domingo, 29 de maio de 2011

Brincadeira

Os adultos devem ter inveja das crianças! Assim se explicaria o fato destas terem seus impulsos mais espontâneos esmagados pelos pais, quase que o tempo todo. Já sem esperança, sem um mínimo de criatividade e brilho, com olhos ofuscados pela poluição de pensamentos densos que abafam a existência, os que há tanto tempo estão na vida, calejados pelo fardo mortificante e pesado que esta representa, reprimem enfaticamente muitas brincadeiras alegres e saudáveis, temerosos de que os pequenos se tornem "diabinhos mal educados" ou, mais adiante, um "zé ninguém"...Ao invés de buscarmos aprender as grandes lições que as "pequenas" mentes podem nos proporcionar, tratamos de encher as crianças - ou os "recipientes ocos" - com nossas próprias crenças bizarras, com toda nossa carga de medos e necessidades inúteis. As crianças deveriam ter medo dos pais. Ui!

Roda-viva

Me encontro novamente no centro do labirinto. Perdi há tempos as migalhas que me guiariam de volta para a saída; não os pássaros, mas sim o tempo e a terra comeram-nas esperando digerir as minhas certezas junto a um pouco de trigo - um pouco de passos zonzos novamente e me redemoinho em torno de árvores robustas, lentas nuvens no topo do meu infinito céu, lenta marcha, quase desistente...tantos traços iguais, tudo me leva a crer que...já estive aqui - hei-la, outra vez, minha incrível habilidade de manejar assuntos, controlar mentiras, sugerir verdades por trás das mentiras de outrora...ora, não seria tudo verdade? Alguém me disse que "a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer", e eu diria mais - a mentira é uma verdade mal contada. Os anos estão a favor do labirinto. Eu, contra o tempo que gastei me perdendo neste eterno emaranhado, esperando os primeiros fios brancos indicarem ao menos a direção do envelhecimento.

Já me disseram, certa vez, que "a mentira social é o grande problema da humanidade".
Eu digo mais, a sociedade mentirosa é fruto da des-humanidade.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Segue o rumo do sumo

O submundo da abrangência racional - essa tão maniqueísta forma de ver o mundo - divide tudo entre bem e mal. Bom ou mau. Certo ou errado.

E eu, como fico?

Tentando classificar tudo, tentando justificar os meus atos sob um ponto de vista que seja, no mínimo, eloquente, ao ponto de que um observador qualquer, ou participante dessa enorme discussão da vida, possa compreender a minha própria existência! Isso é, no mínimo, contraditório...

Bem, vamos passar a outro ponto: A contradição é o que impulsiona a racionalidade. Sem isso, não haveria mudanças, não haveria novas hipóteses, teorias, comprovações, discussões, construções, conflitos, guerras, tratados, acordos ou paz - sim, porque esta mesma é uma consequência da guerra, com todos os seus atributos brandos e abstratos. Sem a contradição nem mesmo eu poderia obter o que gosto de chamar de "supra sumo da trama": o foco atual (que já passou, diga-se de passagem) de tudo aquilo que posso abarcar em meus pensamentos, a condensação de temas, a linha de raciocínio que nunca me leva a lugar nenhum. Sem a minha contradição, não tenho possibilidade de compreender outras contradições. Mesmo assim, sinto que sou perfeita em minha paradoxalidade.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Passos

Necessária és tu, oh tristeza!
Para que eu não me afogue no mar da tranquilidade:

Espelho da incerteza, deixe-me beber na fonte do esquecimento, alimente-me de esperanças inexatas; Eu enxergo, no plano das minhas contradições, o amor profundo, o ódio e as consequencias - assim, saio das trevas para entrar nas trevas, para entrar nas trevas e atravessar a luz.

