quarta-feira, 31 de março de 2010

Amigos

Aquilo sim era catalogar :: dividia todos os seus amigos em diversos grupos, subgrupos, ramificações, ramais, estágios, blocos; separava-os segundo grau de intimidade, de conveniência, número de opiniões convergentes, tempo de amizade. Assim, exibia belo cardápio de amigos/colegas/parceiros, cada qual direcionado para as tarefas que melhor suprissem suas vontades pessoais. Quando necessitava, uma breve consulta ao catálogo era suficiente para encontrar o amigo da vez. Havia a categoria de amigos confiáveis, a quem podia sempre lamentar suas penas vividas, confidenciando os piores segredos. Havia os endinheirados, aos quais recorria sempre que os amigos credores-cruéis lhe faziam a caça. No entanto, os endinheirados muitas vezes tornavam-se também da categoria credores-cruéis, obrigando-o a encontrar novos contatos abastados. A isso se somava a necessidade incessante de amigas-coloridas, que se mantinham em ativa rotatividade na lista. Havia também os amigos-da-onça, amigos-ursos, amigos-irmãos e amigos-inimigos, estes últimos detentores de relações tão instáveis quanto um mandato presidencial em tempos de crise econômica.
Havia ainda uma lista composta por apenas um nome, a de amigos de infância.
Outra, não muito mais extensa, compilava os nomes de ex-amigos-verdadeiros.

Em todas as divisões deixava clara sua vontade de ser sozinho no mundo.

terça-feira, 30 de março de 2010

Tenho o céu, as estrelas, o sol, a lua, o universo.

Que mais posso querer?

De tanto procurar explicar o que não quer saber, o homem se vê obrigado a não acreditar em seus próprios olhos, em sua própria intuição.

Tenho os olhos, tenho a intuição.

Que mais posso querer?

domingo, 28 de março de 2010

Túnel

Se tento, a meu contento tento não tentar. Se sustento um tanto de tentativas frustradas é para ver se tanto tenho que titubear. Se não tento, aí me sento, passo a esperar. Tentando tatear no escuro, no entanto, é que tantos temores tendem a me trucidar.
Tento, mas não posso te odiar.
Tonto, torno a te tocar.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Coelho branco

Meu coelho branco eu caço quando quero, eu sigo quando me convém.
Se corre, eu o espero parada na próxima esquina, pois sei que seu caminho se faz em círculos.
Se fica parado, não espero, vou andando na frente, ele vem logo atrás. Isso quando não andamos lado a lado.

Meu coelho branco às vezes me passa umas rasteiras. Às vezes me chuta, faz com que me arraste pelo chão para alcançá-lo. Sempre sorri, no entanto, sabendo que no fundo eu sei que somos feitos da mesma matéria, de tempo e de poeira estelar. E de cenouras.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Galhos, lama e pensamentos.

A lama parecia deliciosa cobertura de chocolate.

- Essa guria tem que se tratar, ela fica aí, toda ranzinza, não entende nada do que eu falo!

Ela observava os galhos que ficavam presos entre seus dedos, pisava com firmeza para não escorregar. Seus pés descalços já estavam acostumados ao frio da terra molhada, pareciam duas ameixas inchadas e sujas. Aos poucos ela descobria que ajudar era sim muito prazenteiro, quando a ajuda fosse feita de coração e mente abertos, e que este prazer poderia vir em formatos mais agradáveis do que podia crer.

- Ser negativo não te ajuda, muito menos deixa os outros felizes.

Caminhava, equilibrava-se. Ficava emocionada ao ver que as pessoas poderiam ser muito especiais, se ela ficasse atenta a recebê-las. Antes, olhava com desconfiança, buscando coisas ruins. Hoje, com as pernas geladas, deixava as coisas fluírem naturalmente. Nem tudo podia ser como ela planejava mesmo...Agarrou-se num toco de árvore, embrenhou-se na mata carregando pesada mochila em que se entulhavam menos coisas que as que trouxera ao chegar. A saída era logo ali. Ele ainda a tratava com medo, com cordialidade excessiva. Chamava-a de amiga. Pensava que logo se livraria dela e seria feliz sozinho, livre para aprender as coisas que queria, para beijar os lábios que quisesse, para convidar quem quisesse à sua barraca sem ser importunado.

