domingo, 25 de dezembro de 2011

Momentos

Tudo o que faço é esperar o momento certo. Espero, espero. Enquanto isso, mudo de idéia infinitas vezes, espero chegar a verdadeira vontade. Uma vontade de que tenho saudades. Um ímpeto quase indescritível de fazer as coisas sem pensar muito, só fazer. Realizar. Mas eu espero. Espero o tempo, espero a vontade. Em minha mente apenas distingo alguns pensamentos, semeados na grande eloquência de trair meus próprios devaneios, calmas indecisas...me acalmo e sigo, espero. Ao passo que chega o momento verdadeiro, traço inúmeras possibilidades de não fazê-lo ser, de criar em mim uma barreira contra o mundo, de não ter que reagir. De me entregar. Mas a quê? Entregar-me-ia a tudo quanto fosse preciso, se disso não emergissem dores, decepções, tão exatos seriam os resultados*. Assim, sem entrega, tudo é monótono, tudo é seguro. E eu seguro. Seguro a vontade, seguro o tempo, pois este não chega e eu espero.

*Contradição ou não, espero o momento em que tudo seja novo e inexato, a segurança de não conhecer os resultados de minha própria vida.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Seiva

Meu nariz sangra.

Em pleno gozo de vida e de alegria lembro que sou humana, vermelha. Ao sabor disso que me escorre, sinto o calor de meus dias correndo - íntegro e complexo, meu sangue coagula ao som do vento, uma voz sem sombra cai pesada em sono de pedra, tijolos e tijolos de orgânicas mágoas, seivas, bulbos, plantas - ação. Mas quem reflete ao som do sangue? Quem me usa? Quem me sabe? Tato contínuo, esse fluxo, essa vida. Conspiram ao meu favor as veias, conspiram músicas. Tudo vibra para que eu seja rubra. Tudo vive para que eu seja viva.

Café, Milan.

Falta um pedaço: ainda não entendeu o todo da conversa?
Ao todo, são duas novas partes do coração:
Fábricas brutas de sentimentalismo barato,
Duas novas canções abstratas,
Duas pérolas de judiação, sem alma
No mais, sente que trai a cada passo.

Um dia comum - I

Seria um dia como qualquer outro. Ela me despertaria com um beijo no rosto e eu, em estado de semi-lucidez, responderia ao beijo com um grunhido tranquilo, correspondente a um "eu te amo" ou a um "aprecio o fato de você ser minha mulher por tantos anos". Ainda na cama, recostando o travesseiro no espaldar, ela sentaria em posição confortável e acenderia o abajour, pois às 6:45 da manhã o quarto permanece sempre numa penumbra indecisa mesclada à luz que supera a barreira de grossas cortinas. Abrindo o caderno de capa de couro, procuraria o lápis que sempre mantém ao alcance, no criado-mudo e, durante os cinco minutos seguintes, dedicar-se-ia com afinco à nobre tarefa de anotar o último de seus incríveis sonhos. Sim, porque ela sonhava muito, tanto que nunca conseguia condensar em linhas de raciocínio inteligíveis todas as oníricas paisagens e situações pelas quais passava durante a noite, reconhecendo pessoas de seu convívio no escritório, atores de novelas, amigos, parentes e até mesmo eu, quase sempre dotado de algum elemento bizarro. Digo isso porque me inquietava a forma como normalmente descrevia minhas aparições em suas fantásticas histórias, ora transfigurado em coelho diabólico ou portando uma cabeça de bode, ora como o marido comum, com o detalhe de estar totalmente nu e, pasmem, eunuco. Após esmiuçar todos os detalhes de sua memória altamente treinada, sairia da cama e penduraria a camisola de seda cor-de-rosa no encosto da cadeira, iria até o banheiro e abriria o chuveiro. Ainda fria, a água lhe tocaria a pele e seus pêlos da nuca ficariam eriçados, como quando ela entra numa piscina ou no mar. Eu sempre achei engraçado os pelinhos se alterarem dessa maneira, sendo que mais de uma vez ela afirmara não ter medo das baixas temperaturas. Celina sempre me criticava por eu, palavras suas, "gravar feito uma máquina registradora" todos os detalhes efêmeros de sua intimidade. A alguns, por mais insignificantes que pudessem ser e talvez graças a uma sensualidade inconsciente, ela atribuia máxima importância, assumindo uma postura infantil ao revelá-los e, por quê não dizer, transformando-os em coisas impessoais, como se o simples ato de descrevê-los não revelasse uma face de sua personalidade. Com alguma intenção obscura que não posso compreender, eu memorizava cada informação exposta aos meus atentos ouvidos, quanto mais íntima, melhor. Em contrapartida, ela se sentia muito observada, e isso a incomodava quando esta minha "obsessão" não lhe convinha. Após o longo banho, ela abriria o box e, na ponta dos pés, apanharia a toalha da parte superior do armário, abafaria o corpo todo e, pouco a pouco, as gotas parariam de escorrer por seu corpo, a seguir viria o creme, que lhe daria um ar condizente com a fresca manhã. Seria um ótimo dia, como qualquer outro, pois os dias naqueles dias eram quadros de um mesmo rolo de filme apenas diferenciados pelos sutis movimentos da idade. Jamais alguém poderia imaginar que nossas vidas, cômicas ou dramáticas, pudessem extrapolar a tela e saltar para a realidade, tão perfeitamente imperfeitas, planejadas nos mínimos detalhes.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Milan, café.

Quero uma imagem tua e minha. Uma em que eu possa me ver como fui, como sou, como seremos daqui a um ano ou dois. Serei mais uma parte de você. À parte de mim, sou tudo o que posso ser neste exato momento, pois todos carregamos o peso da vida com uma dor, intensa, magnífica, dor de desistir de todas as outras existências, desistir de tudo o que não se manifesta agora, a dor de não ser, ou a dor de ser. Ah, como uma dor pode doer tanto e, no entanto, ser tão normal? Dor mesma, que me invade quando dôo na tua imensidão. Dor tanta, em pranto já não deságua.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Oração

Seu amor é igual ao seu ódio. Duro, massivo, possesso, possui-me como a um objeto, com a indulgência bruta de quem ensina uma criança cega a ler. Temo-me por não saber a quem correr, olhar, gritar - gritos espumas num mar de dores - ou a quem confiar minha passiva atitude de ser. Sei-me calma, sei-me dura também. Não poderia recorrer a mim mesma em busca de abrigo. Sei-me muda. Sei-me fraca. Sei-me toda. Amém.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Idade

Quase posso sentir teus intangíveis acessos, teus medos e culpas, tuas vidas todas...como me vês, como te vejo me vendo, como assisto a tudo isso com um quase irresistível desejo de me lançar às tuas águas...Tento captar um sumo de idéia, por mais trôpega que seja, para me deleitar em palavras e mais uma vez cair em desuso - Rápido, elas vão...Seria você um novo ouvinte de uma nova vida que teimo em alterar, criando e re-criando a cada novo passo um inventário massivo de minha tristeza lírica e disforme? Seria você um novo livro, aberto e criativo, nova edição, para vários contos, tragédia, epílogo-chave? Talvez...sei que tenho lido coisas lindas a seu respeito. Sei que tenho feito de tudo para ignorar. Sei que só a minha palavra já não costura remendos. E mais velha, isso tende a piorar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Batalha

I

Cigarro aceso - um olho assim de lado, me sentindo meio estranho...

Descobri que o teu cheiro não passava de fumaça:
Cinza de palha, faísca retrátil
Labareda cega, laborioso retrato
De um único beijo, um evento: teatro

-

II

Se quiser te persigo, te consigo, te rapto
Tenho dois inimigos: a platéia, o palco.

domingo, 27 de novembro de 2011

Os poetas

Eu quero sentir como sentem os poetas
Que de tanto sentir já não têm mais coração
Eu quero perder a razão
E cantar quando já não houver mais solução

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Resto

Você é massa cinzenta que escorre os pensamentos em caminhos cruzados e complicados, raciocínios ilógicos, tão perdidos quanto a esperança tua de ter uma vida simples, uma vida concreta, dessas que não passam na TV, essas que só a gente conhece ou conheceria se soubesse aceitar os defeitos um do outro sem pensar em hoje, amanhã ou felicidade, tanto que só o tempo diria quão felizes nós somos e seremos um dia talvez...
Sem controle, o resto me devora.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Pausa

O que importa a vida? Sou aplauso do meu próprio espetáculo:

Peça de mim mesma, para mim-platéia, absorta, imersa, intensa...a mesma cena, cenário-obstáculo, luz, diálogo, um palco - todas as cores e um só pensamento - sair correndo e ver o sol, ao vivo, sem intervalos.

