terça-feira, 23 de março de 2010

Azedume

O cheiro era um misto de laquê com pó-de-arroz. As velhas enfeitadas adentravam o recinto fantasticamente decorado com flores, laços, brilhos, garçons e garçonetes, devidamente uniformizados. A anfitriã observava seus convidados com um sorriso maquinal, vestindo veludo e seda, jóias e uma densa camada de argamassa facial. Com a boca fúcsia, a jovem recepcionista indicava lugares e falava "boa noite". Aos poucos, cada um foi assentado onde lhe cabia, conforme importância social. Ao prefeito e sua família coube a mesa próxima à dona da festa, aos cirurgiões plásticos e aos advogados as mesas seguintes. Aos professores eram destinadas as mesas mais afastadas, perto dos banheiros. Todos estes níveis eram intercalados por socialites mais ou menos abastadas, cabelos armados, bocas enormes, narizes empinados e queixos bipartidos.

O locutor anunciou o início da atração musical, um quarteto de cordas vindo da Alemanha especialmente para o evento. Assim que soou o primeiro acorde, uma das ilustres senhoras levantou-se de súbito e começou a andar pelo salão. Andava e marcava o ritmo na mão esquerda, gradualmente sendo tomada por uma incontrolável dança que, com o passar dos segundos, tornava-se frenética. Algumas outras pessoas tiveram o mesmo solavanco um pouco depois, moviam-se avidamente por entre as mesas, algumas subiam nas cadeiras e chacoalhavam os braços. Aos poucos, todo o salão foi invadido por um transe, todos dançavam, mas o faziam de forma desparelha e inconstante. Voavam pérolas, pingentes, taças, peixes, azeitonas, tamancos, brincos, dentaduras, moedas e relógios, consequencia dos bruscos movimentos exercidos pelos ouvintes. O quarteto continuava seu opus maravilhosamente ensaiado, indiferente aos estranhos acontecimentos que se davam ao seu redor. A música continuou por dias a fio, bem como a catarse coletiva. Pouco a pouco os convidados caíam mortos pela exaustão, pela inanição, pelos violentos choques das cabeças contra paredes. Não demorou muito, a festa acabou.

Os músicos pararam, comeram o que sobrou dos salgadinhos.

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