- Vou conseguir uma carona pra você.
- Tá, te amo, viu?
- Obrigado.

Finalmente chegavam ao portal.
Ali, subiu numa caçamba desconhecida, acomodou-se e deixou seus pensamentos serem carregados pelo vento.

Definição

SOLIDÃO :: s.f. - dor de não ter o controle sobre as situações de sua vida.

TRISTEZA :: s.f. - sofrimento pré-sofrimento real, geralmente desnecessário.

MÚSICA :: s.f. - som que deixa uvidos e mãos calejadas; sonoridade que limpa a alma e areja os pensamentos, removendo escombros da mente; libertação.

terça-feira, 23 de março de 2010

Azedume

O cheiro era um misto de laquê com pó-de-arroz. As velhas enfeitadas adentravam o recinto fantasticamente decorado com flores, laços, brilhos, garçons e garçonetes, devidamente uniformizados. A anfitriã observava seus convidados com um sorriso maquinal, vestindo veludo e seda, jóias e uma densa camada de argamassa facial. Com a boca fúcsia, a jovem recepcionista indicava lugares e falava "boa noite". Aos poucos, cada um foi assentado onde lhe cabia, conforme importância social. Ao prefeito e sua família coube a mesa próxima à dona da festa, aos cirurgiões plásticos e aos advogados as mesas seguintes. Aos professores eram destinadas as mesas mais afastadas, perto dos banheiros. Todos estes níveis eram intercalados por socialites mais ou menos abastadas, cabelos armados, bocas enormes, narizes empinados e queixos bipartidos.

O locutor anunciou o início da atração musical, um quarteto de cordas vindo da Alemanha especialmente para o evento. Assim que soou o primeiro acorde, uma das ilustres senhoras levantou-se de súbito e começou a andar pelo salão. Andava e marcava o ritmo na mão esquerda, gradualmente sendo tomada por uma incontrolável dança que, com o passar dos segundos, tornava-se frenética. Algumas outras pessoas tiveram o mesmo solavanco um pouco depois, moviam-se avidamente por entre as mesas, algumas subiam nas cadeiras e chacoalhavam os braços. Aos poucos, todo o salão foi invadido por um transe, todos dançavam, mas o faziam de forma desparelha e inconstante. Voavam pérolas, pingentes, taças, peixes, azeitonas, tamancos, brincos, dentaduras, moedas e relógios, consequencia dos bruscos movimentos exercidos pelos ouvintes. O quarteto continuava seu opus maravilhosamente ensaiado, indiferente aos estranhos acontecimentos que se davam ao seu redor. A música continuou por dias a fio, bem como a catarse coletiva. Pouco a pouco os convidados caíam mortos pela exaustão, pela inanição, pelos violentos choques das cabeças contra paredes. Não demorou muito, a festa acabou.

Os músicos pararam, comeram o que sobrou dos salgadinhos.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Mais um pedaço

Terminei de te construir na minha mente
terminei de colar os teus caquinhos, de te montar os pedacinhos
de te ver inteiro novamente.

domingo, 21 de março de 2010

Sonar

Cantava sempre que a imensidão a abraçava. Aferrava-se a causas nobres como um náufrago a tábuas de madeira. Permitia a qualquer sentimento apoderar-se de sua existência, deixando-se dominar por confusões e mentiras que lhe transbordavam de vida o vazio que sentia. Pensava que tinha grande poder, imaginava ter a capacidade de controlar as mentes alheias e de prever o futuro. Aos poucos se acostumava com uma personalidade que não era sua, autorizando a si mesma cometer excessos que sabia serem prejudiciais. No entanto, gozava de intensa felicidade nos poucos momentos em que se via frente a frente com a eternidade, bem como quando avistava os olhares - aqueles nos quais projetava a si mesma e em que se refletia alguns anos mais nova. Também se ouvia, se lia, se entristecia. Se condenava por não se esforçar para entender e por não se fazer compreender. Por despertar ciúmes, calava-se. Por auto-estima, calava-se. Por suscitar dúvidas, aí desembestava a falar bobagens. Por essas e outras, fechou os olhos novamente.