domingo, 13 de novembro de 2011

Essa cara

Já que ao menos não posso te ver te crio e transformo tua cara em uma música uma canção pra cantar só pra mim enquanto a cidade me deixa fazer outra coisa que não seja pensar em você e nessa tua cara pele teu cabelo tudo que te cobre esses atributos todos que definem a tua personalidade índole presença densamente ausente constante nas rimas nas noites nos olhos e bocas e cheiros que sem nada achar te procuram e olham sem ver sem tocar sem sentir sem ouvir só achando nada e a cara tua em nada estampada.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ah, se fosse uma desequilibrada qualquer...
Não, sou uma desequilibrada loquaz.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Velho

Te quero, te velo
E aí, nada faço.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Pra viagem

Ar suspeito, um tanto envergonhado:
- O...Oi! Você por acaso não é aquela pessoa que se mantém viva?
- Oh, sou sim, mas...
- Poxa vida! Que maravilha encontrar gente assim! Que honra estar com uma pessoa que se mantém viva!
- Ora, imagine...
- Pois é! Hoje em dia isso é realmente raro! Você gosta sempre de se manter viva aqui?
- Oh, sim, mas...não venho muito, vivo vivendo, sabe como é...
- Ah, eu sei...vida de vivo não é fácil mesmo, né! Tem que se manter vivo, sempre, o tempo todo...poxa, isso deve cansar...
- É, um pouco...
- Nossa, mas que legal! E você veio aqui comprar esse sanduíche só ou veio viver um pouco? Como é?
- Ah, um pouco dos dois...

On the Air 1 e 1/2

Uma nuvem
NUVENZINHA!
Uma abelha
ABELHINHA!
Uma teia
TEIAZINHA!
Uma meia
MEIAZINHA!

Pego o bonde,
marco o traço
Caço a vida,
vulgo passo
Pego tudo,
tudo faço
Canso e mudo
tudo abraço.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Plexo

Te quero, te velo,
Bem junto e afastado
Um lapso de tudo
Um troço grudado

Te vejo, te escuto
Sem planos, convexo
Sem galo, sem grilo
Sem fundo, sem nexo

Te sinto, te cheiro
Me canto, contesto
Me ouço, te beiro
Por Deus, que complexo!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Fumaça

Eu aqui de luto, lutando para negar o que já foi dito:

Luto comigo, libertando-me de um quase-nada, um quase-tudo
Luto, no fundo, um respiro agudo, um ar, um quase-suspiro-mudo
Quase um desolar...

Sopro de fumo que me chega sem mais observar.

sábado, 22 de outubro de 2011

On the road III

As cores, as formas, tudo volta sem sentido. Tento perseguir uma sensação idílica, comer sons, cheirar tons, atribuir-lhes um significado lógico (perfeitamente preso a uma rotina de justificações e auto-punições bem ou mal resolvidas, vez por outra alegres descobertas de mim mesma), alterando assim alguma composição de raiz madura, encrustada, silvos e silvos de trânsito mental...teimo, outra vez, devo alcançar, devo sentir, teimo. Sempre, sempre ontem, amanhã, hoje, agora, mas sem minha presença pulsante, presente: teimo. Sigo um segundo e vem - lamber, roer - as bordas da fantasia, hordas, imagens breves. Nublado. Vem.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Um quase

Te dou um pedaço de mim:

Um tantinho, quase um naco
Pra olhares de canto, enquanto
Me derreto em confins, compacto.

domingo, 16 de outubro de 2011

Entrelinhas II

Eu, metáforas:

Leio inverso, verso rimo
Nada oculto, não entendo
Nada trago, assim começo
E persigo um negro rastro

Direta, reta
Tua rima sai discreta
E meu olho, brisa alerta
Tanto troca, nunca acerta.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Estou sem inspiração nenhuma
Não me peçam para respirar hoje.

sábado, 8 de outubro de 2011

Tino

Enquanto assisto à vida enciumada
Despedaço-me em bens destituídos de sentimentos:

Tudo o que me custa um pouco mais é sentido como uma facada, rajada
Uma peça boa pregada em panos quentes

Peço ao mundo, não me iluda uma vez mais
Sem mais, estou a me entregar

Te entrego todo meu âmago, meu ânimo, meu ácido
Pois você, vida, um dia me quis toda
E eu sem corda e sem novelo perdida em roda, em ruas pontilhadas
Me vi só tua e tão sóbria que não mais poderia amar
Ou matar

Penso-me que existo-me em focos pulsantes e luz, tão branca quanto meu tino pronto e feito, perfeito
Sem corda, demora o tempo e o corpo passa...

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O retorno II

Tenho tanto em mim que não me caibo
Não me encaixo perfeitamente em meu ser
Transbordo, a ponto de inundar uma existência a mais
Uma segunda casca, um segundo rastro
Um corpo inexistente aos olhos e ouvidos
Um corpo plástico, flácido, lúcido

Uma mola

Bambo e só, sambo
Existo em todo canto, em toda vida, em toda dor
Existo, rasgo a pele mole, sentir
Visto, amo, persisto
Tudo em um só momento e a todo instante
Durando o tempo de uma lágrima ou de um olhar
Ou de um eterno tilintar...

Glória a mim, que sou feita de osso e pensamentos
Glória aos rins, que não me deixam desaguar
Glória, mas não o bastante

Pois sou inteira descompostura e desacostumar
Lenta e dura, retorno ao meu lugar.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A rima

Batem portas de pernas abertas
Pelas tortas rotas de costas
Pensam tanto, de tatos opostos
Perdem tangos de tacos na mesa

Ouço dizer:

- Mas ao menos você tem isso -

Esse tombo de túmulo aceso
Uma crosta de húmus coeso
Pré-cozido em mundos de gesso
Bem pregado a muros do avesso

Junto tudo o que de melhor estrago, faço carnes, cozidos, não agrado
Penso em sangue, comidas, dinheiro
Para tantas donzelas sagrado

Tenho fome, inveja, repulsa
Tenho trinta tomates inteiros
Faço um molho de pérola avulsa
Com dois quilos de busca certeiros

Mas...e a rima?

Um dia, ela volta.

Descobertas

Descobri que meu ceticismo é apenas um mecanismo de defesa. Assim, quando algo dá errado, ao invés de sofrer e chorar sobre o leite derramado eu posso dizer: "Nunca achei que daria certo mesmo!"

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

On the road (1)

Curva, curva, curva
Carona nº1:
- Você não tá me levando lá na Nilo Cairo, né?
Curva, curva
Eu:
- Ué, estou, por qu...AAAAAAGGHHHHHHFF
Carona nº1:
- É.

Moral da história:
"Sempre pergunte o destino antes de levar alguém a casa."

domingo, 11 de setembro de 2011

Ponto!

A linha se traça a partir do ponto cego
A ponta cega que apontou a direção do destino
Esse ponto era meu
Era o meu
É nosso
Dois pontos, vírgulas, frases
Uma reta é a união de vários pontos, e dois pontos, o que são?

Sei que costuro um dia como se fosse um remendo
Sei que costuro uma hora como se fosse um ponto-cruz
E já diziam serem pontos chave...
Ponto cego, ponto cruz, dois pontos, duas linhas
Paralelos, retos, juntos e opostos
Dentro como pontos de referência distantes em campo de visão (limitado)
Pontos em postes de luz e sombra, dívidas kármicas?

Oh, ponto!
Aponte-me um ponto fixo ou móvel
Mas um ponto
Ou uma ponte
Ou uma parte
Ou um ponto, novamente
Um ponto amorfo, ponto final.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

De pérolas, um pouco do fundo do mar

Veste-me com seus impuros véus
Veste-me
Com sua essência branca, eu embevecido entre tantas e tantas fadas
Veste-me, pois sou tão pequeno e tão frágil
Caibo numa palma de uma mão
Tão pequeno e imperfeito...
E tão sério

Sou tão nu quanto uma pérola
Explodo do ventre da vida como saindo do fundo do mar
Veste-me, pois me sinto seu e todo inteiro
Desagregado, desconstruído, amargurado
Nu
Como tu.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Dois lados

Eram duas idéias girando no torvelinho dos meus pensamentos
Eram duas fases, transitórias, esquisitas...
O lado esquerdo, briguento
O lado direito, atento
O meio, surdo, cego, mudo e incapaz
E o centro, tudo, ocupava o espaço de uma agulha num palheiro

Penso que sempre me esqueço dessas duas fases, e passo a viver intermitentes momentos de agora
Esqueço passados, méritos, crises
E o que fica é essa sensação de bem-estar
Assim, lembro que tudo é uma questão de ponto de vista.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Venha que o que vem...

