sexta-feira, 7 de maio de 2010

Um livro aberto sobre a mesa, um rádio, uma gaveta

Assim se encontrava nu, com seus pesadelos e ambições. Perdeu a casa, perdeu o cachorro, perdeu a mulher num desencontro, perdeu o dinheiro e a vergonha de ser pobre. Fora lindo, fora exuberante como um pavão, fora quase um rei. Agora era só com seus delírios. Uma história contada e re-contada milhares de vezes por pessoas alheias à sua felicidade, pessoas esdrúxulas com idéias quadradas e anéis, filhos e parentes para cuidar, grama para cortar, contas a pagar, carros a estacionar. Nada lhe dava mais alegria que sentir-se ótimo perto delas, saber que não tinha mais com que se preocupar, já que o destino lhe daria tudo de que precisasse. Sua memória agora era como uma caixinha de surpresas que lhe revelava fotos desbotadas de sua distante vida, aleatórias como só os sonhos sabem ser. Viveu para sempre em seu onírico mundo, isolado da maldade e do desconforto, longe do chão, perto de Deus.

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