Adormeceu ao som do samba.

Conversa

- E o que eu faço agora com isso?
- Não sei, manda por e-mail esse seu...sentimento?
- Tá, e se não couber no anexo?
- Ah, divide a paixão em duas partes. Quem sabe você até consegue mandar junto aquela saudade que você tinha prometido...
- É, pode ser...
- Pode...
- E o que você vai fazer com isso, então?
- Nada, vou te livrar dessas coisas, não ficam bem em você. Aliás, você não tem cara de quem se apaixona assim facinho, parece uma pedra sem emoções...
- Ah, obrigada...me sinto mais confiante agora...
- De nada, quando precisar de umas palavras sinceras, me avisa que mando te entregar.
- E quanto às frases entaladas na minha garganta?
- Ah, essas pode deixar que um dia saem...sozinhas...elas têm vida própria, portanto, não se preocupe. Eu sei que frases são essas, já tive isso também.
- Poxa, ainda bem que você me entende...
- É, porque se dependesse de você estavas perdida.

sábado, 20 de março de 2010

Fatídico

Percebi que aqui na Terra nosso tempo é realmente contado, cronometrado, carente de um alto nível de aproveitamento, como um curso técnico rápido que se faz para entrar no famigerado mercado de trabalho. Passamos por sofrimentos pra aprender algumas coisas necessárias para a nossa evolução e, no entanto, nosso sofrimento aqui não se compara ao real sofrimento, o da missão não cumprida ao fim da nossa estadia na matéria. Tento, em vão, entender os desígnios de Deus, pois o pleno conhecimento destes não me é privilégio (ainda bem!!!) :: se tudo fosse fácil, nada disso precisaria existir, nem vida, nem morte, nem avião, nem blog, nem palavras bonitas.

Pensando bem, todos somos um pouquinho masoquistas.

Alguns, não se contentando com sua condição de sofredores, gostam de fazer os outros sofrerem.

De cor

Não sei pra onde foram os olhos que tanto olharam os meus;

Não sei mais que cor eles têm, seus olhos, enfim.

Sei que meu pensamento te segue, minha vista se cansa de olhar

E fico vesga só de imaginar o que já não é.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Minha

Tens tudo para seres perfeito

Tens tudo para seres amado

Tens tudo, e não me tens

Por mais que tenhas tentado

Pois, esquecendo-me, te esqueces que fui

E que serei outra ainda sem ser

Sem ser tua nem de ninguém

Me sou e me tenho

Sem nada te ser.
- Olha, seu guarda, ela me perseguiu, aquela louca ali...é, aquela mesma! Me perseguiu imitando uma sirene, depois um leão, depois um passarinho...argh, só pode ser ela! Eu estava em casa, de repente, assim, foi de sopetão, ela apareceu atrás do sofá...usando uma máscara de...como é aquele boneco mesmo, aquele, das antenas, teletubo, tele-não-sei-o-que, sei lá, ela pegou e foi me seguindo pela casa com aquela máscara ridícula. Daí eu tava assim, saindo né, pô, aquela maluca atrás de mim assim e eu tipo "quê que eu faço agora com isso?" - *tosse* - peguei e atirei uma almofada nela pra ver se ela parava com aquilo. Não é que a doida tirou a máscara e começou a me perseguir imitando uma ambulância? Ah, pode prender. Toma, e fala pra ela ficar com esse unicórnio que eu não quero dentro da minha casa mais.

terça-feira, 16 de março de 2010

Uns sessenta

Ganhei dez anos, perdi dez quilos, comprei dez motivos, dez vezes me assustei.