Parece tão fácil, é um dia perfeito. É um dia perfeito comigo perfeita. Não tenho erros, evito dúvidas. Assim, sou perfeita por um caminho perfeito. Os sonhos são fracos, os ouvidos cansam rápido, penso que sou surda ou muda ou cega, tudo de uma vez. E os dias são iguais. Tão iguais que parecem nuvens, voláteis, cheias de um branco inconstante. Um branco. Perfeito. Branco perfeito. Já entreguei tudo o que tinha, a casa, o carro, os homens, as mulheres. Tenho tudo nas mãos e não tenho nada, tenho uma idéia para ótimas empreitadas. E nada. Tudo é tão perfeito que não vou mexer em nada.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Lapso

Talvez Verônica não fosse completamente louca. Às vezes lhe sopravam ventos de lucidez, como brisas calmas que varrem as folhas secas. Talvez não fosse, de fato, uma lucidez irônica, ou simples lapsos de consciência do estado em que se encontrava, mas sim uma extremidade do sinuoso caminho que costumava percorrer, uma curva, uma esquina em que dois pensamentos poderiam se equilibrar e formar apenas um.

Verde

Para entender o mar não basta saber por onde vão suas correntes, não basta medir sua profundidade, não basta conhecer a quantidade de peixes que nele habitam. Não basta apenas sentir o gosto do sal, observar sua imensidão...é preciso se deixar levar pela correnteza, é preciso navegar.

Para entender o mar, talvez, seja até preciso se afogar.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Fogo

Queria escrever coisas do fundo da minha alma
Ora, minha alma é um poço sem fundo de sentimentos, emoções e silêncios
Um vazio cheio de ar, de fogo e de paixão
Um poço raso e profundo, eu mentalizo a minha alma.

A alma mentalizada:
Fiz um caminho para o meu espírito
Através dele posso voltar e avançar a qualquer momento
Na direção do infinito
Na digressão de movimento

Eu, combusta e infitina
Faço uma força descomunal para trazer-me de volta à terra
Sentimental
Carnal

Não tão descomunal
Assim sendo, posso seguir vivendo.

domingo, 24 de julho de 2011

Capuccino pequeno com Thoreau

Privacidade é uma palavra engraçada: primeiro, tentamos nos esconder para fazer o que todo mundo faz, independente de raça, credo ou nacionalidade. Depois tentamos nos libertar da privacidade, admitindo que todos fazem o que todos fazem e, inclusive, fazendo o que todos fazem na frente dos outros, o que acaba se tornando um ultraje segundo o grau de degradação moral que o ato represente em cada sociedade. Ou um símbolo de libertação. Dá na mesma.
Logo mais, reinvindicamos com toda a nossa força o direito de termos assegurada nossa privacidade para fazermos o que, já tendo admitido ser um ato comum a todos os seres humanos, portanto, não mais tão vergonhoso, torna-se um dever a ser cumprido por cada pessoa civilizada e inteligente. Nessa última instância não importa tanto a degradação moral, mas sim o costume de termos o costume de fazermos o que todo mundo faz, escondidos. Pqp.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Fé cega

A falha reside na camada estritamente sensorial:
Qual é o ponto exato, o mesmo ponto em que nos tornamos a encontrar, sãos e salvos?
Aquilo em que mergulho para de ti absorver o que há de mais sensato, é a minha falha.
Falho eu, ao crer na minha própria fé
Minha fé não falha, farfalha como o vento na cortina arregaçada logo cedo
E se eu mesma procuro abrir a janela, é como se o sol tapasse as estrelas de propósito, para me provocar. Tão bonitas, essas estrelas!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Pedrinha

- Qual é o começo do tropeço?
- O começo do tropeço é o passo.
- E o passo, como fica, depois do tropeço?
- O passo, depois do tropeço, é trôpego!
- Trôpego, tropeço, parece tudo tão sem nexo...
- Torço, você bem que pode fazer um novo começo, então...
- O tropeço começa quando o passo termina, o tropeço é um passo trôpego, a pedra nada tem a ver com o tropeço, então?
- A pedra já estava lá, bem tranquila, a olhar os passos que vinham contentes, sem suspeitarem que num tropeço passariam a ser trôpegos.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Para Callado, novamente, com o amor de uma sobrinha

Tento fixar ocasionalmente o momento em que tudo derrete. Caem pingos de imagens e vertigens, captar é raptar, fixar, mentir - minto para não esquecer e acabo esquecendo que minto sempre - ao fim de tudo sempre resta a manhã, ou o acaso, talvez. Dorme arco-íris, acorda-se em flor, no vazio espiritual da mente, ou mentecapta interrupção de um rumo qualquer e verdadeiro, aquele cheio em que me senti plena de consciência e cognição, vaso cheio, vaso vazio, ou cheio. Ainda assim não me encontrava meio-a-meio, ou me encontrava e não sabia. Entrementes, oro à luz do dia para que me ampare no desequilíbrio da força, um dia tombando, outra hora de novo, caio no vazio extremo da inexatidão. Dão a isto o nome de medo. Dão a isto o nome de espaço. Dão a isto o nome de solidão. Dêem a isto o nome que queiram, eu chamo de meigo carinho de insensatez desmesurada, fome de espírito, fome de paixão. Chamem a quem quiserem, eu me chamo obsessão. Chamem a quem quiserem, eu chamarei minha razão. Tanto temo por não sentir mais nada que chamam a isso depressão. Eu mesmo chamo ocaso de energia vulcânica, prisioneira de extintos sentimentos zodiacais, míticos arroubos minimais...e Sônia bem que avisou, todos querem te prender, ser donos do teu poder...agora você é quem cuida da tua selva, dos teus índios e das tuas bestas, foge com a noite que ela cuida da trilha.

Banana flambada com Kafka

Barata 1 diz:
- Tenho asas, sou feliz!
Barata 2 diz:
- Tenho antenas, sou feliz!
Homem diz:
- Odeio baratas!

domingo, 10 de julho de 2011

Olho II

Deve ser porque me procuro
Deve ser porque te quero
Assim, sem remédio
Assim, sem preparo

Me procuro e quero saber até em que ponto me acho
Me encontro
Me desfaço
Procuro o que não sei
Até onde posso chegar
Despertar
Observar

Deve ser porque te acho
Deve ser porque não te quero
De ser assim, tão perto
Tão certo

Desperto.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Botão 1 - Pressione para sumir do mapa.

Puf!

Certo?

É, deve estar tudo errado mesmo.
Lá vai meu coração: um quilômetro, dois, lá se foi
Mais alguns metros e tropeça numa artéria esticada no meio da rua
Mais duas cidades e lá vai ele, cantando alegrias do mundo
Três, quatro, quantos dias demora em chegar?
Alguém o espera, no outro canto da vida
Alguém que olha e não vê problemas
Alguém que observa e só observa
Alguém morto, um vegetal!
Deve ser isso, tá tudo errado.

domingo, 3 de julho de 2011

Leite quente com Orwell

Um embrulho no estômago. É, pode ser essa a definição para a sensação que tive ao começar a ler o fim de "Dias na Birmânia", do George Orwell. (Terá sido o final da história ou apenas a movimentação do biarticulado?) Poxa, Flory, logo tu, a cujos tormentos psicológicos eu já me acostumara e a quem eu até outorgaria certa comiseração? Será que eu sou tão romântica ao ponto de idealizar um final em que tudo sairia bem, mesmo com um mínimo de conhecimento da agilidade desmistificante e, por quê não dizer, envolvente e traiçoeira da mente do autor de "1984"? Também...não leio mais.

sábado, 2 de julho de 2011

Do feto ao fato

Eu tenho a capacidade de me permitir ser o que eu quiser
De me re-inventar, renascer das cinzas e criar um novo modo de ver a vida
Eu tenho a destreza de poder nascer, quantas vidas forem necessárias
Reviver, ressurgir e reproduzir a beleza de ser muitas e muitas vezes, dentro de uma só existência
Todo ser humano é capaz de recriar a si mesmo
Pois todos, por mais infelizes que a vida possa nos haver tornado, um dia nascemos e tivemos nosso momento de brilhar e de ver a luz.

