domingo, 24 de julho de 2011

Capuccino pequeno com Thoreau

Privacidade é uma palavra engraçada: primeiro, tentamos nos esconder para fazer o que todo mundo faz, independente de raça, credo ou nacionalidade. Depois tentamos nos libertar da privacidade, admitindo que todos fazem o que todos fazem e, inclusive, fazendo o que todos fazem na frente dos outros, o que acaba se tornando um ultraje segundo o grau de degradação moral que o ato represente em cada sociedade. Ou um símbolo de libertação. Dá na mesma.
Logo mais, reinvindicamos com toda a nossa força o direito de termos assegurada nossa privacidade para fazermos o que, já tendo admitido ser um ato comum a todos os seres humanos, portanto, não mais tão vergonhoso, torna-se um dever a ser cumprido por cada pessoa civilizada e inteligente. Nessa última instância não importa tanto a degradação moral, mas sim o costume de termos o costume de fazermos o que todo mundo faz, escondidos. Pqp.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Fé cega

A falha reside na camada estritamente sensorial:
Qual é o ponto exato, o mesmo ponto em que nos tornamos a encontrar, sãos e salvos?
Aquilo em que mergulho para de ti absorver o que há de mais sensato, é a minha falha.
Falho eu, ao crer na minha própria fé
Minha fé não falha, farfalha como o vento na cortina arregaçada logo cedo
E se eu mesma procuro abrir a janela, é como se o sol tapasse as estrelas de propósito, para me provocar. Tão bonitas, essas estrelas!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Pedrinha

- Qual é o começo do tropeço?
- O começo do tropeço é o passo.
- E o passo, como fica, depois do tropeço?
- O passo, depois do tropeço, é trôpego!
- Trôpego, tropeço, parece tudo tão sem nexo...
- Torço, você bem que pode fazer um novo começo, então...
- O tropeço começa quando o passo termina, o tropeço é um passo trôpego, a pedra nada tem a ver com o tropeço, então?
- A pedra já estava lá, bem tranquila, a olhar os passos que vinham contentes, sem suspeitarem que num tropeço passariam a ser trôpegos.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Para Callado, novamente, com o amor de uma sobrinha

Tento fixar ocasionalmente o momento em que tudo derrete. Caem pingos de imagens e vertigens, captar é raptar, fixar, mentir - minto para não esquecer e acabo esquecendo que minto sempre - ao fim de tudo sempre resta a manhã, ou o acaso, talvez. Dorme arco-íris, acorda-se em flor, no vazio espiritual da mente, ou mentecapta interrupção de um rumo qualquer e verdadeiro, aquele cheio em que me senti plena de consciência e cognição, vaso cheio, vaso vazio, ou cheio. Ainda assim não me encontrava meio-a-meio, ou me encontrava e não sabia. Entrementes, oro à luz do dia para que me ampare no desequilíbrio da força, um dia tombando, outra hora de novo, caio no vazio extremo da inexatidão. Dão a isto o nome de medo. Dão a isto o nome de espaço. Dão a isto o nome de solidão. Dêem a isto o nome que queiram, eu chamo de meigo carinho de insensatez desmesurada, fome de espírito, fome de paixão. Chamem a quem quiserem, eu me chamo obsessão. Chamem a quem quiserem, eu chamarei minha razão. Tanto temo por não sentir mais nada que chamam a isso depressão. Eu mesmo chamo ocaso de energia vulcânica, prisioneira de extintos sentimentos zodiacais, míticos arroubos minimais...e Sônia bem que avisou, todos querem te prender, ser donos do teu poder...agora você é quem cuida da tua selva, dos teus índios e das tuas bestas, foge com a noite que ela cuida da trilha.

Banana flambada com Kafka

Barata 1 diz:
- Tenho asas, sou feliz!
Barata 2 diz:
- Tenho antenas, sou feliz!
Homem diz:
- Odeio baratas!

domingo, 10 de julho de 2011

Olho II

Deve ser porque me procuro
Deve ser porque te quero
Assim, sem remédio
Assim, sem preparo

Me procuro e quero saber até em que ponto me acho
Me encontro
Me desfaço
Procuro o que não sei
Até onde posso chegar
Despertar
Observar

Deve ser porque te acho
Deve ser porque não te quero
De ser assim, tão perto
Tão certo

Desperto.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Botão 1 - Pressione para sumir do mapa.

Puf!

Certo?

É, deve estar tudo errado mesmo.
Lá vai meu coração: um quilômetro, dois, lá se foi
Mais alguns metros e tropeça numa artéria esticada no meio da rua
Mais duas cidades e lá vai ele, cantando alegrias do mundo
Três, quatro, quantos dias demora em chegar?
Alguém o espera, no outro canto da vida
Alguém que olha e não vê problemas
Alguém que observa e só observa
Alguém morto, um vegetal!
Deve ser isso, tá tudo errado.

domingo, 3 de julho de 2011

Leite quente com Orwell

Um embrulho no estômago. É, pode ser essa a definição para a sensação que tive ao começar a ler o fim de "Dias na Birmânia", do George Orwell. (Terá sido o final da história ou apenas a movimentação do biarticulado?) Poxa, Flory, logo tu, a cujos tormentos psicológicos eu já me acostumara e a quem eu até outorgaria certa comiseração? Será que eu sou tão romântica ao ponto de idealizar um final em que tudo sairia bem, mesmo com um mínimo de conhecimento da agilidade desmistificante e, por quê não dizer, envolvente e traiçoeira da mente do autor de "1984"? Também...não leio mais.

sábado, 2 de julho de 2011

Do feto ao fato

Eu tenho a capacidade de me permitir ser o que eu quiser
De me re-inventar, renascer das cinzas e criar um novo modo de ver a vida
Eu tenho a destreza de poder nascer, quantas vidas forem necessárias
Reviver, ressurgir e reproduzir a beleza de ser muitas e muitas vezes, dentro de uma só existência
Todo ser humano é capaz de recriar a si mesmo
Pois todos, por mais infelizes que a vida possa nos haver tornado, um dia nascemos e tivemos nosso momento de brilhar e de ver a luz.