O fio da meada deve ter um começo, então:

Caço palavras como um cão ao gato, plenamente movida por desejos insatisfeitos de exprimir, esculpir à faca a face nua da vida, em sulcos, ocos, rasgos, traços na pele, na tua pele profunda e opaca, os olhos profundos e opacos...apagam-se brilhos no pensamento, passam as palavras, tanto passam nas horas que ainda existem, nos caminhos da minha corrente elétrica, para tuas correntes, para nossas cadeias, câmaras frigoríficas em que enterramos nossas memórias, frias de gelo, de rochas, de pedras horríveis...assim encantam-me, as palavras, novamente. Encantam-me e criança brinco, com tristes risos e falsos encontros, quem sou eu que me encontra no outro lado do dia, daquele outro lado em que deixo estarem minhas angústias e dores, daquele outro lado, aquela sombra, aquela velha...aquilo. Calço palavras, calço, pois estas me servem até certo ponto, até que meus passos se cansem de falar, até que apenas andem e me carreguem para o infinito (isto...isto não pode ser dito!), o que é o conhecimento?

domingo, 22 de maio de 2011

Cala a boca, mente!

Você já explodiu, agora fica quieta!

Vãs

Duas horas da manhã: Abrindo a geladeira novamente pra descobrir o que me falta. Uma letra, mais uma, outra...o que são todas essas palavras saltando aos meus olhos e ouvidos? O que são todas essas cores multiplicando sabores entre toques macios e reverentes de um frio tenebroso de pré-inverno? O que são todos esses tons de pele, essas escavações multidisciplinares e multilinguísticas entre cadernos e desenhos de rabiscos telefônicos, esperando ansiosamente um futuro promissor em alguma brochura ou contra-capa falida num sebo em Maringá? Quais, (Ó DEEEEUS!) QUAAAAIS sílabas realmente mereceriam uma gama de reconhecimentos substanciais entre estantes empoeiradas e cabeceiras empapadas de sonhos, medos, pânicos/psicoses (quaisquer estados atípicos da mente, estados quaisquer de não-produtividade não-remunerada e mal-sucedida entre homens de negócio e apostadores de bilhar), deixando-me, assim, sem nada mais para chamar de meu ou nada de que pudesse me orgulhar? (Afinal, não seriam as palavras propriedade do universo, a partir do momento em que saem de mim? Eu as libertei ou elas a mim libertam?) Assim atravessam, mudas, sem avisar, os espectros da minha inexplorada visão psíquica, saltam aos borbotões e pulam para fora do meu domínio, saem para passear e reinvindicam direitos como se eu não lhes tivesse fornecido o primeiro sopro de vida...ingratas, mal sabem que sem a minha ignorância não seriam mais que peso morto no carpet, peso pena para os poucos musgos empedernidos de tantas horas de mar - insossas, é isso o que seriam. Palavrinhas, palavrãs, tão soltas e tão limpinhas. Sujam-me a testa com seus gestos obscenos de tudo conter, de tudo saber e de nada serem. Têm poder, essas perversas, e o que eu sei não pode ser dito por culpa de suas traquinagens inverídicas - insolúveis, diga-se de passagem, aproveitando a verborragia. Greve aos motes, aos temas, às birras. Greve a todas as formas de vida que exigem uma explicação. Greve às austeras palavrinhas, palavrãs.

Saltem, então, para a vida, palavrãs! Fujam, antes que eu feche a geladeira.

O medo (ou o fim da procura)

A dúvida é o que me move
A angústia é o que me sustenta
A prática é o que me auxilia
Teorizo, não sem antes teorizar sobre a teoria:

Poderia ficar horas aqui escrevendo sobre nada. Ainda assim, seria uma fuga de tudo aquilo sobre o que realmente gostaria de escrever ou pensar. Há milhares de formas de fugir, escapar de tudo o que nos assusta em nós mesmos: a possibilidade de termos o mundo em nossas mãos, de fazermos o inimaginável e de sermos incríveis é terrível, já que perdemos tanto tempo da nossa vida procurando a coisa certa em lugares errados. Quando achamos a coisa certa, estamos tão calejados pelo caminho tortuoso que não acreditamos que o verdadeiro tesouro estava o tempo todo...em nós mesmos! Ah, e que frustração...o interessante é que, ao encontrarmos o tal tesouro, teoricamente nos libertaríamos da necessidade de procurá-lo. No entanto, será que seu verdadeiro valor não estaria, enfim...na procura?

