quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Vão

Dizem por aí que me entreguei...
Quem antes de você me conheceu, diz que não me reconhece mais
e quem agora me conhece, pensa que sempre fui assim
Mas eu não sou isto
Nem a entrega, nem a omissão
Meu dom maior é adivinhar pelo olhar
sentir
E é só isso o que posso oferecer

Dizem por aí que me entreguei...e que não exijo nada em troca
Deixe que falem, essas bestas
Não sou delas, não são minhas
E a injúria fica pairando sobre suas cabeças como nuvens pesadas e escuras

Que o mar me leve na onda do vazio
Se de mim escaparem palavras vadias
Sempre fui assim? Sempre sou
A entrega, a omissão
A linha do contraponto do sim e do não
Desanuvião.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Uma flor

Um caule verde entortando (como um desmaio lúcido e colorido)
Um copo com água

Guardo na estante o instante do aroma
Como se fosse possível captar a brisa da fecundidade intrínseca do desabrochar
Uma flor
Não é mais que uma flor
E nem quer ser

Leva o tempo, traz
Balança, dança
Descansa no olhar
No olhar que lhe retira a mais pura essência (malditos olhos, olhai!)
Fixa assim, a suave renúncia de viver para a beleza
Para outros jardins e sóis
Para outros botões.

Da palavra vício

Injetou em si mesmo aquele doce veneno
Os olhos lacrimejavam
Sabotava a cada passo a resolução, o acordo feito com sua (inconstante) consciência
Os olhos fixos no rastro luminoso que deixavam alguns automóveis
As mãos inquietas, dançarinas - gesticulava mesmo sem falar nada
O que era de seu medo, afinal? O que tinha feito com todas aquelas esperanças, colocadas propositalmente à beira de um incinerador? Teria deixado tudo acontecer à maneira do tempo, mas seu orgulho sempre foi maior do que qualquer lei universal. Seu orgulho e sua vontade. A vontade de recuperar o orgulho que se esvaíra pelo bueiro há alguns anos (talvez mais).

Sinto uma falta permanente de razão
Um despudor sub-repticiamente projetado para explodir na hora certa
Uma calma inconveniente
Uma leveza insensata que não posso mais explicar.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Libertad

Quando eu não sabia de nada
Eu era mais livre pra sentir
Eu já fui mais livre
Eu já fui

Agora sou esta presa fácil
Do destino que insisto em escolher.

sábado, 25 de setembro de 2010

(R)imáculo

Silenciei
Meu peito silenciou-se de uma perfeita harmonia
Suave brisa do amor
Aos tolos enfastia
A mim, poesia.

(Os poetas mais sinceros são aqueles que falam do que todo o mundo já sabe)

Être

Empresta as asas à imaginação
Deixa sair de si
Todo esse amor
Toda essa alegria
Explode em cacos que não ferem, são confetes, serpentinas

Só o seu ser já me deixou sendo.

Café com Caê

Gosto de livros
Porque eles tão pouco caso fazem dos significados
Que se comprometem apenas com a metamorfose das interpretações de cada pessoa que sobre eles pousa a vista

Cada pessoa é um livro
Ou uma maneira diferente de ler a vida.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Olhos abertos

Morto ele está
E morto permanece
Só que vivo, muito vivo

Agora compreendo o real significado da "morte"
Como uma transição entre o sonho e a realidade.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Lume

Era um átomo
Um istmo perfeito que enlaçava os rios, truncava os risos, mareava...
Uma selva, um temporal
Pântano do não-óbvio
Onde jacarés vagarosamente caçavam a minha sombra

Rítmico, tétrico, encefálico
Nada de novo, nada de mais
Demasiadas palavras, silêncios, frêmitos intermitentes
Nada de novo, nada de mais
Nada além do novo, do acaso
Dos lumes e dos ais

Esse lusco-fusco ainda me ludibria
A estranha passagem entre o sim e o não
O claro e o não tão claro assim...

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Fogueira

No sentido vertical
Quero viver olhando para cima
A lua me dá conforto
O sol (mesmo queimando as retinas) aquece meus pensamentos

Não precisaria olhar para o meu reflexo
Nem focalizar outros olhares
Perturbadores - franco-atiradores

Já dizia a minha mãe, parafraseando (inconscientemente) R.R.C. - "Você é uma bruxa".

domingo, 19 de setembro de 2010

Flutuar

O vôo é novo, tudo é novo
Parece que estou abrindo os olhos pela primeira vez
Parece até mesmo que estou flut...opa, estou mesmo!
Passei pelas vozes enfadonhas, passei pelas projeções de mim mesma, passei pelo receio de não existir
Agora subo, continuo subindo
E é só pensar em cair que já me encontro rente ao chão
"O segredo é não ter medo"
Uma voz dentro da minha cabeça me mostra a direção
E eu, quase desgostosa, não tenho escolha a não ser segui-la

Desperta
Olha para o teto e agradece
Que mais uma etapa da sua vida começou.

