terça-feira, 31 de agosto de 2010

Receita do dia

Olhou para todos os cantos da cozinha, procurava a espátula de metal. Daquela velha mosca, sempre a importunar, já conhecia os caminhos e vaivéns, sempre o mesmo itinerário - bancada, cadeira, fogão, topo da geladeira, de volta à bancada. Acendeu o fogo, preparou a fôrma, espalhou a grossa pasta branca no recipiente. O relógio marcava incessantemente 17:34 - 17:34, sempre em hora, nunca se atrasava. Lambidas nos olhos de mosca que morde o pão velho. Mordidas no pé do preto fogão do chão úmido de lajotas amarelas. Carne crua. Carne vermelha, vermelha - sem gordura, era muito mais saudável. A panela em riste, colher de pau, alho, cheiro-verde, manjericão. O molho era o sumo do sumo do crepitar nebuloso de seu mais íntimo pesar. As lágrimas eram de cebola, o fogo ardia em chamas azul-antigo (às vezes lhe passava alguns conselhos inúteis) e os restos jogava na pia, como se esta fosse o receptáculo mor de sujeira gosmenta. Ao atirar as lascas de orégano, um sentimento inefável percalçou um suave domínio sobre todo o ambiente. A música que emanava do óleo borbulhante lhe incendiou, o sabor ritmava em todo seu sangue. Começou a dançar, e não parou até que a sua batata terminou de assar.

sábado, 28 de agosto de 2010

Um rendez-vous com Nabokov

Tem que ser molhada
Tem que ser úmida
Se não for, ai dos ais

A pequena pele, a pequena
A pele pedindo óleo
Pelos poros vazando maré de azar
Poluente
Tem que ser poluente
Se não, não arde os olhos

Abra-se, Vladimir, deixe-me entrar no seu estilo sórdido
Estiliza-me
Para que eu deixe assim escapar mais palavras que me fazem sentido
A meus poros táteis do tédio e da presunção.

Insólita Insônia II

Pode devolver minha cabeça, agora!
Não precisas mais dela (até que te serviu bem enquanto não querias pensar em nada, né?)
Agora carece-me - esta que nunca foi sua - minha cabeça
Em suma, ouvidos, olhos, boca e nariz, todo o conjunto da obra, com mente altamente prática incluída, fizeste como O.O.F. com uma casa na praia - uso-capião - não é mesmo? Então, tô precisando bem dela agora.
Me devolve!
Já!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tépido

Trânsito fúnebre austero medíocre
Transe hipnótico autêntica prática
Clássicos prognósticos, fábulas tóxicas
Crises, absurdos, gnomos, pomos-de-adão
Bárbaros, ressurreição
Breve alucinação
Cômica fábrica mística, quase inóspita poluição
Cítricas peles cáusticas
Tangem címbalos, pélvicas mãos
Trazem água, fervente galão

Rubor

Hora de enxergar um passo através...
Mais um passo
Atravesse o rio
E encontre a saída do labirinto
Na entrada do labirinto
Na entrada da boca da língua pelo céu transpassado em vermelho vivo

Azul celeste, brilha o branco do olho cego
Brilham idéias, brilham pensamentos
Entram na mente da gente, esses caras
"Uma verdadeira broca cerebral" - como diria O.O.F.
A voz dela vai lá dentro da gente, semente espalhada no subconsciente
Inclemente, avisa aos descrentes que a hora já chegou
E que a mudança do mundo começou
E o céu já vai flamejar
Em vermelho vivo vivo vivo vivo até queimar.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A última era do egoísmo

Beba deste vinho
Não te pertences mais
És a sombra do que pensas que és de verdade
És um estalo do dedo de Deus

Meu filho
O fogo santo queima a maldade
A terra seca engole a iniqüidade
Os falsos, imorais e pecadores
Estão em ti tanto quanto a verdade e a complacência
A água limpa os erros desordenados
E a inocência retomará seu eixo
quando deixares de pensar em exigir dos outros mais do que tu mesmo podes oferecer
Quando fechares os olhos para as ofensas
e te concentrares no amor puro e compassivo
Verás que tudo isso faz sentido.

Maré

O escuro da noite
Não é apenas a ausência de luz
São os olhos negros do leopardo quando persegue a sua presa
Os dedos cobertos de fumaça de carvão na mina
Os cabelos da moça que se vai no próximo trem

Estrelas pintam o céu com brilho antigo...tão antigo que muitas já nem brilham mais
O que vemos é um passado restante
Uma imagem semelhante
Ao que agora se apresenta como real
Lua vertiginosa - você ainda está?
O mar negro do céu se abre
E as portas do infinito escancara
Para os olhos atentos - dedos dos pintores da alma

Quando reluzia teu olhar
As estrelas se envergonhavam
Só ficava o fulgor opaco servindo de cenário para o beijo inerte do sono e da adolescência
E a lua diminuía a cada verso que cantava aos meus ouvidos silenciosos
Pois a voz da noite
Se rende aos tons e semitons da vontade do amor
E aos silvos agudos que ecoam nas esquinas da febril cidade
Anunciando o nascer de uma nova calmaria.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Interurbano

Uma hora
E o tempo de uma vida embalado pra viagem
O tempo que não espera as dívidas serem pagas
Que não espera os dedos se acostumarem à velocidade dos anos
Que a fadiga não consegue limitar

Uma hora e muitos assuntos
Muitos pensamentos
Astutos minutos
Diminutos vencidos pelo cansaço

