sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Pra viagem

Ar suspeito, um tanto envergonhado:
- O...Oi! Você por acaso não é aquela pessoa que se mantém viva?
- Oh, sou sim, mas...
- Poxa vida! Que maravilha encontrar gente assim! Que honra estar com uma pessoa que se mantém viva!
- Ora, imagine...
- Pois é! Hoje em dia isso é realmente raro! Você gosta sempre de se manter viva aqui?
- Oh, sim, mas...não venho muito, vivo vivendo, sabe como é...
- Ah, eu sei...vida de vivo não é fácil mesmo, né! Tem que se manter vivo, sempre, o tempo todo...poxa, isso deve cansar...
- É, um pouco...
- Nossa, mas que legal! E você veio aqui comprar esse sanduíche só ou veio viver um pouco? Como é?
- Ah, um pouco dos dois...

On the Air 1 e 1/2

Uma nuvem
NUVENZINHA!
Uma abelha
ABELHINHA!
Uma teia
TEIAZINHA!
Uma meia
MEIAZINHA!

Pego o bonde,
marco o traço
Caço a vida,
vulgo passo
Pego tudo,
tudo faço
Canso e mudo
tudo abraço.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Plexo

Te quero, te velo,
Bem junto e afastado
Um lapso de tudo
Um troço grudado

Te vejo, te escuto
Sem planos, convexo
Sem galo, sem grilo
Sem fundo, sem nexo

Te sinto, te cheiro
Me canto, contesto
Me ouço, te beiro
Por Deus, que complexo!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Fumaça

Eu aqui de luto, lutando para negar o que já foi dito:

Luto comigo, libertando-me de um quase-nada, um quase-tudo
Luto, no fundo, um respiro agudo, um ar, um quase-suspiro-mudo
Quase um desolar...

Sopro de fumo que me chega sem mais observar.

sábado, 22 de outubro de 2011

On the road III

As cores, as formas, tudo volta sem sentido. Tento perseguir uma sensação idílica, comer sons, cheirar tons, atribuir-lhes um significado lógico (perfeitamente preso a uma rotina de justificações e auto-punições bem ou mal resolvidas, vez por outra alegres descobertas de mim mesma), alterando assim alguma composição de raiz madura, encrustada, silvos e silvos de trânsito mental...teimo, outra vez, devo alcançar, devo sentir, teimo. Sempre, sempre ontem, amanhã, hoje, agora, mas sem minha presença pulsante, presente: teimo. Sigo um segundo e vem - lamber, roer - as bordas da fantasia, hordas, imagens breves. Nublado. Vem.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Um quase

Te dou um pedaço de mim:

Um tantinho, quase um naco
Pra olhares de canto, enquanto
Me derreto em confins, compacto.

domingo, 16 de outubro de 2011

Entrelinhas II

Eu, metáforas:

Leio inverso, verso rimo
Nada oculto, não entendo
Nada trago, assim começo
E persigo um negro rastro

Direta, reta
Tua rima sai discreta
E meu olho, brisa alerta
Tanto troca, nunca acerta.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Estou sem inspiração nenhuma
Não me peçam para respirar hoje.

sábado, 8 de outubro de 2011

Tino

Enquanto assisto à vida enciumada
Despedaço-me em bens destituídos de sentimentos:

Tudo o que me custa um pouco mais é sentido como uma facada, rajada
Uma peça boa pregada em panos quentes

Peço ao mundo, não me iluda uma vez mais
Sem mais, estou a me entregar

Te entrego todo meu âmago, meu ânimo, meu ácido
Pois você, vida, um dia me quis toda
E eu sem corda e sem novelo perdida em roda, em ruas pontilhadas
Me vi só tua e tão sóbria que não mais poderia amar
Ou matar

Penso-me que existo-me em focos pulsantes e luz, tão branca quanto meu tino pronto e feito, perfeito
Sem corda, demora o tempo e o corpo passa...

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O retorno II

Tenho tanto em mim que não me caibo
Não me encaixo perfeitamente em meu ser
Transbordo, a ponto de inundar uma existência a mais
Uma segunda casca, um segundo rastro
Um corpo inexistente aos olhos e ouvidos
Um corpo plástico, flácido, lúcido

Uma mola

Bambo e só, sambo
Existo em todo canto, em toda vida, em toda dor
Existo, rasgo a pele mole, sentir
Visto, amo, persisto
Tudo em um só momento e a todo instante
Durando o tempo de uma lágrima ou de um olhar
Ou de um eterno tilintar...

Glória a mim, que sou feita de osso e pensamentos
Glória aos rins, que não me deixam desaguar
Glória, mas não o bastante

Pois sou inteira descompostura e desacostumar
Lenta e dura, retorno ao meu lugar.