quinta-feira, 4 de março de 2010

Do caminho

Ela caminhava sem olhar
Caminhava sem olhar para nada exceto seus próprios pensamentos
Olhava-os e escutava sem vaidade, sem pensar que, ao mesmo tempo em que olhava, olhavam-na desconfiados, indignados, como se ela devesse prestar conta de seus pensamentos.
Caminhava e olhava, não olhava.
Observava, atenta, reta, sempre evitando curvas dentro de sua cabeça, evitando becos escuros e sombras que se moviam ao seu redor. Evitava contato com o mundo.
Assim, evitava-se. Não podia mais enfrentar-se. Tudo o que lhe diziam era que não descuidasse, que pisasse firme no chão e não parasse de olhar - pois era através dos olhos que lhe chegavam as luzes.

Aos ouvidos cabia receber passivamente tudo o que estava no ar, sem, contudo, ater-se a nada. Tudo era o que lhe cabia pensar, e de pensar já estava calejada. Aos olhos, a imensidão de seu ser transbordou.

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