sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Além

Nove olhos
Para mim
Nada além de bocas
Para tu
Treze luas
Encontrar
O que me chama luz
Ao fogo
O que me purifica
Trazer
Novamente o meu ser divino.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Agosto

Deve ser o gosto ébrio
De ver ser o teu gesto hábil
Novamente como o impulso natalício
O insensato crime incondenável

Deve ser o teu desejo
O beijo entre tantos ensejos
Atávicos braços desgraçados
Contos, berros, penduricalhos

É o gosto puro, da fonte embriagada
É brio de nossos anos passos
É sobre o sabor que deixam coléricos troços
Ou destroços que conduzo até a chegada

É pano, deve ser um pouco
O rasgo rouco remido de abusos
Grito manso da boca apagada
Gasta de poucos sambas de uso

Gosto do desgosto
Gosto?
Se gota a gota me faço
Gruta de mim caverna traço
Gestante, no instante
De gostos novos no espaço.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Aumentar

Ao passo que te encontro
Encontro em mim a mais suave abstração
De tudo complicar
De tudo aumentar
Aaaaaaaaaaaaaaaaumente
Cresce uma envídia grave
Uma oblívia saudade
Novamente
Uma ausente insolidão
O que certo o que errar
A menos que eu saiba bem te amar
Não permita que eu colha frutos da distância
Nem do pesar

Aumente a luz
Aumente a paz
Aumente
Que as coisas boas estão guardadas para o grandíssimo final
O fim de tudo
Das coisas lindas e belas
A eternidade
O começo
O meio
Agora
Janelas abertas para hoje
Amigos amores
Cansados estamos e esperamos
Ninguém só, pois, todos com Deus.

Maríndia

Morri, só nasci
Vivi
O aborto da natureza
O derradeiro derrame
Nojo de olhar
Olho em volta e vejo mar
Líquido viscoso plâncton
Comem os peixes e ficam as espinhas
Engasga gato ou galinha
Animo-me ao mar seguir
No verde verdívido do mar elo
Onda em mim cai onda em mim sai
Ao término da jornada
Saberei que não sou nada.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

É bode

Comprei um bode
Comprei
Sem saber para que serviria
Comprei
Um bode
Comprei
Fiz uma lista das coisas que poderíamos fazer juntos, eu, o bode
Pompas, gestos, jogos, boinas
Cafés, gelados, tapumes
Eu, o bode
Todos enciumados da nossa desenvoltura
Andando por aí como dois preparados de macumba
Como bode?
Pode!
Na XV o mímico imitou o bode
No MON as telas zombaram do bode
No Largo os bêbados brindaram ao bode
Na Tiradentes o mendigo pediu troco pro bode
Só no shopping, aí, me ofereceram um perfume.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Tem esse jeito de enfrentar as situações
Esse de enganar a si mesmo
Esse de fugir

Ah, esse de buscar as soluções nelas mesmas!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Raios que os partam!
Não tenho mais tempo para essa partida, desisto de conquistar o mundo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A volta

Cada minuto é uma escolha, escolha divina
Cada minuto é uma vida pra gente levar
Foi me voltando pro nada que aprendi a tudo amar
Foi navegando no escuro que a luz me fez brilhar

Na volta que o mundo dá encontrei esse meu lugar

Amor é o princípio de tudo, no peito a certeza
De que não vim pra esse mundo só pra respirar
Tenho os meus olhos na terra e pra lá eu vou voltar
Mas antes disso eu canto que é pra Deus poder falar

Na volta que o mundo dá encontrei esse meu lugar

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Borracheira

Aquela massa sonora indistinta: todas aquelas vozes que falavam e não diziam nada, aqueles ruídos, todos, eram a sinfonia que embalava a cena de júbilo em que eu havia adentrado (sem querer, como protagonista - também sem querer - se bem que todo não-querer esconde no fundo um desejo profundo e a repulsa poderia ser apenas um reflexo do apego instintivo e pouco atraente). Ali fiquei, ouvindo todos aqueles sons e tentando abrir os caminhos saudáveis na minha mente para compreender o que se passava (sim, por que minha mente às vezes parece um quarto cheio de gavetas bagunçadas, onde posso encontrar qualquer coisa que eu queira com certa dose de paciência passiva) - ouvia apenas e, quando a vibração fosse muito forte, teria por direito também cantar um pouco (quem sabe?)

- Onde você está neste momento?
- Em algum lugar tentando lembrar o que foi que esqueci de lembrar
- Ah, e quanto à história?
- A história faz parte do passado, o enfeite de uma estante (assim, meio bamba mesmo).

Castelo

E assim nos tornamos cada vez mais descrentes
Cada vez mais quadrados
Cada vez mais azedos

Encaixa-nos um sistema que nada tem a ver conosco
Um modelo que não o nosso
Em que não se crê no olhar e nas palavras boas
Em que não se acredita no amor
Em que julgamos os outros sem ao menos procurar em nós o que há de errado...

Acredita-se no dinheiro
Na máquina
Nos juros e dividendos
Nas pílulas e nos livros
Nos macacos e na evolução
No trabalho e na escravidão

Tenho que mergulhar fundo
No caos e na destruição
Bem fundo, lá no fundo
Nas profundezas plantar as minhas raízes
Armar daí o meu castelo
E chegar ao topo como a cereja do bolo

Quem me lê não me sabe
Mas tenho tudo o que preciso.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Eva e Adão

América foi descoberta por mim
Lâmpada, inventada por mim
ABS, travas elétricas, freio de mão
Eu, tudo eu que fiz
Descascador de pinhão, tomada, ELETRICIDADE
Caneta multicores
Copo de requeijão
Inventei inventei inventei
Inveja, garfo, faca
Saco de boxe, pentelhos, pressão
Amigos, deboche, multidão
Água de côco, coqueiro, plantação
Inventei tanta coisa
Menos um jeito de acabar com a solidão.

Afeto

Derrama-me no suco do asfalto
No sulco dos teus olhos fãs
Dos meus oblívios desejos

Alivia-me o peso, senhora, de tudo meu
Estes dentes que não me pertencem
Este corpo que não mereço deixar e que não mais meu se não nosso.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Centro

Quero não ter olhado
O que já me queima
Ácido dos outros, cítrico
Minha vida nosso assunto
É assento meu, essa coisa
Coloca o cinto
Que ainda tem muito corredor estreito.