O medo é o da busca interna.

sábado, 21 de maio de 2011

Ser ou não ser

O centro da questão
Está no cerne do pensamento
Está no fundo da alma
Que é a lama flutuante do universo
A onda que espalha o fluído
Mole, etérico, vazio...cheio de si
E tudo conflui para o centro
Que é tudo e é nada
E é descobrir...como se nada fosse mais importante que saber
Que nada sei, que nada tenho, que nada sinto
Que nada sou.
Corações de zinco, coração de ferro...
Ouro, prata, chumbo
Noites se passam e mais um coração esvazia a alma
Pulsa trêmula carne músculo viçoso
Manda mais uma leva de sangue e lágrimas aos meus capilares...vai!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Aí, tudo azul..

23:11
Turbilhão de sons da cidade
A cidade emudece
Minha cabeça segue
Com sentidos aguçados - tato, olfato, visão
Ônibus lotado, agitação (não sabem, ó Deus, que sempre há outra condução?)
Silêncios...acaba de chegar mais um anjo
A maternidade borbulha de novas amizades - mas carrego, é claro, seu filho novo!

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Mãe detenta:
Tenta esquecer a dor de ter seu filho acorrentado às prisões da vida.

sábado, 14 de maio de 2011

Não sei o que fiz, sei que voei...
Quando aterrissei, lá estava eu: de asas quebradas e pés descalços.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Da ilusão do ego*

Existe uma tendência quase religiosa na nossa sociedade de achar que o ego deve ser suprimido a qualquer custo. O lema "somos todos iguais", aos tropeços e derrapadas, virou sinônimo de "eu não devo ser nada nem ninguém, pois não sou melhor que ninguém". Deveríamos nos perguntar se esse "não sou ninguém" não é a própria fonte de onde surge a inveja - ela não surgiu do nada. Até aonde o "ser ninguém" implica realmente em humildade? Não nos teria feito Deus à sua imagem e semelhança para que simplesmente desenvolvêssemos todas as nossas potencialidades, por conseguinte, fôssemos realmente como Ele? Então, a idéia de Deus como uma entidade de puro amor, porém separada de nós mesmos, implica em sermos inferiores, ou seja, a cada demonstração de potencialidade brilhante e maravilhosa, nós mesmos nos sabotamos, achando que dessa maneira estamos sendo "humildes". Não podemos ser melhores que ninguém, e esse "não poder" traz consigo um sentimento de derrota ao observarmos o mundo e a nossa impotência frente aos seus problemas, pois não podemos ser nada mesmo, o que nos isenta também de responsabilidade. Junto a essa impotência, surge a sensação de estar infringindo uma lei divina a cada vez que nos percebemos capazes de muita coisa. Ora, o contrário não seria mais verossímil? Se Deus, ou a entidade de puro amor separada de nós, que nos criou e nos devota grande benevolência, nos tivesse feito apenas para seu bel-prazer, apenas para ficar olhando e dizendo "vejo como são bons, mas nunca serão tão bons quanto eu", talvez fôssemos apenas bonecos sem capacidade, dirigidos por uma instância suprema que nos controla. Eu digo: amor não é controle. Veja bem, não estou supondo que o que constrói a inveja é a própria humildade, mas sim nosso apego disfarçado de humildade. Somos apegados a tudo, às coisas, às pessoas, às situações e até ao sofrimento, e esse "sofrer" está em praticamente tudo à nossa volta. Quando vemos alguém interessante e de muita capacidade, instintivamente pensamos "Como se atreve a fazer isso, a ser tão bom? A SER MELHOR DO QUE EU!", e esse desejo reprimido de ser melhor e de superar seus próprios limites gera a inveja. Por trás desse pensamento instintivo há uma profunda construção moral, segundo a qual devemos ser todos pequenos e não chamar muita atenção. O que estou defendendo é que o pleno desenvolvimento das nossas potencialidades verdadeiras, grandes e maravilhosas, gera a real humildade. A humildade que é nada mais do que amor. Amor, pois assim desenvolvidos, somos capazes também de ajudar, pois todos podem se libertar do medo e da impotência, libertando-se das amarras morais que prendem a conceitos falsos e tão arraigados. A isso chamei de "ilusão do ego" - o medo de ser maravilhoso.

