sábado, 31 de julho de 2010

Som, barulho e afins

As palavras se repetem, repetem...
Recorrentes são as frases mal-ditas e pouco expostas à luz do sol, o que as deixa com um aspecto velho e cheirando a mofo
Repetem versos, repetem refrões, versões de um mesmo som
Traduzidas e praticadas, reduzidas, esticadas
Repetidas
Inúmeras inúmeras INCONTÁVEIS vezes
Repetidas
Atenhamo-nos agora ao cerne da questão: onde andará a repetição?
Eu te digo, companheiro, está no final da canção.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Explosão

Alguém me disse
que todos os números levam ao mesmo infinito
E que, antes de ser eu mesma
Sou eu, eu sou
A semente da criação divina
O centro
O sol
A fonte da sabedoria universal
e do amor eterno

Alguém me disse isso e sumiu
Um dia fui procurar quem me falou todas essas coisas
Para me desfazer do peso de sentir tanta imensidão
E voltar a ser pequeno pequeno, um grão de areia, um minúsculo capítulo da história da humanidade, um trecho da evolução do homem-macaco, homem-máquina-pó, máquina-pó

Buscava nos livros o caminho de volta, mas só encontrava mais e mais emaranhados de complicado conhecimento, intricados caminhos, difíceis de trilhar, teorias, técnicas todas demonstrações claras da consciência que eu deveria adquirir mas que evitava por preguiça e preconceito
Nas pessoas buscava lições, argumentos para definitivamente fechar os olhos a tudo o que se me apresentava e que eu via como a mais pura verdade, por mais dura que fosse e por mais desapego que isso pudesse exigir de mim
Em cada história só enxergava mais e mais o poder divino, o súbito olhar da criação a me derramar sentidos e me encher de possibilidades

Depois de procurar bastante, ainda tentanto ignorar a inexistência do caminho para alcançar a minha ignorância completa
De tanto forçar a mente para entender
De tanto tentar explicar o impossível
Meu cérebro explodiu

Só sobrou o meu espírito
E foi aí que eu entendi.
As pombas também voam
As pombas voam
Eu não.

sábado, 24 de julho de 2010

Alegria

Sei da plena necessidade da tristeza
Assim como da insalubre tarefa de libertá-la pelo mundo afora
A tristeza se agarra nos fios
Os mesmos fios de cabelo que balançam ao som do blues
As mesmas raízes brancas
O mesmo vento que venta ventando
E a mesma coisa que continua coisando
Como coisava antes por aqui
Agora coisa por lá
E por aí.

Eco

E este ser sempre a me falar
E este ente sempre a sussurrar
A urrar como quem quer esconder a alegria
De esquecer quem lhe fez mal algum
Ou de lembrar de palavras que nao podem ser ouvidas, salvo pelos ecos que vazam das realidades paralelas que tanto insistem em existir.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Cativeiro

Cada pessoa no caminho
É um ser diferente para sermos
Cada pessoa
É mais uma pessoa dentre tantas que habitam nossa personalidade, seja ela de um mundo paralelo ou real...

Faço agora um cofre de palavras
Em que frases criminosas mal-ditas transitam e se dão as mãos, tocam gaita e esperam a liberdade incondicional
E não se perdem no infinito do espaço
Nem se misturam ao universo virtual da MINHA realidade paralela.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Samba

Me dê um tempo
Pra que meu samba recomece
Sem breque desencontrado
Sem coro desafinado
Sem surdo de papelão

Só o samba
Aquele velho samba
Empoeirado
Amarelado
Enredado
Samba-choro-canção
Que de bamba só tem a metade

Meu desconsolo
Num samba-partido
Meu samba-saudade
Meu breve refrão.

Verde novo

Deixo o verde, abandonado
Aos poucos o passado toma seu rumo de casa
E as lembranças não mais vêm perturbar meu sono
Caídos, um a um, os galhos de um velho abacateiro se desfazem ao som do vento, exauridos pela correnteza dos anos...
Os tons mudam, modulam os passos da solidão companheira, aquela breve e embriagada paixão rotineira, companheira.
Cantiga, diga lá - sobre que versos vou caminhar
Bemóis de memórias que vazam pelos ouvidos e pálpebras e unhas e cabelos
Os dedos - suam
As mãos - tremem
Os ouvidos - vivos, muito vivos
E o rosto...ah, impávido rosto, imutável (quantas faces te negastes a revelar para não deixar conhecer sua verdadeira feição?)

