmeros servos - cozinheiros, costureiras, bispos, guardas, bobos-da-corte, músicos, espadachins, sapateiros, barbeiros - e a todos dá ordens com olhar benevolente.

Num descuido, algum banhista distraído esmaga-o com o pé.

Caminhos abertos

Sou capaz de relacionar o irrelacionável e de enxergar o invisível.
Posso ver através de cinismos e hipocrisias, distinguir falsidades em meio a grandes sorrisos.
Consigo, sem muito esforço, vociferar palavras duras e verdades inconvenientes, mas agrado facilmente quando, a duras penas, me humilho e peço desculpas.
Dificilmente sou enganada, pois sei enganar muito bem.
Dificilmente sairei ferida de uma briga, a não ser que me fira para tornar o adversário mais vulnerável. Ainda assim, evito sempre que posso os conflitos.
Sou muda, não tenho olhos, visto sempre a mesma cor de roupas.
Ouço muito, pois sei que é através das orelhas que entram as pedras mais preciosas de sabedoria.
Gosto de gente, gosto de crianças, de velhos, de animais comportados. Gosto da lua e das folhas verdes, da paisagem montanhosa e de rios gelados. Não gosto de civis, nem de militares. Não gosto de dinheiro. Não gosto de carros. Não gosto de calçadas.
Penso quando caminho, ando sem destino por aí. Olho nos olhos de desconhecidos num ônibus lotado, me apaixono perdidamente por um olhar qualquer, logo esqueço e volto a me concentrar numa bela canção. Falo nove idiomas diferentes, sou cosmopolita e regionalista. Tenho medo de sombras, de comidas estragadas, de detergentes e de cigarros acesos. Sempre peço conselhos a um estrangeiro, a um monge ou a uma freira, mas igualmente sei que a solução de todos os meus problemas está dentro de mim mesma. Aos que me confortam dou pancadas, aos que me batem, ajoelho-me e agradeço.
Já tive vários corações. Com um deles perdi minha identidade, com outro perdi meu cabelo. Usando um certo terceiro virei-me do avesso e o arranquei fora antes que fosse tarde e não me sobrasse artéria para contar a história. Do quarto guardo a lembrança do pulsar irreverente e macio, o quinto afogou-me numa música inebriante. O sexto se partiu em dois e deixou-me a vagar sem coração pelo mundo esquisito.
Ainda, tenho esperanças de mudar de planeta e a certeza de poder voar um dia.
Por isso me calo.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Terceiro grau

- Queimou meu dedo.
- Olha, não posso fazer nada a respeito, você estava com o dedão aí, de qualquer jeito, acabei passando o lança-chamas.
- Tá, mas vê se toma mais cuidado daqui pra frente!
- Eu já disse, a culpa foi tua, eu estou manejando um objeto perigoso.
- Você não conhece o perigo. EU sou perigosa.
- Ai, senhora perigo, tô até com medo.
- É bom mesmo, uma vez estrangulei um, só por ter me vendido um sofá de má vontade.
- E pra quê você queria o sofá?
- Pra sentar e relaxar depois do trabalho, oras, pra quê mais seria?
- Ah, sei lá, você podia querer dormir nele. Sei lá, tem gente que gosta.
- Aaaai meu cotovelooo!
- Que foi??
- Você me queimou de novo!!
- ...