domingo, 26 de junho de 2011

Café com Calvino

Sei que li, em algum muro, em algum cartaz, aquilo que tanto temia algum dia ler: você está lá.
É, eu sempre soubera intuitivamente que nunca havia estado aqui mesmo, mas também jamais tinha me dado conta, com tanta clareza e tão diretamente, que estava realmente lá. De fato, estar inteiramente lá implicava questões um tanto quanto incômodas, como a dúvida de se estar lá não seria igual a estar aqui e vice-versa. Porém, o que mais me chamava a atenção era o meu desejo de saber se, estando lá o tempo todo, eu poderia ter uma vaga noção de que estar lá é diferente de estar aqui, ou se, estando lá e aqui ao mesmo tempo, eu poderia dizer: estou lá. Como sempre, estando lá, nunca havia questionado se lá era lá ou aqui, mas invariavelmente tudo me parecia óbvio demais - lá, aqui, agora, depois, tudo sempre havia sido tão simples, tão homogêneo, que nem mesmo o questionamento ou a imagem que faço agora de tal quesionamento existiam como tais, posto que tudo era uma coisa só e assim seguia a minha vida, lá ou aqui, mas sem confusão nenhuma. No entanto, ao constatar que, independentemente da forma como eu via ou não o meu estado, sempre estivera "lá", um mundo de possibilidades estendeu suas raízes como uma rede de intrigas capazes de deixar qualquer um maluco. E se, pelo fato de ter estado sempre lá, como agora tudo levava a crer, estivesse atrelado a uma visão da realidade tão monótona e linear que nem mesmo a mais precisa idéia de estar aqui pudesse representar o que realmente significava estar aqui e não lá? Essas monstruosas possibilidades me enchiam ao mesmo tempo de um medo inextinguível e de uma esperança por vezes fugaz. Tudo parecia fazer sentido, ao passo que todo o meu mundo desabava feito um castelo de cartas. O que poderia fazer, agora munido dessa estranha certeza de estar lá e não aqui? Poderia eu realizar alguma manobra radical e passar a conhecer os mundos infinitos de probabilidades que estar aqui revelaria? Já não estaria experimentando, em toda minha confusão, sorver um pouco da essência de estar aqui, porém percebendo que nunca estaria nem a um passo de estar aqui, sendo que a minha visão estava inteiramente mergulhada lá e não aqui? Sei que vi, agora lúcido e plenamente consciente de minha limitada condição, que sempre estivera convencido de ser infinito e alheio a qualquer questão relacionada a estar lá ou aqui, mas que agora tudo parecia apontar para outra direção: lá. Ou aqui.

sábado, 25 de junho de 2011

Escrevo em prosa e verso raso
Escrevo em blues e troco o passo
Já não importa o que me faço
Olhemos tudo o que há em volta.

Divagações sobre um olhar

Às vezes acho que as pessoas perdem olhares. Perdem porque não sabem observar, não sabem aprofundar sentimentos, não sabem se entregar. Digo isso por mim, é claro, pois não saberia dizer se isso não fizesse parte da minha experiência. Alguns olhos sempre teimam em escapar, fugir para cantos obscuros da insanidade coletiva, talvez distantes numa presença inesperada, talvez presentes na distância bem estruturada...sei que a estratégia é sempre a fuga, escorregar para outros olhos, para outros pontos que talvez não exijam tanta profundidade, tanto esforço repetitivo. Olhar mata, pois nos fere feito agulha quando não estamos preparados. Olhar mata, olha lá no fundo da alma: o espelho às vezes reflete a luz.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Lente

Mente que te quero ausente.

Neste momento, vejo o mundo através de grossas lentes, sofro de miopia. Não qualquer miopia, mas um tipo de deficiência que pode ser comparado à surdez complacente ou à falta de noção consentida, cujos sintomas são facilmente identificáveis por quem opta desenvolver enfermidades mais socialmente aceitáveis que a gonorréia, por exemplo. Além dessa miopia prismática, sou portadora de um mal crônico e incurável, uma espécie de síndrome de Tourette emocional. Os principais sintomas (consegui identificá-los assim que comecei a me perceber como parte de um mundo) são: torrentes de sinceridade facilmente confundidas com grosseria gratuita; desleixo amoroso seguido de descaso; mal estar social e, em casos graves, fobia social e desprezo por outros seres humanos; senso de controle geralmente associado a total indiferença a problemas alheios, sendo que nenhum dos estudos já feitos conseguiu comprovar a real relação entre esses dois atributos. O interessante é que os sintomas da miopia prismática (facilidade em manter relações, visão totalmente otimista da realidade, interesse em fatores externos, suficientes cuidado e atenção dedicados a cada frase proferida) têm a incrível capacidade de anular quase que por completo os da neurodeficiência Tourettiana, de mais difícil compreensão, por isso, mais extenuantes.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Presente

Achei que estava lá
Estava aqui
Em todo lugar
Estava com mãos e pés atados
Achando nada com nada e mais um bocado
Estava morta
Estava
Morri e renasci algumas vezes, em duas horas ou menos
Morri, renasci, vivi por dúzias de horas momentos de incrível sofrimento
E estou
Viva, morta
Sem nome, sem tempo
Sem preço
Sem jeito
Só eu, nem isso!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

É você

Não mais a escrita vulgar
Não mais a escrita para nós
Agora, só atos digeridos pela palavra
Só orgias frasibundas transbordando, aquele sabor azedo de contos da carochinha
e a escrita contínua...

Sanidade nunca foi meu forte
Nem poetas fizeram tanto alarde
Mas, uma curva no caminho torto da serenidade e lá está: muro intransponível da verdade, da luz, do ofuscar sombrio da claridade
Tanta certeza é esta que me afogo, me corrôo, me embriago
Me afundo no saber inoportuno, ilumino

Mais um desvio e logo o olhar
O mesmo olho fundo do espelho
Apontando aquele dedo e dizendo: é você...

Espero mesmo é uma idéia genial.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Ambivalente

Dividiu meu olho ao meio
Dividiu meu mar a um
Meu samba de vez partido
Meu ar de som comum

Um tal de amor contido
Um tom de dor sutil
Epicentros subvertidos
De pressa juvenil

Dividiu meu mar ao meio
Dividiu um olhar a um
Concentra assim, no samba
Comum, seu dom comum...

É tanto aqui que casa
Que lares de volta estou
Pressiona a minha asa
De livre pena voou

Poema, ó, perceba
Que tantos tenho de amor
Fabrico a trama plena
De canto em fios de dor

Assim, tão displicentes
Leitu-me-nescencia vil
Me lêem os inocentes
Em cacho azul-verde-anil

Fabrico, assim, novamente
Meus traços bem desiguais
De noite, condescendente
No dia, olho pra trás.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Risca

Entremeia os poros da vida como a seiva
Germina a cada passo, cada esquina
As ruas se movem como cobras no cio:
Odor - é o da infância, aquele que tanto apreciava nos postos de gasolina
As linhas dos paralelepípedos como traços de amarelinha: não pisar, pisar, não pisar...escudo contra o mundo lá fora, o inteiro mundo, lá dentro dela
Esquece as horas, esquece os medos, rabisca
Um quadro mudo na paisagem urbana
Silenciosos pisos da calçada
Silêncio...

Sem som a vida parece inerte, um eterno filme de ação, romance, suspense, aventura, ficção...andando sobre pés que não os seus, em passos plenos e ateus, pensando sabe-lá-o-que-Deus...

Formigas carregando peso para a rainha: esperam talvez um aumento, um último argumento, um derradeiro momento - que em seu sono lento derrube-lhes as chaves que abrem a porta do açucarado baú! Talvez...tudo seja uma tela, uma pintura - um bom início de boa figura...

Anda que esse traço é todo teu.

domingo, 29 de maio de 2011

Brincadeira

Os adultos devem ter inveja das crianças! Assim se explicaria o fato destas terem seus impulsos mais espontâneos esmagados pelos pais, quase que o tempo todo. Já sem esperança, sem um mínimo de criatividade e brilho, com olhos ofuscados pela poluição de pensamentos densos que abafam a existência, os que há tanto tempo estão na vida, calejados pelo fardo mortificante e pesado que esta representa, reprimem enfaticamente muitas brincadeiras alegres e saudáveis, temerosos de que os pequenos se tornem "diabinhos mal educados" ou, mais adiante, um "zé ninguém"...Ao invés de buscarmos aprender as grandes lições que as "pequenas" mentes podem nos proporcionar, tratamos de encher as crianças - ou os "recipientes ocos" - com nossas próprias crenças bizarras, com toda nossa carga de medos e necessidades inúteis. As crianças deveriam ter medo dos pais. Ui!

Roda-viva

Me encontro novamente no centro do labirinto. Perdi há tempos as migalhas que me guiariam de volta para a saída; não os pássaros, mas sim o tempo e a terra comeram-nas esperando digerir as minhas certezas junto a um pouco de trigo - um pouco de passos zonzos novamente e me redemoinho em torno de árvores robustas, lentas nuvens no topo do meu infinito céu, lenta marcha, quase desistente...tantos traços iguais, tudo me leva a crer que...já estive aqui - hei-la, outra vez, minha incrível habilidade de manejar assuntos, controlar mentiras, sugerir verdades por trás das mentiras de outrora...ora, não seria tudo verdade? Alguém me disse que "a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer", e eu diria mais - a mentira é uma verdade mal contada. Os anos estão a favor do labirinto. Eu, contra o tempo que gastei me perdendo neste eterno emaranhado, esperando os primeiros fios brancos indicarem ao menos a direção do envelhecimento.

