domingo, 26 de junho de 2011

Café com Calvino

Sei que li, em algum muro, em algum cartaz, aquilo que tanto temia algum dia ler: você está lá.
É, eu sempre soubera intuitivamente que nunca havia estado aqui mesmo, mas também jamais tinha me dado conta, com tanta clareza e tão diretamente, que estava realmente lá. De fato, estar inteiramente lá implicava questões um tanto quanto incômodas, como a dúvida de se estar lá não seria igual a estar aqui e vice-versa. Porém, o que mais me chamava a atenção era o meu desejo de saber se, estando lá o tempo todo, eu poderia ter uma vaga noção de que estar lá é diferente de estar aqui, ou se, estando lá e aqui ao mesmo tempo, eu poderia dizer: estou lá. Como sempre, estando lá, nunca havia questionado se lá era lá ou aqui, mas invariavelmente tudo me parecia óbvio demais - lá, aqui, agora, depois, tudo sempre havia sido tão simples, tão homogêneo, que nem mesmo o questionamento ou a imagem que faço agora de tal quesionamento existiam como tais, posto que tudo era uma coisa só e assim seguia a minha vida, lá ou aqui, mas sem confusão nenhuma. No entanto, ao constatar que, independentemente da forma como eu via ou não o meu estado, sempre estivera "lá", um mundo de possibilidades estendeu suas raízes como uma rede de intrigas capazes de deixar qualquer um maluco. E se, pelo fato de ter estado sempre lá, como agora tudo levava a crer, estivesse atrelado a uma visão da realidade tão monótona e linear que nem mesmo a mais precisa idéia de estar aqui pudesse representar o que realmente significava estar aqui e não lá? Essas monstruosas possibilidades me enchiam ao mesmo tempo de um medo inextinguível e de uma esperança por vezes fugaz. Tudo parecia fazer sentido, ao passo que todo o meu mundo desabava feito um castelo de cartas. O que poderia fazer, agora munido dessa estranha certeza de estar lá e não aqui? Poderia eu realizar alguma manobra radical e passar a conhecer os mundos infinitos de probabilidades que estar aqui revelaria? Já não estaria experimentando, em toda minha confusão, sorver um pouco da essência de estar aqui, porém percebendo que nunca estaria nem a um passo de estar aqui, sendo que a minha visão estava inteiramente mergulhada lá e não aqui? Sei que vi, agora lúcido e plenamente consciente de minha limitada condição, que sempre estivera convencido de ser infinito e alheio a qualquer questão relacionada a estar lá ou aqui, mas que agora tudo parecia apontar para outra direção: lá. Ou aqui.

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