Das dez tentativas de ser eu mesma, nove acabaram em desastres. Uma falhou.

Depois de dez vezes matando palavras, acendi dez velas e rezei dez santos-anjos.

Ainda assim, dez calúnias me assaltaram, dez modelos de felicidade me passaram a perna, dez crianças me subestimaram, dez adultos me julgaram uma heroína e dez adolescentes fingiram não me ver ao passar na rua.

Desisti tardiamente de revelar ao universo a diferença que faz ter onze amigos ou dez.

Quando dez caminhões por cima de mim passaram, dez bandas marciais tocaram em meu enterro, dez viúvos choraram dez lágrimas desconsoladas. Dez abraços calcaram minha ascensão ao espaço sideral, de onde avistei as dez piores burradas da minha vida.

Me senti incapaz de ignorar minha desinteressante existência ao ouvir dez vozes familiares ao meu redor.

Eram as minhas vozes. Dez vozes, todas iguais.

[ainda bem que existe este blog]

Um retrato para Radiguet

- Veja, sou tudo o que você necessita.

Dizia isso com a frieza de quem acaba de ver seu inimigo acuado, como quem escapa à insegurança cravando no peito a palavra "coragem". Falava e observava a reação do companheiro, temendo que sua audácia lhe trouxesse dissabores tremendos.

No entanto, sempre soubera que um dia isso iria acontecer. Sua fuga, seu nervosismo, todas as tentativas de tornar-se menos amável eram apenas um prenúncio da tempestade que agora chegava. Debatia-se, agitava-se, andava em círculos sem encontrar respostas pertinentes à sua situação. Chorava - não o suficiente para parecer consternada - e suas lágrimas eram como pedrinhas roliças que não diziam absolutamente nada. E se esse fosse seu destino, afinal? Não ser nada, com nada se parecer, inutilmente tentar gritar para o mundo que ele não a merecia? Já reconhecia os passos da solidão se aproximando...ou seria ele indo embora?

Apagou a luz, escureceu.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Mãozinhas

Pensando que usar qualquer subterfúgio para alcançar a tão desejada vitória sobre o tédio era a solução mais prática na utilização de seu tempo (agora vazio), ele deitou. Dormiu. Serenou.

Em seu sonho voava e beijava as moças, que lhe devolviam ardentemente olhares inocentes, como melhores-amigas. De uma delas afagou as mãos...eram finas, venenosas, como um conjunto de varetas. Indagou se não seriam suas próprias mãos a se projetarem no ideal de beleza feminina que ali se mostrava - percebeu que as suas tinham rugas que já não voltariam no tempo, rugas de contato, rugas de expressão, rugas de experiência em cinturas, braços, pernas, bochechas e todas as partes íntimas que conhecia tão bem e que agora lhe eram insignificantes perante a beleza sutil daquele par. Tão raquíticas mãozinhas, tão feias as suas, como comparar?

Comparava, porém, acreditando que nunca soubera demais o que eram as mulheres. Estas sim, podiam moldar-se, tornar-se perfeitas e posteriormente descartáveis como lhe convinha, chamar-se Raquel, Marina, Cecília, Carolina, Pietra, Flávia, Amorzinho, Pesseguinho, Helena, Gê, Dora, Perfeitinha, Santinha ou Diabinha. Em suma, todas eram uma e nunca tinham personalidade, mas sim algo indefinido a que ele denominava o gênio feminino - ah, o gênio - em nada parecido com o gênio masculino, que limitava-se à devassidão e à preguiça. As mulheres, assim como as mãos daquela moça, eram infinitas, inconstantes, indigestas, tão cheias de truques que nem o melhor cafajeste sabia definir todos os limites de suas cabeças-ocas.

Mordeu a mão esquerda da garota, passou a língua na mão direita. Acordou::seu cão lhe lambia as faces e espalhava a grossa baba em seu pescoço. Pensou nas mãos, mas a imagem destas lhe fugia à memória, assim como tantas outras que amara e que ainda haveria de amar.