Já me disseram, certa vez, que "a mentira social é o grande problema da humanidade".
Eu digo mais, a sociedade mentirosa é fruto da des-humanidade.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Segue o rumo do sumo

O submundo da abrangência racional - essa tão maniqueísta forma de ver o mundo - divide tudo entre bem e mal. Bom ou mau. Certo ou errado.

E eu, como fico?

Tentando classificar tudo, tentando justificar os meus atos sob um ponto de vista que seja, no mínimo, eloquente, ao ponto de que um observador qualquer, ou participante dessa enorme discussão da vida, possa compreender a minha própria existência! Isso é, no mínimo, contraditório...

Bem, vamos passar a outro ponto: A contradição é o que impulsiona a racionalidade. Sem isso, não haveria mudanças, não haveria novas hipóteses, teorias, comprovações, discussões, construções, conflitos, guerras, tratados, acordos ou paz - sim, porque esta mesma é uma consequência da guerra, com todos os seus atributos brandos e abstratos. Sem a contradição nem mesmo eu poderia obter o que gosto de chamar de "supra sumo da trama": o foco atual (que já passou, diga-se de passagem) de tudo aquilo que posso abarcar em meus pensamentos, a condensação de temas, a linha de raciocínio que nunca me leva a lugar nenhum. Sem a minha contradição, não tenho possibilidade de compreender outras contradições. Mesmo assim, sinto que sou perfeita em minha paradoxalidade.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Passos

Necessária és tu, oh tristeza!
Para que eu não me afogue no mar da tranquilidade:

Espelho da incerteza, deixe-me beber na fonte do esquecimento, alimente-me de esperanças inexatas; Eu enxergo, no plano das minhas contradições, o amor profundo, o ódio e as consequencias - assim, saio das trevas para entrar nas trevas, para entrar nas trevas e atravessar a luz.

O fio da meada deve ter um começo, então:

Caço palavras como um cão ao gato, plenamente movida por desejos insatisfeitos de exprimir, esculpir à faca a face nua da vida, em sulcos, ocos, rasgos, traços na pele, na tua pele profunda e opaca, os olhos profundos e opacos...apagam-se brilhos no pensamento, passam as palavras, tanto passam nas horas que ainda existem, nos caminhos da minha corrente elétrica, para tuas correntes, para nossas cadeias, câmaras frigoríficas em que enterramos nossas memórias, frias de gelo, de rochas, de pedras horríveis...assim encantam-me, as palavras, novamente. Encantam-me e criança brinco, com tristes risos e falsos encontros, quem sou eu que me encontra no outro lado do dia, daquele outro lado em que deixo estarem minhas angústias e dores, daquele outro lado, aquela sombra, aquela velha...aquilo. Calço palavras, calço, pois estas me servem até certo ponto, até que meus passos se cansem de falar, até que apenas andem e me carreguem para o infinito (isto...isto não pode ser dito!), o que é o conhecimento?

domingo, 22 de maio de 2011

Cala a boca, mente!

Você já explodiu, agora fica quieta!

Vãs

Duas horas da manhã: Abrindo a geladeira novamente pra descobrir o que me falta. Uma letra, mais uma, outra...o que são todas essas palavras saltando aos meus olhos e ouvidos? O que são todas essas cores multiplicando sabores entre toques macios e reverentes de um frio tenebroso de pré-inverno? O que são todos esses tons de pele, essas escavações multidisciplinares e multilinguísticas entre cadernos e desenhos de rabiscos telefônicos, esperando ansiosamente um futuro promissor em alguma brochura ou contra-capa falida num sebo em Maringá? Quais, (Ó DEEEEUS!) QUAAAAIS sílabas realmente mereceriam uma gama de reconhecimentos substanciais entre estantes empoeiradas e cabeceiras empapadas de sonhos, medos, pânicos/psicoses (quaisquer estados atípicos da mente, estados quaisquer de não-produtividade não-remunerada e mal-sucedida entre homens de negócio e apostadores de bilhar), deixando-me, assim, sem nada mais para chamar de meu ou nada de que pudesse me orgulhar? (Afinal, não seriam as palavras propriedade do universo, a partir do momento em que saem de mim? Eu as libertei ou elas a mim libertam?) Assim atravessam, mudas, sem avisar, os espectros da minha inexplorada visão psíquica, saltam aos borbotões e pulam para fora do meu domínio, saem para passear e reinvindicam direitos como se eu não lhes tivesse fornecido o primeiro sopro de vida...ingratas, mal sabem que sem a minha ignorância não seriam mais que peso morto no carpet, peso pena para os poucos musgos empedernidos de tantas horas de mar - insossas, é isso o que seriam. Palavrinhas, palavrãs, tão soltas e tão limpinhas. Sujam-me a testa com seus gestos obscenos de tudo conter, de tudo saber e de nada serem. Têm poder, essas perversas, e o que eu sei não pode ser dito por culpa de suas traquinagens inverídicas - insolúveis, diga-se de passagem, aproveitando a verborragia. Greve aos motes, aos temas, às birras. Greve a todas as formas de vida que exigem uma explicação. Greve às austeras palavrinhas, palavrãs.

Saltem, então, para a vida, palavrãs! Fujam, antes que eu feche a geladeira.

O medo (ou o fim da procura)

A dúvida é o que me move
A angústia é o que me sustenta
A prática é o que me auxilia
Teorizo, não sem antes teorizar sobre a teoria:

Poderia ficar horas aqui escrevendo sobre nada. Ainda assim, seria uma fuga de tudo aquilo sobre o que realmente gostaria de escrever ou pensar. Há milhares de formas de fugir, escapar de tudo o que nos assusta em nós mesmos: a possibilidade de termos o mundo em nossas mãos, de fazermos o inimaginável e de sermos incríveis é terrível, já que perdemos tanto tempo da nossa vida procurando a coisa certa em lugares errados. Quando achamos a coisa certa, estamos tão calejados pelo caminho tortuoso que não acreditamos que o verdadeiro tesouro estava o tempo todo...em nós mesmos! Ah, e que frustração...o interessante é que, ao encontrarmos o tal tesouro, teoricamente nos libertaríamos da necessidade de procurá-lo. No entanto, será que seu verdadeiro valor não estaria, enfim...na procura?

O medo é o da busca interna.

sábado, 21 de maio de 2011

Ser ou não ser

O centro da questão
Está no cerne do pensamento
Está no fundo da alma
Que é a lama flutuante do universo
A onda que espalha o fluído
Mole, etérico, vazio...cheio de si
E tudo conflui para o centro
Que é tudo e é nada
E é descobrir...como se nada fosse mais importante que saber
Que nada sei, que nada tenho, que nada sinto
Que nada sou.
Corações de zinco, coração de ferro...
Ouro, prata, chumbo
Noites se passam e mais um coração esvazia a alma
Pulsa trêmula carne músculo viçoso
Manda mais uma leva de sangue e lágrimas aos meus capilares...vai!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Aí, tudo azul..

23:11
Turbilhão de sons da cidade
A cidade emudece
Minha cabeça segue
Com sentidos aguçados - tato, olfato, visão
Ônibus lotado, agitação (não sabem, ó Deus, que sempre há outra condução?)
Silêncios...acaba de chegar mais um anjo
A maternidade borbulha de novas amizades - mas carrego, é claro, seu filho novo!

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Mãe detenta:
Tenta esquecer a dor de ter seu filho acorrentado às prisões da vida.

sábado, 14 de maio de 2011

Não sei o que fiz, sei que voei...
Quando aterrissei, lá estava eu: de asas quebradas e pés descalços.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Da ilusão do ego*