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Rainha

Todos os dias ela apela para a rádio Am, na falta de coisa melhor para ouvir. Sintoniza a estação gospel, se lança no infinito cinza da rua XV, caminha passos apertados e velozes na ânsia de alcançar de uma vez por todas o toldo vermelho apagado da loja de roupas em que passa 10 horas mal vividas de seus preciosos dias. Fuma uma última tragada antes de entrar, e, ainda esquentando as mãos para derreter o gelo das sete da manhã, passa o cartão magnético na catraca dos funcionários. Bom dia para o segurança, bom dia para a faxineira que já se prepara para começar o serviço munida de luvas, escovão e acessórios. Bom dia espelho do elevador, bom dia cara inchada. Bom dia remelas, bom dia unhas sem pintar. Bom dia outros magníficos colegas de trabalho a quem nunca confiaria sequer dois reais. Bom dia felicidade garantida e loucas pessoas implorando um desconto, reclamando de tarifas indevidas, atrevendo-se a dirigir-lhe a palavra enquanto se concentra na dobra de uma ou outra peça jogada pelo chão. Anima-se, no entanto, pois logo será a hora do almoço, finalmente encontrará Juvenal.
Até que enfim.
Empregados enfileirados, nem parecem ter fome ou algo que o valha, no melhor dos casos parecem formigas esperando uma consulta breve com a rainha, resignados, já vencidos pelo cansaço em meados da jornada. Ali ele está, servindo os bolinhos de carne - o sorriso não esconde que o avistamento é recíproco. Prepara seu melhor rosto, lhe mostra os melhores dentes, profere as mais criativas palavras:
- Nossa, hoje parece que tá bom...
- Especial pra você, minha rainha!
Recolhe-se a seus aposentos reais, na mesa perto da janela. Avista lá embaixo a praça Zacarias, movimentada, cheia de ciganas que prestam seus serviços aos transeuntes apressados. A chuva dispersa os consumidores e a praça fica reservada aos vendedores de guarda-chuvas, que aparecem como num passe de mágica.
Fica feliz ao lembrar que trouxe o seu, deste tempo de Curitiba que mais se pode esperar, afinal?

terça-feira, 6 de abril de 2010

Caminha-te

Respirou profundamente :: finalmente compreendera que os seres humanos apenas imitavam uns aos outros na tentatival inútil de serem o que não são. Julgava que por obter tal conhecimento rompia com todas as regras do mundo, destituía-se de seu posto de observadora para passar a ser uma participante na coletiva geração espontânea do universo. Deformava todo o conhecimento social, antes motivo de orgulho, na ânsia de esquecer que um dia também fora como eles - animal, quente, desgovernada. Saiu descalça pelas ruas - estas enchiam de palavras mal escritas, luminosos e acidentes geográficos desnecessários seus olhos apertadinhos, já lacrimejantes pela fumaça que emanava dos escapamentos. Japoneses e poloneses, turcos e judeus, cariocas e gaúchos, todos formavam uma grande massa disforme que espalhava desejos e fabricava objetos medíocres, sempre acelerados pelo ritmo dos vermelhos ônibus com duas sanfonas - gigantes minhocas entrecortando a paisagem - e confortados pelos pastores nas portas das igrejas.
Flutuava, pois estava sem calçado nenhum.
Via torrentes de gente entulhadas nos caixas de supermercados, shoppings cheios de incertezas e restaurantes rápidos como uma digestão não deve ser. Atingiam-lhe especialmente os olhares de crianças sujinhas nas ruas vendendo balas. Só não lhe agradavam as que tentavam fazer malabarismos com laranjas - achava um desperdício de frutas. Cartazes anunciavam as modelos e suas roupas, os remédios e seus efeitos, os vereadores e seus incríveis empreendimentos, os celulares e suas magníficas tecnologias. Tudo aparecia, tudo estava claro, tudo muito prático e fácil.
Tudo, no entanto, parecia um grande saco vazio, agora que ela estava cheia de ser.
Tinha de ser. Tinha um ser com quem já não se identificava, posto que não se identificava com coisa nenhuma, nem com ela mesma ou com quem quer que fosse anteriormente. Tinha nisto a confirmação de que não era nada.
Apenas um saco vazio cheio de si.

domingo, 4 de abril de 2010

Da grande bola branca

Lua olha pra mim e eu olho pra ela
ela não me diz nada deve
ser a distância a saudade a solidão
ela rodeada de estrelas eu rodeada de
espíritos nos saudamos uma à outra mas ela é só
símbolo e já começa a desaparecer novamente
virando minguada pra
depois sumir de
vez.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Símio

:: O homem é um macaco que toca violão ::

Toda música que temos aqui é apenas um reflexo da música de Deus, uma parte infinitesimal da imensidão em que realmente se encontra o som, o próprio ser supremo que habita todas as partes do universo.