Diálogo sem intenção de ser uma conversa II

- Oi, você tem noção de tempo?
- Ontem mesmo te falarei que não!

- Oi, você tem noção de espaço?
- Onde você quer chegar fazendo aquelas perguntas?

- Oi, você tem senso comum?
- É...mais vale um pássaro na mão do que dois voando...

- Oi, cê tem bruchov?
- Gosto, gosto de batata.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Duplo sentido

Na insistência de olhar o sol de olhos abertos
Alguns acabam ficando cegos
Não percebem que a luz se faz ver pelas sombras
E que até as flores precisam desta para não morrerem

A noite é tão necessária quanto o dia
Absorver o frio, sentir falta do calor
Nesse sentido, a ausência é a avalista da presença
Ausência de sentido é o que denota que este um dia existiu

"E o silêncio é a moldura da música"

Em branco

Tanto de tinto instinto
Tento tanto que já não me contento
Tanto pranto, teu manto, meu canto
Tonteia até o tempo de não mais tentar

{De que valem as melodias, se o som já me transpassou veias e ossos, atingiu até meu sistema imunológico?}

Foi-se o tempo do mito
Agora quero o rito, o dito pelo não dito
Repito, quero o dom de dizer
Mas não tenho, não posso
E só digo palavras em branco

{Falsidade ideológica ou a falsa idéia lógica?}

Eu continuo falando sozinha (quem sabe as paredes tenham mesmo ouvidos...)
Ensaiando pra um dia
Poder mesmo me ouvir (em alto e bom tom, bemol, sustenól)
E assimilar os brancos que me preenchem por enquanto...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Nascimento

Salta o salto mais largo
Pensa, suspende o grito (guturalmente, é um sussurro em flor)
Sois então a pena mais leve que gira no ar, flutua esplêndida massa
Chega ao seu destino, dobra-se como quem amortece a queda brusca
Cede ao cansaço (uma fração de segundo apenas, um arrepio de cálido fulgor)

Espasmos te dirão com quem andas
Pulando sem direção
A passos largos, de mãos dadas com outros botões
Mais alturas, mais espaços
As pedras ficam cada vez mais altas e o salto...cada vez mais distante
Chegando lá em cima, senta no topo da imensidão azul
Sente o topo do mundo, o topo das idéias
E o teto do mundo é o céu
Que para ti se abriu no dia em que você, chorando de fome e alívio
Saltou do ventre da sua vida.

Maré II

Sei bem o que é ter o corpo fechado
Conheço o olhar de quem não tem nada a perder a não ser o tempo
E de quem espera não perder mais nem um minuto em devaneios

Permita-me escolher desta vez a voz da noite - suave, um pouco rouca
Escorro-me na areia: faz tempo que não chove!
Sei bem como é não estar presente
Conheço o olhar de quem pressente uma traição
E de quem tem certeza de que já traiu

Já vi esse rosto em algum lugar (terá sido no espelho?)
Esse olhar, que mais uma vez aponta para o rumo da coisa que coisa que coisa que coisa ainda mais agora
Olharei para dentro, então, já que não encontro mais nada do lado de lá do mar
Vagueio pelo lado de cá
Sem ver o horizonte, mas sentindo a brisa da manhã bagunçar o meu cabelo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

É no balanço do tempo
Que meu coração vem se embalar
Molha a terra, chuva vem molhar
Me empresta teus ventos, mamãe Iansã
Deixa carregar

Leva embora, leva
Deixa ir a tristeza
Deixa ir o tempo, deixa vir
Vaivém das luzes, vaivém dos anos
Tudo passa, um dia há de passar.

domingo, 5 de setembro de 2010

Duelo

Do livre-arbítrio manifesto
à facada púrpura de cuja fenda escapam vísceras dúbias (entre lisas e ásperas, sempre vísceras) - ingratidão e defesa. Vem o cavalo armado até os dentes, sobre o qual um nobre guerreiro a serviço da honra:
Me defendo como posso
Me defendo como posso
Me defendo como posso
Me defendo como posso

Desconheço esse jogo
Desconheço as regras
Desconheço
Me defendo como posso
Me defen
mdef
f.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Fundo

Prestes a me devorar por inteiro
A farinha do desejo, a farinha do desprezo, do desespero
Me como em carne viva avivando os sutis temperos do acaso
Te alimento como a uma lagarta gorda e cruel sob espesso véu de pele verde
Rastejando pelos poros, cruzando mares infinitos
Não sem ambigüidade
Mas livre de acessos de raiva momentâneos - imanifestos (pela fresta do esquecimento, lembra-te)

Sempre fui, sempre sou
Sempre estou
Aqui

Olhando-me no espelho da profundidade horizontal
Mergulhei e me afoguei
Não volto mais
.