terça-feira, 29 de junho de 2010

Esquecimento

De nada adiantaram as palavras ditas e re-ditas, novamente se esquece do que decidiu sentir.

Olhou para o relógio: parado novamente. Sempre esquecia de ajustá-lo, sempre achava estar com tempo suficiente, mas sempre chegava atrasada aos compromissos. Pegou algumas fotos velhas que jaziam sobre a escrivaninha e começou a observar...em todas aparecia de olhos fechados. O que aquilo queria dizer? Exatamente não enxergava o que se passava em sua vida, não via as lições que deveria aprender com os problemas que enfrentava. Seguia guiando-se no escuro, cega e muda, pois não se comunicaria com ninguém até atingir a perfeição humana (uma promessa feita ao nascer).

Guardou as fotos, em alguns instantes adormeceria ao som de trombetas e sinos.
Velhas cartas sobre a mesa
Assim recordava
Assim guardava rancores
Assim murmurava

Por onde andariam aqueles passos largos?

O sol iluminava e queimava, ardia os olhos, os lábios
Vermelhas suas lembranças
Vermelhas suas saudades
Verdes as esperanças
Amarela sua felicidade
Cor-de-rosa seu amor

domingo, 27 de junho de 2010

Brancos, brancos

De tão tristes ficaram brancos

Meus cabelos longos e brancos

Nenhum fio sequer permanece intacto

à suave cor que se embrenha pela pele

e sobe pelo couro cabeludo

Até a ponta

Pontas brancas

Raízes brancas

Sem rugas, me sinto impotente

Sem rugas, não tenho experiência

Mas tenho cabelos brancos

Brancos como a neve

Brancos como só a melancolia sabe ser

E como só as mais belas melodias sabem cantar

Limpos, brancos, transparentes

Tudo isso é reflexo do presente

E do passado que deixei passar.

No silêncio me ouço, ouço as luzes, ouço o mar
Achei que estivesse sozinha
Quando me deparei, lá estava ela, a saudade, novamente a me repreender
Estava me esperando
Pra me dizer que eu não devia sentir vergonha de tê-la como companheira
Ou que eu não deixasse de dizer o que sinto
A quem quer que fosse

Ela me pegou pela mão, me abraçou
Lamentamos juntas os desafios da vida
E descobrimos que somos felizes
Uma tem à outra, não estamos a sós
Beijei-a na testa, agradeci,
e ela sumiu.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Insólita insônia

Enquanto o sono não vem, faço uma canção para os meus sapatos velhos
Desgastados, só lhes resta a carcaça
Calçados, me parecem feios e sem vida
Me servem tão bem
Mas não me protegem mais da chuva
Nem das pedras no caminho
Muito menos da tortuosidade dos próprios caminhos

Com eles trilhei florestas e cordilheiras
Corri de elefantes, subi e desci escadarias
Dancei, escorreguei, tropecei
E até cheguei a acreditar que nunca encontraria sapatos melhores
Mas esse tempo passou
E comprei um par de sandálias.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Da sabedoria

Aprendi a viver
Quando me libertei para fazer as minhas próprias escolhas

Aprendi a amar
Quando aprendi a perdoar

Aprendi a aprender
Quando todas as experiências, fáceis ou difíceis, passaram a me favorecer
e quando não quis acumular mais conhecimento só para mostrar para o mundo do que sou capaz
Aprendi a admirar as pessoas
Quando aprendi a me admirar
E a ouvir os outros
Quando ninguém mais quis me escutar

Aprendi a seguir bons conselhos
E a aconselhar somente pela expressão da verdade no meu coração

Aprendi a olhar nos olhos
Aprendi que não estou sozinha no mundo
Aprendi que todo ser humano está aqui para aprender a ser um melhor ser humano
E que a evolução é constante, conforme a força de vontade de cada um
A natureza mostra tudo, o saber Deus é quem dá
Sigamos, então, aprendendo...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Não devia ter sonhado hoje ::

O sono me aturdiu
O sono me arrebatou
De tão real, me iludiu

E a vigília se tornou meu pior inimigo
Hoje
O sonho foi mais divertido que a realidade

Devia ter acordado logo.

domingo, 20 de junho de 2010

Dessa imensidão
O mergulho é só um vislumbre

Legal é quando o mar te invade
Você é o mar
Você é imenso
Imerso

Bate no fundo e volta, sobe, flutua
De tão densos não conseguimos flutuar
De tão leves não conseguimos mergulhar
O meio é então
O caminho, o equilíbrio, o estável estado de estar

A água te envolve,
Te molha sem querer
E quem é o dono da maré?