Existe uma tendência quase religiosa na nossa sociedade de achar que o ego deve ser suprimido a qualquer custo. O lema "somos todos iguais", aos tropeços e derrapadas, virou sinônimo de "eu não devo ser nada nem ninguém, pois não sou melhor que ninguém". Deveríamos nos perguntar se esse "não sou ninguém" não é a própria fonte de onde surge a inveja - ela não surgiu do nada. Até aonde o "ser ninguém" implica realmente em humildade? Não nos teria feito Deus à sua imagem e semelhança para que simplesmente desenvolvêssemos todas as nossas potencialidades, por conseguinte, fôssemos realmente como Ele? Então, a idéia de Deus como uma entidade de puro amor, porém separada de nós mesmos, implica em sermos inferiores, ou seja, a cada demonstração de potencialidade brilhante e maravilhosa, nós mesmos nos sabotamos, achando que dessa maneira estamos sendo "humildes". Não podemos ser melhores que ninguém, e esse "não poder" traz consigo um sentimento de derrota ao observarmos o mundo e a nossa impotência frente aos seus problemas, pois não podemos ser nada mesmo, o que nos isenta também de responsabilidade. Junto a essa impotência, surge a sensação de estar infringindo uma lei divina a cada vez que nos percebemos capazes de muita coisa. Ora, o contrário não seria mais verossímil? Se Deus, ou a entidade de puro amor separada de nós, que nos criou e nos devota grande benevolência, nos tivesse feito apenas para seu bel-prazer, apenas para ficar olhando e dizendo "vejo como são bons, mas nunca serão tão bons quanto eu", talvez fôssemos apenas bonecos sem capacidade, dirigidos por uma instância suprema que nos controla. Eu digo: amor não é controle. Veja bem, não estou supondo que o que constrói a inveja é a própria humildade, mas sim nosso apego disfarçado de humildade. Somos apegados a tudo, às coisas, às pessoas, às situações e até ao sofrimento, e esse "sofrer" está em praticamente tudo à nossa volta. Quando vemos alguém interessante e de muita capacidade, instintivamente pensamos "Como se atreve a fazer isso, a ser tão bom? A SER MELHOR DO QUE EU!", e esse desejo reprimido de ser melhor e de superar seus próprios limites gera a inveja. Por trás desse pensamento instintivo há uma profunda construção moral, segundo a qual devemos ser todos pequenos e não chamar muita atenção. O que estou defendendo é que o pleno desenvolvimento das nossas potencialidades verdadeiras, grandes e maravilhosas, gera a real humildade. A humildade que é nada mais do que amor. Amor, pois assim desenvolvidos, somos capazes também de ajudar, pois todos podem se libertar do medo e da impotência, libertando-se das amarras morais que prendem a conceitos falsos e tão arraigados. A isso chamei de "ilusão do ego" - o medo de ser maravilhoso.

*Leia-se "ego" como aquilo a que o senso comum atribui qualidades negativas, num sentido muito parecido ao conceito ordinário de "egoísmo". Não estudei psicanálise, desconheço os conceitos científicos e originais da palavra. Utilizei-a apenas por adaptar-se melhor ao que percebo, na medida do que posso compreender. Minha intenção não é desenvolver um estudo acadêmico sobre isso, apenas quis registrar algumas impressões.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A privada

O que escrevo ainda não foi contaminado por minha tentativa quase lúcida de racionalizar tudo. Minhas mentes ainda não conseguiram oprimir o fluxo intermitente de idéias discrepantes - canalhas - que ainda se apoderam de todas as minhas ações quando não estou dormindo. Quando durmo também penso muito, mas raciocino um pouco menos. Outro dia estava no banheiro me preparando para tomar banho enquanto reclamava do tanto de roupas que tinha colocado para dormir, inclusive daquelas meinhas listradas coloridas com dedinhos. De repente, a privada saiu do lugar como se possuísse rodinhas e eu, com um leve chute mais que dinâmico, a recoloquei em seu devido posto com a habilidade de quem faz isso todos os dias. Antes que eu pudesse questionar a probabilidade efetiva de uma privada possuir rodinhas, não apenas acordei, mas descobri que estava atrasada. Assim, chego sempre à conclusão de que não preciso entender tudo, nem o que eu mesma escrevo. Você por acaso saberia fazer uma folha de papel? (Lembre-se, cortar a árvore é o princípio!) A especialização do pensamento é um atributo da modernidade, mas e o pensamento criativo? No que eu penso, então? Eu digo: não penso em nada.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Muda

Quem não me entende é porque nunca parou pra me conhecer...

::A poesia é minha fuga::
Onde deixo todos os meus rastros de inescrúpulos e cegueiras
Onde a servidão se torna companheira
E aquilo que eu pensava antes é só mais uma coleção:

Tenho medo, como tudo
Pois tenho medo de mim
De me ver, de me saber
De sentir que tão humano sou divino
E isso muda
Dá medo
E muda

A mudança muda:
O sol me ilumina, me aquece
E meu medo vira dúvida
Que não muda, não muda
Fica ali, no fundo do poço da viagem gruda
A mudança não muda
Muda?

Prensa, assim, a linguagem com a língua muda
O espírito com a carne aguda
O ouvido com a nota surda
O benigno com a imagem chula.

Paz

Desconheço a minha vontade
Tenho saudade
E a culpa me ocupa

Aqui, precisamos das trevas
É preciso descer
Ao fundo, fundo
Aquele fundo imundo
Aquele fundo
O ser
Desatar os nós internos, crescer
Desatar
Crescer

O que eu sei ser certo não é o ser certo
Pois o que aprendi não vale mais, mudou tudo
Certo, sei, que não está nada certo
Pois não deixo a certeza criar cimento

Aura, minha, deixa em paz
Já tive, e persigo novamente meus passos na areia
Andando em círculos
Tecendo a teia...
Digo a mim: evolua
Digo a mim: diminua
E a marcha segue - em frente!

Passo adiante, me deixa pra trás
Eu criança, eu lembrança
Fico ali a contar os passos na areia
Sozinha, só
Com par ímpar
E a alma em paz.

Começo

O importante é não aparecer demais, não chamar muita atenção
Ser comum tornou-se tão normal e tão certo
Que a moral esmaga o amor
E o mal embriaga a dor

Agora, ser feliz é ser bonito
Sacrifico meu futuro para vivenciar meu passado
Este, que de glórias e louros se esvai em camadas de esquecimento
E que não importa, a não ser para aqueles a quem desagrada

Repito, a moral tornou-se escudo
Sou escravo da rima e do canudo
De tudo
Fim.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Agora vou brilhar como me mandaram
Brilhar naquilo tudo que eu queria
O amor que antes me mataria
Agora me esvazia
Agora me alumia
Me anuncia

Eu renuncio, sem saber renunciar
A tudo o que de mim se apodera
Para então renunciar
à minha própria vida
Em favor da liberdade do espírito
Do amor que tanto sinto e que sinto
Do amor que tanto sinto
Sem palavras
Sem mais
Amor

domingo, 24 de abril de 2011

O vestido pronto, as flores, o padre. Tudo pronto. A mãe chorando na platéia, o vestido salmão pronto. Os amigos prontos, famintos, prontos. Quando estaria pronta, se não era para ela aquilo tudo?

- Os outros fazem por nós o que deveríamos estar fazendo. Como deixamos isso acontecer?

O noivo olhou, pensou, chorou...era isso mesmo, eles não queriam estar ali, fazendo parte daquilo tudo.
Dou um passo, o último passo se perdeu na espiral do tempo. E o que eu digo agora já não é mais o que digo, pois quando digo já disse, já foi. Agora não é, já foi. O atraso no tempo explícito música. A música foi. A música. É o que já foi. O que será já foi. Sou amor. Amor já foi. Sigo aqui. Não isto, não, o que não pode ser descrito. O que é. Que não pode ser dito. Amor. Também não é. Já foi.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Quem pede sempre pede. Quem dá sempre tem.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

À procura...

"Mas eu posso dizer: “eu não encontro, eu não sinto, não acontece”. Eu não tenho que esperar uma epifania. Eu tenho que saber que, se eu for fiel e se fizer isso sem nenhuma motivação exterior, mas porque é o único caminho para mim, é a próxima tradução da minha realização e busca de sentido, e se eu fizer isto com uma consciência crítica de que estes, os que atravessam os portais interiores, são os seres que podem realmente brilhar e salvar os outros, não com as mãos nem com a boca mas com o teu campo vibratório, então tu voltas, sentas-te outra vez e esperas, na fidelidade, na autoridade interior, na força e na segurança, porque depois o “outro” vai andar à vossa volta a tentar minar a vossa segurança até que o indivíduo colapse na sua fé e na construção da fibra óptica e do grande canal interno e retorne à consciência do senso comum."

André Louro de Almeida - Disponível em http://lys-eter.blogspot.com/2006/11/procura-do-cristo-interno.html

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Querer

Se te quero como quem não quer condenar
É porque mil vezes te espero sem nada alcançar
Se te quero como quem finge não querer
É porque quero mais que o infinito que olhos podem ver
E quero
Pois que só espero.

domingo, 17 de abril de 2011

Mar

Há que se apaixonar
Sentir-se respirar
Deixar brotar
E fenecer

Há o que não se vai
Sem fim sem palavras para amar
Deixar-se ser estar
E morrer

Há que se aproximar
Esquecer o belo e o horizonte
E inspirar
O dom de conhecer

Há que se calar
Se encontrar no fundo mar
Afogar
E se perder.

sábado, 16 de abril de 2011

Poemática

Nosso tema se desenrola, abusa do tempo que lhe demos
Abstrata-me de erros:
Temos agora, mais que uma vida, um segundo de silêncios
Possíveis até, divisíveis
Em rima, prosa e canção

Nosso tino nos observa, sempre de longe e de perto
Penteando os sonhos mudos, apagando o que era certo
Temos agora, mais que a estrada, um caminho no deserto
E o senso costura sempre
À lembrança um defeito

Peça-me tudo
Que a tua presença deixa de ser ausente
Quando de olhos respiro o profundo
Desafogando a minha mente.