Eis que o verde deságua
Em teus amarelos sorrisos.

domingo, 11 de julho de 2010

Mais uma vez

O amor zomba de mim
Como a uma criança que não sabe amarrar os sapatos.

sábado, 10 de julho de 2010

Quanta petulância
Aquele que não lê um poema sequer
Querer escrever a poesia, a vida, ou coisa qualquer.

Itinerário

Quase silencioso
Passa o bonde, solta gente, solta gritos, ais descomunais
Quase na curva
Despenteia nossas notas musicais
Novas notas, bemóis
Sustenidos rivais
Arquejantes melodias...dissolvo o sentido na esperança de não mais sentir o tempo que passa
E o que não passa

Sou passageira
Mais uma
Passageira.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Espera

Cospe e me abraça a inútil paixão
E a rima vai ficar pedindo pra esperar.

Tiro

Tudo gira
E a minha cabeça sempre no lugar

O mundo se entorta, entorta as entradas
Engatinha na vida
E já quer apostar corrida.

As páginas mudas
As linhas tortas
Engatilham os caminhos ligeiros
Avalio o desconforto - faria tudo de novo?
Peço licença e continuo
Sigo pela curva, a endireitada curva, a mesma curva acidentada e ensanguentada
Á(ssssssssssss)cido gosto de erva e curativos
Pernas bambas, pés descalços, rosto encharcado de teimosia
Mais uma vez, a flecha certeira - e lá vem ela!

Me deixe em paz com meus desassossegos
Que de ti não quero nada além do olhar...
Eles pensam que me conhecem
De fato, conhecem...
Vou ali perguntar-lhes do que se trata.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Não quero mais saber das pessoas

Não quero mais saber dos bichos

Não quero mais saber das plantas

Os poemas, que nem me venham bater à janela

As canções, não me toquem, não me cantem

Não que eu não queira mais saber do sofrer

Mas não quero mais saber do escuro, do claro, do jogo de sombras que o sol desenha na calçada

Nunca me obrigue a abrir os olhos

Quando posso sonhar.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Do chão que pisamos juntos - o resto das folhas secas.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Coisa

Abriu a porta do quarto, avistou a pilha de roupas. Lá estava ela, sentada ao pé da cama revirada, olhos borrados de chorar, lábios vermelhos e cabelos desgrenhados, imprecava contra a humanidade. Não era compreendida, essa pobre mulher. Esse podre homem, que tanto mal lhe fazia, era amado de forma doentia, era perseguido, sonhado, venerado, idolatrado. Odiado.

Ao final do terceiro dia, ele entrou no quarto. Ela se jogou a seus pés como um náufrago se agarraria a um pedaço de madeira, beijou seus dedos, amou. Ainda assim, ele não a perdoava por ser quem era - ela, tão louca inconstante. Ele, tão inteligente e superior a qualquer sentimento mesquinho, limitou-se a dizer um "bom dia". Juntou a louça suja do quarto, as meias, os papéis rasgados e encharcados do choro da bela moça; olhou e sorriu.

Esse sorriso iluminou o sorriso do lixo humano que antes se encontrava largado à poeira e aos ratos. A luz saiu dele, entrou nela, transpassou encarnações, ultrapassou a barreira do som. Alumiou-se uma faísca de mulher na coisa que era.

La nada

A caminho do caminho
Mais belo é andar sozinho
Pois sozinho me encontro, me acho fácil, macio
E só, somente só, caminho comigo, com Deus e o mundo
Abro os olhos, me vejo
Me entrego a mim
E a nada temo
Pois nada tenho
E nada tenho a perder.

sábado, 3 de julho de 2010

Ser ou não estar

Estamos
Se não estivéssemos, seríamos
Sendo, não somos
Pos só somos se estamos

E não estaríamos sendo algo que não é?

Sendo assim, me rendo à maré
E que seja o que o tempo quiser

Pois o tempo, ah...o tempo não engana nem o mané.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Quem não tem cão caça como gato.