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Alguma coisa

Que susto vi nos teus olhos, um susto afigurado pelo piscar súbito e desvio de visão. Assim se transfigurou a minha face e os meus dentes franziram a minha testa como quem não quer demonstrar qualquer afetação. O rubor me denunciou...o que acontece é que sempre espero demais de qualquer situação, e a cara sempre cai no chão, aconteça o que acontecer.

- Depois não vá dizer que eu não avisei!

Júlia me disse que tem que ser feliz. O que lhe digo, minha irmã, é que nem tudo na vida se resume a felicidade, e, digo mais, o amor é ainda melhor que a felicidade. O tempo é curto e infinito, o amor é infinito, o amor...é infinito.

Ele passou pelo corredor de pés descalços e subiu as escadas. Foi até o quarto da mulher, que dormia babando na fronha. Pegou um copo americano, colocou sobre a mesa, encheu de água. Logo, sua dentadura boiava dentro do recipiente e ele dormia abraçado ao dorso quente da enfermeira.

Ela

Muito velha pra ser jovem
Muito nova pra ser experiente
Muito gasta pra ser útil
Muito lúcida para a loucura
Muito feia para a moda
Muito séria para a aventura
Muito política para a malandragem
Muito livre para o escritório
Muito injusta para a caridade
Muito sincera para a verdade
Muito clássica para a cidade
Muito fêmea para os homens

Muito aérea
Muito escorregadia
Muito efêmera
Muito entusiasta

Para ela
Para ela
E só para ela.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Lorota

A Monalisa me sorriu - é verdade!

- Pedro, não me amole, você só quer me enganar
- Tá, mas eu sempre acabo contando a verdade, já você...
- O que você está insinuando?
- Que a essas alturas você já devia ser sincera comigo.
- Tá, mas e se eu só conseguir mentir, achando que estou sendo verdadeira?
- Nesse caso...tudo bem, contanto que você não engane a si mesma...
- Ah, você é demais!
- Demais é o meu pai, eu sou normal.

Do desprendimento

Pedras, espinhos, ribanceiras
Caminho tortuoso do sangue pelas veias
Artérias quentes que te querem abraçar
Matéria de que sou parte, daquilo que não me pertence mais
Pernas pro ar, vaca no brejo
Tudo isso no liquidificador, com uma pitada de pimenta
Aguenta
Agora, solto no espaço meu pensamento viaja
A dez quilômetros por hora e acelerando

Outra vez, mais uma
A dormir, a sonhar, a vagar pelas estrelas
E a esperar um ônibus vazio, com lugar pra sentar
Sem olhos pra me ver, me ouço pensar
Penso
Pensei
E não cheguei a conclusão nenhuma.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Rumo

Eis que a vida segue.
Retoma seu curso e ruma pelo caminho do meio, a violenta dádiva de viver, extrema e inconstante - me perfura os pulmões com suas agressões, quando me deixo ferir.
Os caminhos são naturais: nem sempre iguais, mas sempre pra cima e evoluindo, pois mesmo que não queiramos admitir, estamos em constante aprendizado. Todas as coisas ruins são boas, tudo é bom pra quem vive sem esperar, o conforto se torna fácil, a morte se torna fácil, os relacionamentos são simples. Daqui eu não levo nada além daquilo que eu aprendi.

:: Quando chegar o momento de eu cantar
Eu cantarei um canto alegre, canto pela paz e harmonia
E todas as coisas que por mim passarem vou cantar

A vida é simples pra quem não espera nada
Além do sol, da natureza e das estrelas sempre a brilhar
E do som que emana do vento e da correnteza do mar

Hoje, no meu canto não tem guerra
Só tem amor ::
O silêncio é individual e coletivo, porque ele une, transforma, centraliza as atenções da sua mente para o seu ser. O essencial é mudo. A essência é.