domingo, 27 de março de 2011

O que eu não entendo

Passa por mim, pelos poros
Passa pelas mãos, escorre tântrico
Abraça o tempo, desenlaça mundos
Integro-me de fundos negros ao ponto de cozinhar-me inteiro
Pede-me que te faço
Que farei-te de mim o mesmo maço
Ao máximo, próximo, tóxico
Se ao menos eu pudesse exprimir esse ácido
Esse todo lodo gástrico que a nós expõe-se ao clássico
Permita-me, então, que te respeite como anjo
Como anjo, que me deslava e toma sem cuidado
Como anjo, que se esvai no signo simpático (três pontos lúcidos - aqueles que não esperam, sintomáticos)
Aqueles mesmos pontos que de pronto já não esquecem, desvanecem
Na meia-frase que eu digo, eu disse, sempre!
Até que enfim, voltaram os pássaros.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O silêncio exige respeito...quem o quebrar, que também saiba aceitá-lo!

quinta-feira, 24 de março de 2011

Não seja vítima da vida!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Muito barulho para encobrir meus pensamentos
Muita farinha pra pouco bolo.

domingo, 20 de março de 2011

Vento

Pincel vagabundo que me sopra no ouvido o vento imundo
Não escutarei mais a voz da razão
Esta me leva sempre para onde não deveria ir.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Silva Jardim

Eu queria morar numa casa com jardim:
Um daqueles bem secretos, cheios de plantas e mistérios, com uma clareira bem no centro, marcando o local de pouso dos Ets.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Ao que balança mas não cai

Amado mundo, oh, mundo!
Tu que me paristes em pleno caos, em meio a tanta desordem e aflição
Que me cuidastes e me alimentas
E compreendes sem exceção

Tanto peco contra ti e, mesmo assim,
Sabes que faço por não resistir às fraquezas e encantos
Penso ter tudo sob meu domínio, creio ser onipotente
Peno por não controlar a tua força
E por negar a ordem suprema, muito acima da minha ínfima vontade mesquinha

Tudo tenho a aprender e tudo me ensinas
És puro saber por onde o homem caminha
Tudo em ti posso ver e, no entanto
Ignoro e volto a sofrer, pobreza minha...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Antítese

Passar pelas trevas para conhecer a luz
Sentir o medo para ter a coragem
Cair do alto para ser humilde
E levar uma surra para agradecer

Tenho que saber qual é a minha fraqueza
Para nela me fortalecer

Tenho que chegar ao sono profundo
Para abrir os olhos e poder ver

Ouvir, para poder aprender...

Tenho que sentir a culpa
Para poder perdoar

Tenho que perder
Para valorizar

E tudo se constrói conforme o tempo mandar.

Infinito

Olho para o universo como a um espelho. Nele vejo estrelas, pontos do meu desespero por desintegração - cosmos, luzes, artérias do tempo. Olho para meus pequenos pensamentos e imagino como seria não existir, ainda seria existência? E ser tudo, o que é que não sou, afinal? Penso em livros, penso em filmes...nada corresponde às verdadeiras respostas, pois estas não estão ao alcance da minha limitada linguagem. Ainda que eu memorizasse a ordem natural de todas coisas, não seria mais que esforço racional. Ainda que eu dominasse a alquimia de transformar chumbo em ouro, não faria nada muito diferente do que transformar papel em cinzas. Ainda que eu tentasse explicar esse sentimento de ser, não usaria mais que retórica.

Olho para dentro, para o microscópico infinito de tudo, e tudo o que vejo é o nada, o espaço vazio cheio de Deus.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Festa da noite

Esta noite eu sonhei
Quebrando todos os paradigmas, todas as regras
Eu sonhei

Acordando, sonhei que acordava
Num passado, sonhando
Acordada, amando

Sonhei com uma beleza, muitas gentes
Todos lúcidos fantásticos sonâmbulos
Sonhei com tudo o que não podia ter sido sonhado
Sonhei com sonhos, todos os que um dia a humanidade sonhou ter

Sonhei com nus, com pêlos, com âmagos
Sonhei Jesus, a cruz e incômodos
Sonhei tanto que quando acordei
Já estava velha e sem sonhos
Sonhando baixo e pensando
Se de sonhar valeram-me os anos.

sábado, 5 de março de 2011

É difícil admitir que somos responsáveis por tudo o que nos acontece
Que ninguém nos deve nada
E que ninguém pode nos fazer mal.

No exato momento em que...

Minutos, instantes
Matéria pulsante
Tinta do tempo parada na estante
Quadros, fotos de um passado alucinante
Moldura hesitante
Instante
Em que me guardo para o próximo quadrante
Mato-me em suicídio penetrante
Plêiade dos mortos mais antigos e atuantes
Ergo-me às cinzas dos funéreos palestrantes
Avante

Quase sofro
Por estar neste vazio retumbante
O momento excruciante
O triunfo culminante
Gozo do ser estar amante

Berrante
Do vórtice que prefiro extenuante
Da minha cara num febril refrigerante
Do mesmo montante
Em que presente, futuro, tudo dantes
Inconstantes
Ajustam-se aos bravos visitantes
Meus conterrâneos e seres exultantes
Instantes.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O que ser

São apenas palavras, fúteis...palavras
Se confundo deve ser por que no fundo não quero dizer nada
Assim, confusa, exposta ao crivo do mundo, evito submeter-me às impressões que os outros têm de mim
Eu sei quem eu sou
Não sei dizer quem eu sou
Sou (mesmo que dizendo-o não seja mais quem eu sou, pois dizer ser não quer dizer o real significado de ser)
A insuportável profundidade do ser não é expressa em palavras, limitadas

Esqueço sempre o cheiro dos verbetes
Esqueço, mas a idéia prima persiste
Esqueça-me
Ou esqueça a idéia que faz de mim
Pois não é nada disso que você está pensando ser.

Passado

Ainda lembro vagamente
Um momento, talvez importante
Da vida que não mais me leva
Um instante, por quê não?
Do passado remanescente, cinzas que fiz queimar
Temos o tempo, não precisamos de dinheiro
Da arte nos virá a eternidade.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Além

Nove olhos
Para mim
Nada além de bocas
Para tu
Treze luas
Encontrar
O que me chama luz
Ao fogo
O que me purifica
Trazer
Novamente o meu ser divino.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Agosto

Deve ser o gosto ébrio
De ver ser o teu gesto hábil
Novamente como o impulso natalício
O insensato crime incondenável

Deve ser o teu desejo
O beijo entre tantos ensejos
Atávicos braços desgraçados
Contos, berros, penduricalhos

É o gosto puro, da fonte embriagada
É brio de nossos anos passos
É sobre o sabor que deixam coléricos troços
Ou destroços que conduzo até a chegada

É pano, deve ser um pouco
O rasgo rouco remido de abusos
Grito manso da boca apagada
Gasta de poucos sambas de uso

Gosto do desgosto
Gosto?
Se gota a gota me faço
Gruta de mim caverna traço
Gestante, no instante
De gostos novos no espaço.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Aumentar

Ao passo que te encontro
Encontro em mim a mais suave abstração
De tudo complicar
De tudo aumentar
Aaaaaaaaaaaaaaaaumente
Cresce uma envídia grave
Uma oblívia saudade
Novamente
Uma ausente insolidão
O que certo o que errar
A menos que eu saiba bem te amar
Não permita que eu colha frutos da distância
Nem do pesar

Aumente a luz
Aumente a paz
Aumente
Que as coisas boas estão guardadas para o grandíssimo final
O fim de tudo
Das coisas lindas e belas
A eternidade
O começo
O meio
Agora
Janelas abertas para hoje
Amigos amores
Cansados estamos e esperamos
Ninguém só, pois, todos com Deus.

