segunda-feira, 15 de março de 2010

Mãozinhas

Pensando que usar qualquer subterfúgio para alcançar a tão desejada vitória sobre o tédio era a solução mais prática na utilização de seu tempo (agora vazio), ele deitou. Dormiu. Serenou.

Em seu sonho voava e beijava as moças, que lhe devolviam ardentemente olhares inocentes, como melhores-amigas. De uma delas afagou as mãos...eram finas, venenosas, como um conjunto de varetas. Indagou se não seriam suas próprias mãos a se projetarem no ideal de beleza feminina que ali se mostrava - percebeu que as suas tinham rugas que já não voltariam no tempo, rugas de contato, rugas de expressão, rugas de experiência em cinturas, braços, pernas, bochechas e todas as partes íntimas que conhecia tão bem e que agora lhe eram insignificantes perante a beleza sutil daquele par. Tão raquíticas mãozinhas, tão feias as suas, como comparar?

Comparava, porém, acreditando que nunca soubera demais o que eram as mulheres. Estas sim, podiam moldar-se, tornar-se perfeitas e posteriormente descartáveis como lhe convinha, chamar-se Raquel, Marina, Cecília, Carolina, Pietra, Flávia, Amorzinho, Pesseguinho, Helena, Gê, Dora, Perfeitinha, Santinha ou Diabinha. Em suma, todas eram uma e nunca tinham personalidade, mas sim algo indefinido a que ele denominava o gênio feminino - ah, o gênio - em nada parecido com o gênio masculino, que limitava-se à devassidão e à preguiça. As mulheres, assim como as mãos daquela moça, eram infinitas, inconstantes, indigestas, tão cheias de truques que nem o melhor cafajeste sabia definir todos os limites de suas cabeças-ocas.

Mordeu a mão esquerda da garota, passou a língua na mão direita. Acordou::seu cão lhe lambia as faces e espalhava a grossa baba em seu pescoço. Pensou nas mãos, mas a imagem destas lhe fugia à memória, assim como tantas outras que amara e que ainda haveria de amar.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Susurro Nº1 (em Dó Menor)

    Assim como se gosta do avesso, como começar logo em Sí natural,como que para fujir do acaso tradicional de Mi(m) Bemol, se aprecia também esse cuidado com a regularidade, diria que isso é por si só um fuga desnecessária. Talvez, em tempos mais simétricos, numa quadratura regular, o Sí possa voltar ao tom que lhe cabe, mas em tempos de atonalismos e confusões, acredito que até o Mi(m) se suspenda da função. É uma confusão confusa, fundamentada em fundamentos rasos, e por fim, confusos, mas não menos verdadeiros, mesmo que auto-enganadores.

    Talvez no fundo, esse Si natural, tenha medo de encontrar tamanha beleza no tão custumero Mi(m),e que esse lhe caia como uma luva, que lhe acariciará as rugas, para em fim, viver feliz com seus amores, vivos ou esquecidos.

    ResponderExcluir