A saliva quente que esfria ao tocar o vento da noite
Faz dizer mais do que deveria
E as palavras cortam a distância
Como lâminas iridescentes atravessando a solidão

As aventuras numa terra distante
Se mesclam às lembranças de um passado recente
E as fotos ficam me olhando, olhando...os olhares que também me cortaram um dia
Mas que agora
São apenas fotografias.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Reencontro

Chuva de estrelas cadentes
Shiva, Krishna, Buda e Cristo
Príncipe dos mares, princípio e fim da espécie humana
Cachimbando caboclo da luz
Cachimba e joga tudo quanto é ruim fora
A maldade não tem lugar na terra de Deus
E os homens de Deus têm lugar nas estrelas
O lugar dos deuses astronautas, meus mestres nesta vida, meus guias

Seres divinos escutam a minha conversa com a lua
Fadas duendes elfos e salamandras
Amém, a todos eles
Do que não conheço não falo
Do que já aprendi não me orgulho

Amo o sol, a natureza e o som
A vibração inicial que deu o sopro incisivo da vida terrestre
Ao ciclo cármico meu agradecimento
Pela oportunidade de ter encarnado desta vez
Como mais uma filha da poeira cósmica, da luz
Para aprender pelas diferenças
Que somos todos iguais.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A incrível maravilha da metalinguagem onírica

Não permita, ó Deus, que o tempo apague a minha razão
Que a face oculta do medo tome as rédeas do meu viver
Que o equilíbrio me esqueça
Que as palavras sejam ditas sem pensar
Por mais necessárias que sejam para saciar meus desejos
Por mais sonhos esquisitos que eu possa seguir tendo para me livrar desses fantasmas
Por mais incertezas que comecem a lentamente se revelar dentro de mim

Um sonho dentro de outro sonho dentro de outro sonho dentro de um copo
A ante-sala da vitória é bem decorada
Mas tem muitas portas
Posso escolher seguir pelas portas dos caminhos tortuosos
Ou pelo portal do caminho reto - nesse, só passo se levar apenas o desapego do mundo ilusório

Quanto mais ando, mais vejo
Quanto mais canto, mais me desprendo
Canto, então.

domingo, 8 de agosto de 2010

Campus

Germano, esse era o seu nome.
Abraçado aos corredores vazios da faculdade, como se estes lhe refugiassem de si mesmo, como se tivessem algo além de azulejos frios para lhe oferecer, recordava sempre as velhas professoras: Beth era a mais durona, Paula a mais esquecida, Célia a menos exigente. Subia e descia os degraus da escadaria esperando encontrar um não-sei-o-quê de lembranças que deixara por lá ao abandonar o curso, mais especificamente um não-sei-quem que lhe havia roubado todo o seu início de juventude e de felicidade universitária. Passeando pelos locais externos ao campus, avistou o beco atrás da casinha suja usada como depósito, um verdadeiro canto. O seu cantinho. Seu e dela. Deles.

Indagou por onde andariam aqueles olhos (verdes e tristes) que haviam colorido suas tardes perdidas, jamais esquecidas, com perguntas que ele não sabia responder. Lembrou-se da forma como ela o fazia sentir, dos devaneios sem fim e das caminhadas que sempre chegavam à mesma pensão úmida no fim do dia.

Sempre doía na sua alma ter que se despedir de todas essas lembranças. Doía mas, no fim, saía mais leve de lá.
Semestre após semestre, sempre retornava aos antigos corredores.

sábado, 7 de agosto de 2010

Aprendi que...

...abrir-se para o novo é ::
se recompor, deixar o passado em seu lugar, olhar para o futuro, viver o agora.

Bem assim como me ensinaram...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Sh.

Calam-se as bocas
Os indigentes passam frio
E calam a boca
Pra não entrar um ar gelado
Nem sair mais besteiras

Cobrem os rostos: são-paulinos, corinthianos, palmeirenses
O gelo cobre o resto da calçada
E as luvas não servem mais pra nada
A não ser pra fingir ser um assassino em série

O frio luta esgrima com os lábios
Os lábios espremem o frio com os dentes
E os dentes?
Brrr.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Sonho inventado

Entrei por uma porta
Um tapete verde reluzia sob meus pés
A chave eu engoli
E me tranquei pelo lado de fora

Andava sem muita precisão
Cambaleando entre palavras tortas
Tropeço num ce cedilha
Me deito sobre flores mortas

Abstraio os quadros nas paredes, que me seguem todos com o olhar
Abstratos, retratos
Sombras que se movem, arbustos fluorescentes

Estava escrito na porta:
"Só entre se tiver certeza"
Certeza do quê?
Certeza...é o que não me importa
Por isso entro sem a certeza
De sair
Com a clareza
De seguir
E com a nobreza
De tentar

"A mando de quem entrastes aqui?"
Sob o comando do possível erro
Me lancei ao acerto
Sou filho da luz
Posso ser onde eu quiser.

Diálogo sem intenção de ser uma conversa

- Onde você aprendeu essa técnica, babaca?
- Qual, a de ignorar as ofensas?
- É, essa daí, seu ridículo...
- Ah, foi num curso há alguns anos...aqui em Curitiba mesmo...
- Poxa, se você não fosse tão idiota eu te pediria o contato de quem te ensinou isso aí...
- É, ali perto da Biblioteca Pública, sabe? Do lado da loja que vende bombom a um real...
- Hmm...você é um porco mesmo, bombom a um real??
- Pf.