Não é à toa que nossos ouvidos não têm pálpebras.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Amigos

Aquilo sim era catalogar :: dividia todos os seus amigos em diversos grupos, subgrupos, ramificações, ramais, estágios, blocos; separava-os segundo grau de intimidade, de conveniência, número de opiniões convergentes, tempo de amizade. Assim, exibia belo cardápio de amigos/colegas/parceiros, cada qual direcionado para as tarefas que melhor suprissem suas vontades pessoais. Quando necessitava, uma breve consulta ao catálogo era suficiente para encontrar o amigo da vez. Havia a categoria de amigos confiáveis, a quem podia sempre lamentar suas penas vividas, confidenciando os piores segredos. Havia os endinheirados, aos quais recorria sempre que os amigos credores-cruéis lhe faziam a caça. No entanto, os endinheirados muitas vezes tornavam-se também da categoria credores-cruéis, obrigando-o a encontrar novos contatos abastados. A isso se somava a necessidade incessante de amigas-coloridas, que se mantinham em ativa rotatividade na lista. Havia também os amigos-da-onça, amigos-ursos, amigos-irmãos e amigos-inimigos, estes últimos detentores de relações tão instáveis quanto um mandato presidencial em tempos de crise econômica.
Havia ainda uma lista composta por apenas um nome, a de amigos de infância.
Outra, não muito mais extensa, compilava os nomes de ex-amigos-verdadeiros.

Em todas as divisões deixava clara sua vontade de ser sozinho no mundo.

terça-feira, 30 de março de 2010

Tenho o céu, as estrelas, o sol, a lua, o universo.

Que mais posso querer?

De tanto procurar explicar o que não quer saber, o homem se vê obrigado a não acreditar em seus próprios olhos, em sua própria intuição.

Tenho os olhos, tenho a intuição.

Que mais posso querer?

domingo, 28 de março de 2010

Túnel

Se tento, a meu contento tento não tentar. Se sustento um tanto de tentativas frustradas é para ver se tanto tenho que titubear. Se não tento, aí me sento, passo a esperar. Tentando tatear no escuro, no entanto, é que tantos temores tendem a me trucidar.
Tento, mas não posso te odiar.
Tonto, torno a te tocar.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Coelho branco

Meu coelho branco eu caço quando quero, eu sigo quando me convém.
Se corre, eu o espero parada na próxima esquina, pois sei que seu caminho se faz em círculos.
Se fica parado, não espero, vou andando na frente, ele vem logo atrás. Isso quando não andamos lado a lado.

Meu coelho branco às vezes me passa umas rasteiras. Às vezes me chuta, faz com que me arraste pelo chão para alcançá-lo. Sempre sorri, no entanto, sabendo que no fundo eu sei que somos feitos da mesma matéria, de tempo e de poeira estelar. E de cenouras.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Galhos, lama e pensamentos.

A lama parecia deliciosa cobertura de chocolate.

- Essa guria tem que se tratar, ela fica aí, toda ranzinza, não entende nada do que eu falo!

Ela observava os galhos que ficavam presos entre seus dedos, pisava com firmeza para não escorregar. Seus pés descalços já estavam acostumados ao frio da terra molhada, pareciam duas ameixas inchadas e sujas. Aos poucos ela descobria que ajudar era sim muito prazenteiro, quando a ajuda fosse feita de coração e mente abertos, e que este prazer poderia vir em formatos mais agradáveis do que podia crer.

- Ser negativo não te ajuda, muito menos deixa os outros felizes.

Caminhava, equilibrava-se. Ficava emocionada ao ver que as pessoas poderiam ser muito especiais, se ela ficasse atenta a recebê-las. Antes, olhava com desconfiança, buscando coisas ruins. Hoje, com as pernas geladas, deixava as coisas fluírem naturalmente. Nem tudo podia ser como ela planejava mesmo...Agarrou-se num toco de árvore, embrenhou-se na mata carregando pesada mochila em que se entulhavam menos coisas que as que trouxera ao chegar. A saída era logo ali. Ele ainda a tratava com medo, com cordialidade excessiva. Chamava-a de amiga. Pensava que logo se livraria dela e seria feliz sozinho, livre para aprender as coisas que queria, para beijar os lábios que quisesse, para convidar quem quisesse à sua barraca sem ser importunado.