Da distância necessária

Só enxergamos alguns erros à distância::por isso da distância se fazer necessária em algumas situações que não entendemos.

Assim, se a confusão ocorre dentro do turbilhão, por quê não sair dele enquanto há tempo? Pois o turbilhão engole, e, quanto mais próximos de seu epicentro, menos enxergamos suas causas reais - é como tentar olhar para as próprias costas, ficaremos dando voltas e voltas...só quando observamos uma fotografia é que podemos ver aquela mancha de nascença que sempre esteve lá e nunca pudemos ver claramente - a distância do problema é que faz ver com menos distorções.

Como diriam por aí: "é aí que me refiro" (!)

sábado, 13 de março de 2010

A pena não é um atributo necessário...

...para minha sobrevivência.

Muito menos para a sobrevivência do sublime amor - este transcende qualquer sentimento mundano.

Aprendi que não podemos controlar a forma com que outra pessoa encara uma situação. É como as crianças::você não pode impôr um método de aprendizado, cada qual descobre as coisas de sua forma - uns pela intuição, outros pelas feridas, outros por baterem muitas vezes a cabeça.
Alguns aprendem pela negação, mas estes se enquadram na categoria cabeçudos - pois toda negação requer uma aceitação.

E quem sou eu pra enquadrar quem quer que seja em qualquer categoria?

sexta-feira, 12 de março de 2010

Descalço

Olhou para os lados: nada, apenas os resquícios do que espalhava ao existir.
Para cima, sua cor dourada, para baixo, seus pés descalços.
Ela sabe que não precisa de nada disso, sabe que o sofrimento é opcional, sabe que se apega demais ao que não deveria por não lhe pertencer. Porém, faz o que lhe manda a intuição - segue de olhos fechados tateando ilusões (pois que delas é feito este mundo e todas as coisas que nos rodeiam e fora de nós estão?)

Acima de tudo, sabe que mesmo a sombra precisa da luz para existir.

Breve.

Se cegava, era por opção.

Fechava os olhos para não ouvir os gritos abafados de suas memórias - e seus ecos, estes sim, reverberando como pratos de uma sinfônica.

Fechava-se para a escuridão que a cercava. A escuridão. Ela movia os dedos...parecia não saber a quem transferir sua culpa. Pois não é verdade que não havia culpados? E se, em sua breve insurreição contra o mundo, tivesse perdido o que de mais valioso tinha em tempos de profundo sono: a segurança. Esta não lhe cabia mais.
Não quer incomodar a escuridão, sente que suavemente o tom do arrependimendo lhe escorre pelos fios de cabelo. Está encharcada de ser. Encharcada de não ser mais o que era antes de sumir na escuridão.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Do caminho II

A beleza alaranjada do céu de fim de tarde refletia nas imundas poças de água espalhadas pela calçada, sob o atento olhar e desvio de seus passos lentos. Adolescentes desviavam seu rumo de casa e passavam na pequena loja de doces da esquina. Cães lambiam, mendigos mendigavam, mães gritavam com suas crianças ao se aproximarem da rua, carros encharcavam transeuntes com suas trações e cavalos e pára-brisas e ares-condicionados. O cheiro era de carne recém assada, mas o sabor era o da fumaça que exalava dos caminhões.

Não tinha ponto final, apenas o andar lhe era companheiro.

domingo, 7 de março de 2010

Da espera

Cada um tem seu caminho, cada um tem seu modo de encarar os problemas.

Alguns fogem, alguns negam, alguns ignoram sua própria culpa.

Alguns preferem desapegar...deixar que o tempo cure todas as feridas.

O tempo, na verdade, só transcorre para quem cria expectativas demais, promessas demais, apegos demais - a vida é simples pra quem não espera nada.

sábado, 6 de março de 2010

Do aprendizado

Mesmo quando se pensa que já se aprendeu o suficiente em determinada situação, há sempre algo de novo e valioso a ser descoberto, coisas que só o tempo traz.

