sexta-feira, 6 de maio de 2011

Da ilusão do ego*

Existe uma tendência quase religiosa na nossa sociedade de achar que o ego deve ser suprimido a qualquer custo. O lema "somos todos iguais", aos tropeços e derrapadas, virou sinônimo de "eu não devo ser nada nem ninguém, pois não sou melhor que ninguém". Deveríamos nos perguntar se esse "não sou ninguém" não é a própria fonte de onde surge a inveja - ela não surgiu do nada. Até aonde o "ser ninguém" implica realmente em humildade? Não nos teria feito Deus à sua imagem e semelhança para que simplesmente desenvolvêssemos todas as nossas potencialidades, por conseguinte, fôssemos realmente como Ele? Então, a idéia de Deus como uma entidade de puro amor, porém separada de nós mesmos, implica em sermos inferiores, ou seja, a cada demonstração de potencialidade brilhante e maravilhosa, nós mesmos nos sabotamos, achando que dessa maneira estamos sendo "humildes". Não podemos ser melhores que ninguém, e esse "não poder" traz consigo um sentimento de derrota ao observarmos o mundo e a nossa impotência frente aos seus problemas, pois não podemos ser nada mesmo, o que nos isenta também de responsabilidade. Junto a essa impotência, surge a sensação de estar infringindo uma lei divina a cada vez que nos percebemos capazes de muita coisa. Ora, o contrário não seria mais verossímil? Se Deus, ou a entidade de puro amor separada de nós, que nos criou e nos devota grande benevolência, nos tivesse feito apenas para seu bel-prazer, apenas para ficar olhando e dizendo "vejo como são bons, mas nunca serão tão bons quanto eu", talvez fôssemos apenas bonecos sem capacidade, dirigidos por uma instância suprema que nos controla. Eu digo: amor não é controle. Veja bem, não estou supondo que o que constrói a inveja é a própria humildade, mas sim nosso apego disfarçado de humildade. Somos apegados a tudo, às coisas, às pessoas, às situações e até ao sofrimento, e esse "sofrer" está em praticamente tudo à nossa volta. Quando vemos alguém interessante e de muita capacidade, instintivamente pensamos "Como se atreve a fazer isso, a ser tão bom? A SER MELHOR DO QUE EU!", e esse desejo reprimido de ser melhor e de superar seus próprios limites gera a inveja. Por trás desse pensamento instintivo há uma profunda construção moral, segundo a qual devemos ser todos pequenos e não chamar muita atenção. O que estou defendendo é que o pleno desenvolvimento das nossas potencialidades verdadeiras, grandes e maravilhosas, gera a real humildade. A humildade que é nada mais do que amor. Amor, pois assim desenvolvidos, somos capazes também de ajudar, pois todos podem se libertar do medo e da impotência, libertando-se das amarras morais que prendem a conceitos falsos e tão arraigados. A isso chamei de "ilusão do ego" - o medo de ser maravilhoso.

*Leia-se "ego" como aquilo a que o senso comum atribui qualidades negativas, num sentido muito parecido ao conceito ordinário de "egoísmo". Não estudei psicanálise, desconheço os conceitos científicos e originais da palavra. Utilizei-a apenas por adaptar-se melhor ao que percebo, na medida do que posso compreender. Minha intenção não é desenvolver um estudo acadêmico sobre isso, apenas quis registrar algumas impressões.

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