- Vou conseguir uma carona pra você.
- Tá, te amo, viu?
- Obrigado.

Finalmente chegavam ao portal.
Ali, subiu numa caçamba desconhecida, acomodou-se e deixou seus pensamentos serem carregados pelo vento.

Definição

SOLIDÃO :: s.f. - dor de não ter o controle sobre as situações de sua vida.

TRISTEZA :: s.f. - sofrimento pré-sofrimento real, geralmente desnecessário.

MÚSICA :: s.f. - som que deixa uvidos e mãos calejadas; sonoridade que limpa a alma e areja os pensamentos, removendo escombros da mente; libertação.

terça-feira, 23 de março de 2010

Azedume

O cheiro era um misto de laquê com pó-de-arroz. As velhas enfeitadas adentravam o recinto fantasticamente decorado com flores, laços, brilhos, garçons e garçonetes, devidamente uniformizados. A anfitriã observava seus convidados com um sorriso maquinal, vestindo veludo e seda, jóias e uma densa camada de argamassa facial. Com a boca fúcsia, a jovem recepcionista indicava lugares e falava "boa noite". Aos poucos, cada um foi assentado onde lhe cabia, conforme importância social. Ao prefeito e sua família coube a mesa próxima à dona da festa, aos cirurgiões plásticos e aos advogados as mesas seguintes. Aos professores eram destinadas as mesas mais afastadas, perto dos banheiros. Todos estes níveis eram intercalados por socialites mais ou menos abastadas, cabelos armados, bocas enormes, narizes empinados e queixos bipartidos.

O locutor anunciou o início da atração musical, um quarteto de cordas vindo da Alemanha especialmente para o evento. Assim que soou o primeiro acorde, uma das ilustres senhoras levantou-se de súbito e começou a andar pelo salão. Andava e marcava o ritmo na mão esquerda, gradualmente sendo tomada por uma incontrolável dança que, com o passar dos segundos, tornava-se frenética. Algumas outras pessoas tiveram o mesmo solavanco um pouco depois, moviam-se avidamente por entre as mesas, algumas subiam nas cadeiras e chacoalhavam os braços. Aos poucos, todo o salão foi invadido por um transe, todos dançavam, mas o faziam de forma desparelha e inconstante. Voavam pérolas, pingentes, taças, peixes, azeitonas, tamancos, brincos, dentaduras, moedas e relógios, consequencia dos bruscos movimentos exercidos pelos ouvintes. O quarteto continuava seu opus maravilhosamente ensaiado, indiferente aos estranhos acontecimentos que se davam ao seu redor. A música continuou por dias a fio, bem como a catarse coletiva. Pouco a pouco os convidados caíam mortos pela exaustão, pela inanição, pelos violentos choques das cabeças contra paredes. Não demorou muito, a festa acabou.

Os músicos pararam, comeram o que sobrou dos salgadinhos.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Mais um pedaço

Terminei de te construir na minha mente
terminei de colar os teus caquinhos, de te montar os pedacinhos
de te ver inteiro novamente.

domingo, 21 de março de 2010

Sonar

Cantava sempre que a imensidão a abraçava. Aferrava-se a causas nobres como um náufrago a tábuas de madeira. Permitia a qualquer sentimento apoderar-se de sua existência, deixando-se dominar por confusões e mentiras que lhe transbordavam de vida o vazio que sentia. Pensava que tinha grande poder, imaginava ter a capacidade de controlar as mentes alheias e de prever o futuro. Aos poucos se acostumava com uma personalidade que não era sua, autorizando a si mesma cometer excessos que sabia serem prejudiciais. No entanto, gozava de intensa felicidade nos poucos momentos em que se via frente a frente com a eternidade, bem como quando avistava os olhares - aqueles nos quais projetava a si mesma e em que se refletia alguns anos mais nova. Também se ouvia, se lia, se entristecia. Se condenava por não se esforçar para entender e por não se fazer compreender. Por despertar ciúmes, calava-se. Por auto-estima, calava-se. Por suscitar dúvidas, aí desembestava a falar bobagens. Por essas e outras, fechou os olhos novamente.