*Leia-se "ego" como aquilo a que o senso comum atribui qualidades negativas, num sentido muito parecido ao conceito ordinário de "egoísmo". Não estudei psicanálise, desconheço os conceitos científicos e originais da palavra. Utilizei-a apenas por adaptar-se melhor ao que percebo, na medida do que posso compreender. Minha intenção não é desenvolver um estudo acadêmico sobre isso, apenas quis registrar algumas impressões.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A privada

O que escrevo ainda não foi contaminado por minha tentativa quase lúcida de racionalizar tudo. Minhas mentes ainda não conseguiram oprimir o fluxo intermitente de idéias discrepantes - canalhas - que ainda se apoderam de todas as minhas ações quando não estou dormindo. Quando durmo também penso muito, mas raciocino um pouco menos. Outro dia estava no banheiro me preparando para tomar banho enquanto reclamava do tanto de roupas que tinha colocado para dormir, inclusive daquelas meinhas listradas coloridas com dedinhos. De repente, a privada saiu do lugar como se possuísse rodinhas e eu, com um leve chute mais que dinâmico, a recoloquei em seu devido posto com a habilidade de quem faz isso todos os dias. Antes que eu pudesse questionar a probabilidade efetiva de uma privada possuir rodinhas, não apenas acordei, mas descobri que estava atrasada. Assim, chego sempre à conclusão de que não preciso entender tudo, nem o que eu mesma escrevo. Você por acaso saberia fazer uma folha de papel? (Lembre-se, cortar a árvore é o princípio!) A especialização do pensamento é um atributo da modernidade, mas e o pensamento criativo? No que eu penso, então? Eu digo: não penso em nada.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Muda

Quem não me entende é porque nunca parou pra me conhecer...

::A poesia é minha fuga::
Onde deixo todos os meus rastros de inescrúpulos e cegueiras
Onde a servidão se torna companheira
E aquilo que eu pensava antes é só mais uma coleção:

Tenho medo, como tudo
Pois tenho medo de mim
De me ver, de me saber
De sentir que tão humano sou divino
E isso muda
Dá medo
E muda

A mudança muda:
O sol me ilumina, me aquece
E meu medo vira dúvida
Que não muda, não muda
Fica ali, no fundo do poço da viagem gruda
A mudança não muda
Muda?

Prensa, assim, a linguagem com a língua muda
O espírito com a carne aguda
O ouvido com a nota surda
O benigno com a imagem chula.

Paz

Desconheço a minha vontade
Tenho saudade
E a culpa me ocupa

Aqui, precisamos das trevas
É preciso descer
Ao fundo, fundo
Aquele fundo imundo
Aquele fundo
O ser
Desatar os nós internos, crescer
Desatar
Crescer

O que eu sei ser certo não é o ser certo
Pois o que aprendi não vale mais, mudou tudo
Certo, sei, que não está nada certo
Pois não deixo a certeza criar cimento

Aura, minha, deixa em paz
Já tive, e persigo novamente meus passos na areia
Andando em círculos
Tecendo a teia...
Digo a mim: evolua
Digo a mim: diminua
E a marcha segue - em frente!

Passo adiante, me deixa pra trás
Eu criança, eu lembrança
Fico ali a contar os passos na areia
Sozinha, só
Com par ímpar
E a alma em paz.

Começo

O importante é não aparecer demais, não chamar muita atenção
Ser comum tornou-se tão normal e tão certo
Que a moral esmaga o amor
E o mal embriaga a dor

Agora, ser feliz é ser bonito
Sacrifico meu futuro para vivenciar meu passado
Este, que de glórias e louros se esvai em camadas de esquecimento
E que não importa, a não ser para aqueles a quem desagrada

Repito, a moral tornou-se escudo
Sou escravo da rima e do canudo
De tudo
Fim.