quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Entulhos

Numa bagunça, não importa o que você tira do lugar.
Meu crime é perceber a sujeira por trás de cada olhar
Meu tormento é ter o dom de adivinhar

Minha doce intuição
Nunca mais você ouse me deixar.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Marcha

Onde é?

A saída do ovo, da casca, do novo
Da volta, do mundo, do trem, do segundo
Onde é
O ser que habita em mim e que é divino em você também
Parte daqui pra um minuto ou universo em profundo verso controverso
Sem sombra de dúvida
E sem querer voltar atrás...

Caminhemos, amigos, em frente
Atrás vem, mais que furiosa, muita gente!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Meu passarinho
Passsssarinho
Passsssssarinho

Canta, vai!

Formiga

Brancos, tão brancos...como não poderiam ser perfeitos?

Ainda lembra bem do sofrimento
Ainda batendo no liquidificador aquele azedo de ser ignorado
Ainda lembra

Lembra? Aquele dia em que eu te perguntei se você ainda estava naquela...naquela! Mesma coisa mesma
É tudo igual por enquanto
Só muda quando algo em mim se aproximar de outra coisa, quando ela se aproximar de mim
Quando ela se aproximar quando outro se aproximar
Quando dos próximos, antenas

Lambe os olhos, toma.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A noite apaga o último vestígio de sanidade: a luz das idéias.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Novamente me sou
Sendo-me em lugar nenhum
Em nenhum de vocês
Nenhuma curva
Nenhum ouvido
Nem mente turva

Não sou no copo
Não sou no samba
Não sou no carro
Não sou na tumba

Me sou e me tenho
De novo, sempre e sempre, outra vez
Pois de nada adianta lhes ser
E não ser-me sendo, sabendo me ser
Assim seja

Amém.

Despedida

Fiz esta canção pra você
Para nós
Para todos os que se encontram enrolados
E deixados
Nos cantos, nas praças, nos bares
Ao som do vento e sopro da noite
Para nós, simplesmente
Porque merecemos nada mais que uma canção

Nos jogamos no mundo
Sem nada esperar
Sem nada receber
Apenas andando
E descobrindo o melhor que há em nós e nos outros
E o pior, por quê não?

Esta canção cansada
De pés sujos e bocas secas
De choro e de vela, sem refrão
Para nós, que apenas queremos ir embora
Dançar
Ouvir
E cantar.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Procê

Contente estou
Quando feliz sou de poder te ver
Quando o tempo já não importa mais
Quando o dia e a noite parecem que tanto faz.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Progresso

A lei do silêncio
Está acima da lei do livre pensamento
Mantenhamos a ordem e o acatamento
E sigamos em frente, sem tormento.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Interessante ver a vida passar
E lhe dizer uma cantada de pedreiro.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Novamúsica

Na canção retrato o teu rosto tinto de papel
No chão, só notas caídas.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Umidade

Saíram os dois, a chuva e o vento
Por que não poderia sair também?
Pés empapados, metade de mim esfria ao som das gotas e do silêncio submisso dos que esperam sob os toldos...eu não espero, sigo pelo meio-fio, guias, canaletas, vias de acesso - tudo, como sempre, meticulosamente calculado

Olhos castanhos, cinzas, amarelos
Bestas coloridas andando pelas ruas da cidade (não são, afinal, exímios manipuladores de guarda-chuvas, esses curitibanos?)
Espremem instintos (ah, que recato!), doces gentilezas encrustradas de preconceito
Eu manobro como se possuísse um sabre de luz, observando as maravilhosas esculturas momentâneas que se formam ao cruzar uma ou duas pessoas em vielas estreitas

A poça dança no lodo do meu lado obscuro
Eu danço na poça obscura do meu lodo
Meu lodo dançou com a poça da minha obscuridade
Danço nos passos nas poças, pé ante pé, boca ante beijo empoçado

De volta para casa, posso utilizá-lo como escudo para possíveis pilhagens no caminho.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A teu

Não acredito em palavras.

Acredito em ações bem feitas
Em desculpas, em enganos e caretas

Acredito em olhares, farfalhar de lençóis, mudanças comportamentais repentinas
E no cheiro que deixam as crianças quando correm na saída do colégio, ainda que suadas e ignoradas pelo barulho da cidade

Creio nas coisas mais absurdas, do teto de palha ao monstro metálico que desliza sobre trilhos, sem neles encostar
Nos pássaros que cantam sob a chuva e nas bandas que morrem sem nunca deslanchar
Acredito (cegamente) em navios, em fantasmas e nas colheres do Uri Geller
Também nas lagostas e nos ninhos de cobra que nunca vi

Tenho fé na corrente sanguínea, nos ossos e na osteoporose
E acredito que tudo o que comi hoje de manhã transformar-se-á em nutrientes e bolo fecal
Além disso, acredito em pessoas que me observam e que me odeiam
Acredito em seus motivos
Acredito em meus motivos para não odiá-las
E, por quê não dizer, acredito em quem me ama

Mas não, não me peça para crer em palavras.

Livro II

Não deixa transparecer o que te incomoda
São apenas faíscas no incêndio, pequenos fascículos de ingratidão
Todos no mundo se perdem em cheiros, cores e sabores
E as pessoas ganham vida nova percebendo o mundo de formas diferentes.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Ponto.

Onde está?
Agora, o que oculta a língua morta
O que falta à linguagem
Palavras, gestos obscenos
Obscuros pontos finais, vírgulas, dois pontos: já não sei mais entender nada, gostaria que me dissessem na cara tudo o que sentem, esses seres.

Acabaram as rimas, os versos, os cantos
Toda aquela sofrível vertigem de ter tanto a dizer
Um quadra de esquisitos verbos (concubinar, maldizer, céucolorir)
Tudo se perdeu nos olhos abertos e boca fechada
Dedos finos, varetas - oscilando entre escorpião e sagitário
Meramente, contos novos a inebriar o mundo virtual - mapa astral?

Prédios em chamas, teto, trama, tontura, presença
E o que um dia foi um belo desconhecer
Tornou-se um "não sei o quê" de palavras malditas, novamente pregadas como anúncios de uma boa-vinda que, talvez, nunca existirá.