Adormeceu ao som do samba.

Conversa

- E o que eu faço agora com isso?
- Não sei, manda por e-mail esse seu...sentimento?
- Tá, e se não couber no anexo?
- Ah, divide a paixão em duas partes. Quem sabe você até consegue mandar junto aquela saudade que você tinha prometido...
- É, pode ser...
- Pode...
- E o que você vai fazer com isso, então?
- Nada, vou te livrar dessas coisas, não ficam bem em você. Aliás, você não tem cara de quem se apaixona assim facinho, parece uma pedra sem emoções...
- Ah, obrigada...me sinto mais confiante agora...
- De nada, quando precisar de umas palavras sinceras, me avisa que mando te entregar.
- E quanto às frases entaladas na minha garganta?
- Ah, essas pode deixar que um dia saem...sozinhas...elas têm vida própria, portanto, não se preocupe. Eu sei que frases são essas, já tive isso também.
- Poxa, ainda bem que você me entende...
- É, porque se dependesse de você estavas perdida.

sábado, 20 de março de 2010

Fatídico

Percebi que aqui na Terra nosso tempo é realmente contado, cronometrado, carente de um alto nível de aproveitamento, como um curso técnico rápido que se faz para entrar no famigerado mercado de trabalho. Passamos por sofrimentos pra aprender algumas coisas necessárias para a nossa evolução e, no entanto, nosso sofrimento aqui não se compara ao real sofrimento, o da missão não cumprida ao fim da nossa estadia na matéria. Tento, em vão, entender os desígnios de Deus, pois o pleno conhecimento destes não me é privilégio (ainda bem!!!) :: se tudo fosse fácil, nada disso precisaria existir, nem vida, nem morte, nem avião, nem blog, nem palavras bonitas.

Pensando bem, todos somos um pouquinho masoquistas.

Alguns, não se contentando com sua condição de sofredores, gostam de fazer os outros sofrerem.

De cor

Não sei pra onde foram os olhos que tanto olharam os meus;

Não sei mais que cor eles têm, seus olhos, enfim.

Sei que meu pensamento te segue, minha vista se cansa de olhar

E fico vesga só de imaginar o que já não é.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Minha

Tens tudo para seres perfeito

Tens tudo para seres amado

Tens tudo, e não me tens

Por mais que tenhas tentado

Pois, esquecendo-me, te esqueces que fui

E que serei outra ainda sem ser

Sem ser tua nem de ninguém

Me sou e me tenho

Sem nada te ser.
- Olha, seu guarda, ela me perseguiu, aquela louca ali...é, aquela mesma! Me perseguiu imitando uma sirene, depois um leão, depois um passarinho...argh, só pode ser ela! Eu estava em casa, de repente, assim, foi de sopetão, ela apareceu atrás do sofá...usando uma máscara de...como é aquele boneco mesmo, aquele, das antenas, teletubo, tele-não-sei-o-que, sei lá, ela pegou e foi me seguindo pela casa com aquela máscara ridícula. Daí eu tava assim, saindo né, pô, aquela maluca atrás de mim assim e eu tipo "quê que eu faço agora com isso?" - *tosse* - peguei e atirei uma almofada nela pra ver se ela parava com aquilo. Não é que a doida tirou a máscara e começou a me perseguir imitando uma ambulância? Ah, pode prender. Toma, e fala pra ela ficar com esse unicórnio que eu não quero dentro da minha casa mais.

terça-feira, 16 de março de 2010

Uns sessenta

Ganhei dez anos, perdi dez quilos, comprei dez motivos, dez vezes me assustei.