Aprendemos pela observação
Aprendemos pelo ouvido atento
Aprendemos com o contato físico e com os cheiros
Aprendemos pelo paladar

O mais importante, é que nunca deixamos de aprender.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Do caminho

Ela caminhava sem olhar
Caminhava sem olhar para nada exceto seus próprios pensamentos
Olhava-os e escutava sem vaidade, sem pensar que, ao mesmo tempo em que olhava, olhavam-na desconfiados, indignados, como se ela devesse prestar conta de seus pensamentos.
Caminhava e olhava, não olhava.
Observava, atenta, reta, sempre evitando curvas dentro de sua cabeça, evitando becos escuros e sombras que se moviam ao seu redor. Evitava contato com o mundo.
Assim, evitava-se. Não podia mais enfrentar-se. Tudo o que lhe diziam era que não descuidasse, que pisasse firme no chão e não parasse de olhar - pois era através dos olhos que lhe chegavam as luzes.

Aos ouvidos cabia receber passivamente tudo o que estava no ar, sem, contudo, ater-se a nada. Tudo era o que lhe cabia pensar, e de pensar já estava calejada. Aos olhos, a imensidão de seu ser transbordou.

terça-feira, 2 de março de 2010

Inconstante

Na essência somos sempre iguais::O que muda são os nossos interesses.

O grande problema da humanidade é julgar como se não houvesse possibilidade de mudança. As pessoas preferem se afastar umas das outras a mudar um sentimento, a refletir melhor sobre as situações, a abrir a cabeça, enfim...preferem acreditar que tudo de ruim que acontece com elas é culpa dos outros, e não conseqüencia de seus próprios atos - claro, muito mais cômodo apontar o dedinho. Mas quem disse que eu, proferindo estas cortantes palavras (sólidas como uma assombração) não estou incomodada por ser feita dessa mesma matéria, por também julgar aos outros pelo que foram?

Cansei de falar de julgamento::as palavras sempre tornam tudo mais difícil.

Quanto a mim, vou deixando a vida acontecer...de vez em quando me deparo com um ou outro abalo que me torna vulnerável ao mundo, mas invariavelmente tudo se resolve da melhor maneira possível:: a maneira de DEUS (ou DESTINO, ou SER SUPREMO, ou UNIVERSO, como preferir) - e Deus não tem tempo, ele o é...

segunda-feira, 1 de março de 2010

De escolhas erradas

Como saber se uma escolha é errada?
Resposta::Escolhendo errado, oras.

Quase todas as mudanças na vida passam por diversos estágios, sendo alguns deles::

1)Descoberta - Em que nos deparamos com algo inusitado, tão fresco e cheio de vida, tão prenhe de possibilidades felizes e possíveis acertos para uma vida inteira; Olhamos para nossa situação atual e nos deparamos com inúmeros defeitos, coisas que, se fossem de outro jeito, seriam bem mais proveitosas;

2)Hipótese - Etapa em que nos perguntamos como seria se nos entregássemos a esta nova possibilidade de corpo e alma; Aqui também imaginamos e realizamos uma espécie de planejamento de situações;

3)Insegurança - Medo da mudança; Esta é a fase em que muitas pessoas desistem;

4)Convencimento - Impulso derradeiro que transmuta o medo na...

5)Ação - Que consiste no fato que determina uma grande mudança;

6)Aqui temos duas opções:

6a)Arrependimento - Que pode ou não vir acompanhado de uma depressão. Ocasionalmente o arrependimento causa traumas e passamos a posicionar a negação como ponto crucial em nossas vidas.

6b)Consolidação - Em que observamos que tudo valeu a pena. Mesmo em casos de arrependimento, cedo ou tarde admitimos que também valeu a pena. Aí é que mora a importância das escolhas erradas - se não as fazemos, o que fazemos então?

Eu digo para alguém que leia isto::

- Você, já fez a sua escolha errada hoje? (Vejam, amigos, não há escolhas erradas, só escolha, não tem outro jeito - a não ser que você seja o flash e esteja em dois lugares ao mesmo tempo)