Maríndia

Morri, só nasci
Vivi
O aborto da natureza
O derradeiro derrame
Nojo de olhar
Olho em volta e vejo mar
Líquido viscoso plâncton
Comem os peixes e ficam as espinhas
Engasga gato ou galinha
Animo-me ao mar seguir
No verde verdívido do mar elo
Onda em mim cai onda em mim sai
Ao término da jornada
Saberei que não sou nada.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

É bode

Comprei um bode
Comprei
Sem saber para que serviria
Comprei
Um bode
Comprei
Fiz uma lista das coisas que poderíamos fazer juntos, eu, o bode
Pompas, gestos, jogos, boinas
Cafés, gelados, tapumes
Eu, o bode
Todos enciumados da nossa desenvoltura
Andando por aí como dois preparados de macumba
Como bode?
Pode!
Na XV o mímico imitou o bode
No MON as telas zombaram do bode
No Largo os bêbados brindaram ao bode
Na Tiradentes o mendigo pediu troco pro bode
Só no shopping, aí, me ofereceram um perfume.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Tem esse jeito de enfrentar as situações
Esse de enganar a si mesmo
Esse de fugir

Ah, esse de buscar as soluções nelas mesmas!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Raios que os partam!
Não tenho mais tempo para essa partida, desisto de conquistar o mundo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A volta

Cada minuto é uma escolha, escolha divina
Cada minuto é uma vida pra gente levar
Foi me voltando pro nada que aprendi a tudo amar
Foi navegando no escuro que a luz me fez brilhar

Na volta que o mundo dá encontrei esse meu lugar

Amor é o princípio de tudo, no peito a certeza
De que não vim pra esse mundo só pra respirar
Tenho os meus olhos na terra e pra lá eu vou voltar
Mas antes disso eu canto que é pra Deus poder falar

Na volta que o mundo dá encontrei esse meu lugar

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Borracheira

Aquela massa sonora indistinta: todas aquelas vozes que falavam e não diziam nada, aqueles ruídos, todos, eram a sinfonia que embalava a cena de júbilo em que eu havia adentrado (sem querer, como protagonista - também sem querer - se bem que todo não-querer esconde no fundo um desejo profundo e a repulsa poderia ser apenas um reflexo do apego instintivo e pouco atraente). Ali fiquei, ouvindo todos aqueles sons e tentando abrir os caminhos saudáveis na minha mente para compreender o que se passava (sim, por que minha mente às vezes parece um quarto cheio de gavetas bagunçadas, onde posso encontrar qualquer coisa que eu queira com certa dose de paciência passiva) - ouvia apenas e, quando a vibração fosse muito forte, teria por direito também cantar um pouco (quem sabe?)

- Onde você está neste momento?
- Em algum lugar tentando lembrar o que foi que esqueci de lembrar
- Ah, e quanto à história?
- A história faz parte do passado, o enfeite de uma estante (assim, meio bamba mesmo).

Castelo

E assim nos tornamos cada vez mais descrentes
Cada vez mais quadrados
Cada vez mais azedos

Encaixa-nos um sistema que nada tem a ver conosco
Um modelo que não o nosso
Em que não se crê no olhar e nas palavras boas
Em que não se acredita no amor
Em que julgamos os outros sem ao menos procurar em nós o que há de errado...

Acredita-se no dinheiro
Na máquina
Nos juros e dividendos
Nas pílulas e nos livros
Nos macacos e na evolução
No trabalho e na escravidão

Tenho que mergulhar fundo
No caos e na destruição
Bem fundo, lá no fundo
Nas profundezas plantar as minhas raízes
Armar daí o meu castelo
E chegar ao topo como a cereja do bolo

Quem me lê não me sabe
Mas tenho tudo o que preciso.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Eva e Adão

América foi descoberta por mim
Lâmpada, inventada por mim
ABS, travas elétricas, freio de mão
Eu, tudo eu que fiz
Descascador de pinhão, tomada, ELETRICIDADE
Caneta multicores
Copo de requeijão
Inventei inventei inventei
Inveja, garfo, faca
Saco de boxe, pentelhos, pressão
Amigos, deboche, multidão
Água de côco, coqueiro, plantação
Inventei tanta coisa
Menos um jeito de acabar com a solidão.

Afeto

Derrama-me no suco do asfalto
No sulco dos teus olhos fãs
Dos meus oblívios desejos

Alivia-me o peso, senhora, de tudo meu
Estes dentes que não me pertencem
Este corpo que não mereço deixar e que não mais meu se não nosso.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Centro

Quero não ter olhado
O que já me queima
Ácido dos outros, cítrico
Minha vida nosso assunto
É assento meu, essa coisa
Coloca o cinto
Que ainda tem muito corredor estreito.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Aperta mente

Sou eu quem te controla
Repetes repetes repetes repetes e ficas falando sozinha
Deste lado deste lado deste lado deste lado
Passa passa passa passa
Repete repete
Alivia...

Agora sim, substrato de matéria pensante
Sois vós quem me controla ou contrata meus serviços
Admite-me como utilitário corpo de massa de manobra
Externaliza-me nas coisinhas pequenas
Aquelas coisinhas que só nós duas conhecemos
Aquelas palavrinhas mágicas repetidas repetidas repetidas
Repete repete repete repete
Aqui dentro
Observo a tudo de longe
Participando do espetáculo de enlouquecer.
Através do olhar é possível ver a profundidade da alma humana.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Temporal

Tenho jogado fora tudo o que de belo
Atirado ao mar tudo o que de grande
E que de hábil
Jogo contigo todas as cartas
As lembranças, as angústias
Tudo o que de fácil se tornou viver em últimos tempos
Perdido a rodo tudo o que de macio falar
Calado tudo o que de palavras
Mais tenras...palavras
Jogo ao tempo este que de breve
Breves anos, logas datas

E logo por quê me encontro articulando as mesmas sílabas?
Jogo os dois lados, lado escuro e clara idade
Apenas por jogar
Jogar ao tempo, novamente
Que o tempo traz a moldura do meu agora

É como olhar de uma janela
A tempestade que de lá fora.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Abre-lo

Ainda me dá o tempo de deter a poesia
Toda aquela grande feiosa máxima de que "somos o que devemos ser"
Amigo-me ao tempo do tempo no próximo tanto de horas vívidas
Ao esperar mais minutos do que deveria para fazer o que não queria
E ser o que talvez não seria
A líria no resto do fundo do rastro
Sobra, de invídia, o que diz-me de teu sono lento ao vento
Livra, de insídia, acredito que o peso de ter nos olhos alento.

Hemisfério

Eu e minha grandiloquência
Passeamos pelo mar infinito da vontade
Aos pés do que não pode ser dito de verdade
Às mãos dadas ao crime de insurgir-se pela metade
Ao leio, digo
Que persigo novamente meu novo ser antigo
Que sou sempre os mesmos dígitos nocivos
Espalhando, espalhando...

Já não me basta ouvir, tenho que falar
Dizer que me tropeço não me conheço ao avesso
Espesso
Ao preço do passo caminho da ponte dos ossos
Um lado gira outro lado roda viva no círculo ancho e grosso
De um lado ao outro como se estes não fossem feitos do mesmo sangue
Volta e revolta, atira e atrai, postula e rotula
Penso, penso...logo desisto!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Este blog se autodestruirá em 9...

sábado, 15 de janeiro de 2011

Casa

O que toca
Aos pés do ouvido o chão alcança
O teto
Da coisa
À força
Do medo

Tocam
Os passos os laços da sobriedade
Os saltos da ansiedade
Aos calos das mãos dos dedos marejam
As folhas dos caules dos brincos desbeijam
Depredam-se
Pisamonte
Pisante
Aprisionan-te

Deixa o beijo e sufoca na imensidão.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Picadeiro

Não desisto
E assisto de camarote ao circo
Não é que me chamaram pra fazer parte dele?
A boca do leão sempre foi o meu lugar favorito.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Bem a vagarinho
De maravilha
Em cor
Em sede
Pede me impede
Ronda mais um sonho
Volta mais um passo
Pula mais sangue
Sente mais pulso
Firme firme firmeza
Aqui deixa
À prova
Mais uma ronda
Mais uma volta
E volta
Ao ponto exato
Do nó
Da madeira
Que desato.

Alto

Tão ponto
Tão instante
Que não me reconheço
Que todas as partes de mim já estão aqui, presentes de alma aguada
Que tudo se derrete e absorve
Que a escada chega no mar e sobe e não requer esforço
Que estas direções estas coisas certas tão certas e tão assustadoras
Entreolham em todas as direções sentidos mudos em alto e bom som
Que mudam mudam e voltam ao mais alto
O centro acima, o nada, o agora, o sempre.
Estou na tela da pintura do universo
Os pensamentos são meus pincéis
A tinta é tudo quanto faço e deixo de fazer.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Espelho

Tragicomédia dos pensamentos toscos
Afundou-se mais uma vez? Pois tome esta bóia - é feita dos meus cabelos

Sempre me apego ao que não tenho
Sempre os defeitos na perfeição
Sempre
Pois encontro nada mais que uma imagem de mim mesma na alma alheia
Estampada feito uma Mônica mal desenhada em muro escolar.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Novela

Como um sussurro mugido
Ela
Pássara mansa no abismo mudo
Pula
Lança
O olho
Descansa

Corre outra vez, atrás daquilo que ela, não tendo certeza de ser orgânico ou reciclável, mandara direto para o triturador - maldita coleta seletiva!

Abre-se para o novo, mas o novo não chega
O novo fechou os olhos
Como fecham-se as esfinges ao não terem descobertos seus enigmas
O novo se cala
Pois assim fazem os mais sábios
Calam
E consentem
Com o que a vida lhes oferece
O suficiente
Para alimentar uma poesia
Uma nova fantasia
Ou uma barriga vazia.