Das dez tentativas de ser eu mesma, nove acabaram em desastres. Uma falhou.

Depois de dez vezes matando palavras, acendi dez velas e rezei dez santos-anjos.

Ainda assim, dez calúnias me assaltaram, dez modelos de felicidade me passaram a perna, dez crianças me subestimaram, dez adultos me julgaram uma heroína e dez adolescentes fingiram não me ver ao passar na rua.

Desisti tardiamente de revelar ao universo a diferença que faz ter onze amigos ou dez.

Quando dez caminhões por cima de mim passaram, dez bandas marciais tocaram em meu enterro, dez viúvos choraram dez lágrimas desconsoladas. Dez abraços calcaram minha ascensão ao espaço sideral, de onde avistei as dez piores burradas da minha vida.

Me senti incapaz de ignorar minha desinteressante existência ao ouvir dez vozes familiares ao meu redor.

Eram as minhas vozes. Dez vozes, todas iguais.

[ainda bem que existe este blog]

Um retrato para Radiguet

- Veja, sou tudo o que você necessita.

Dizia isso com a frieza de quem acaba de ver seu inimigo acuado, como quem escapa à insegurança cravando no peito a palavra "coragem". Falava e observava a reação do companheiro, temendo que sua audácia lhe trouxesse dissabores tremendos.

No entanto, sempre soubera que um dia isso iria acontecer. Sua fuga, seu nervosismo, todas as tentativas de tornar-se menos amável eram apenas um prenúncio da tempestade que agora chegava. Debatia-se, agitava-se, andava em círculos sem encontrar respostas pertinentes à sua situação. Chorava - não o suficiente para parecer consternada - e suas lágrimas eram como pedrinhas roliças que não diziam absolutamente nada. E se esse fosse seu destino, afinal? Não ser nada, com nada se parecer, inutilmente tentar gritar para o mundo que ele não a merecia? Já reconhecia os passos da solidão se aproximando...ou seria ele indo embora?

Apagou a luz, escureceu.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Mãozinhas

Pensando que usar qualquer subterfúgio para alcançar a tão desejada vitória sobre o tédio era a solução mais prática na utilização de seu tempo (agora vazio), ele deitou. Dormiu. Serenou.

Em seu sonho voava e beijava as moças, que lhe devolviam ardentemente olhares inocentes, como melhores-amigas. De uma delas afagou as mãos...eram finas, venenosas, como um conjunto de varetas. Indagou se não seriam suas próprias mãos a se projetarem no ideal de beleza feminina que ali se mostrava - percebeu que as suas tinham rugas que já não voltariam no tempo, rugas de contato, rugas de expressão, rugas de experiência em cinturas, braços, pernas, bochechas e todas as partes íntimas que conhecia tão bem e que agora lhe eram insignificantes perante a beleza sutil daquele par. Tão raquíticas mãozinhas, tão feias as suas, como comparar?

Comparava, porém, acreditando que nunca soubera demais o que eram as mulheres. Estas sim, podiam moldar-se, tornar-se perfeitas e posteriormente descartáveis como lhe convinha, chamar-se Raquel, Marina, Cecília, Carolina, Pietra, Flávia, Amorzinho, Pesseguinho, Helena, Gê, Dora, Perfeitinha, Santinha ou Diabinha. Em suma, todas eram uma e nunca tinham personalidade, mas sim algo indefinido a que ele denominava o gênio feminino - ah, o gênio - em nada parecido com o gênio masculino, que limitava-se à devassidão e à preguiça. As mulheres, assim como as mãos daquela moça, eram infinitas, inconstantes, indigestas, tão cheias de truques que nem o melhor cafajeste sabia definir todos os limites de suas cabeças-ocas.

Mordeu a mão esquerda da garota, passou a língua na mão direita. Acordou::seu cão lhe lambia as faces e espalhava a grossa baba em seu pescoço. Pensou nas mãos, mas a imagem destas lhe fugia à memória, assim como tantas outras que amara e que ainda haveria de amar.