domingo, 25 de dezembro de 2011

Momentos

Tudo o que faço é esperar o momento certo. Espero, espero. Enquanto isso, mudo de idéia infinitas vezes, espero chegar a verdadeira vontade. Uma vontade de que tenho saudades. Um ímpeto quase indescritível de fazer as coisas sem pensar muito, só fazer. Realizar. Mas eu espero. Espero o tempo, espero a vontade. Em minha mente apenas distingo alguns pensamentos, semeados na grande eloquência de trair meus próprios devaneios, calmas indecisas...me acalmo e sigo, espero. Ao passo que chega o momento verdadeiro, traço inúmeras possibilidades de não fazê-lo ser, de criar em mim uma barreira contra o mundo, de não ter que reagir. De me entregar. Mas a quê? Entregar-me-ia a tudo quanto fosse preciso, se disso não emergissem dores, decepções, tão exatos seriam os resultados*. Assim, sem entrega, tudo é monótono, tudo é seguro. E eu seguro. Seguro a vontade, seguro o tempo, pois este não chega e eu espero.

*Contradição ou não, espero o momento em que tudo seja novo e inexato, a segurança de não conhecer os resultados de minha própria vida.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Seiva

Meu nariz sangra.

Em pleno gozo de vida e de alegria lembro que sou humana, vermelha. Ao sabor disso que me escorre, sinto o calor de meus dias correndo - íntegro e complexo, meu sangue coagula ao som do vento, uma voz sem sombra cai pesada em sono de pedra, tijolos e tijolos de orgânicas mágoas, seivas, bulbos, plantas - ação. Mas quem reflete ao som do sangue? Quem me usa? Quem me sabe? Tato contínuo, esse fluxo, essa vida. Conspiram ao meu favor as veias, conspiram músicas. Tudo vibra para que eu seja rubra. Tudo vive para que eu seja viva.

Café, Milan.

Falta um pedaço: ainda não entendeu o todo da conversa?
Ao todo, são duas novas partes do coração:
Fábricas brutas de sentimentalismo barato,
Duas novas canções abstratas,
Duas pérolas de judiação, sem alma
No mais, sente que trai a cada passo.

Um dia comum - I

Seria um dia como qualquer outro. Ela me despertaria com um beijo no rosto e eu, em estado de semi-lucidez, responderia ao beijo com um grunhido tranquilo, correspondente a um "eu te amo" ou a um "aprecio o fato de você ser minha mulher por tantos anos". Ainda na cama, recostando o travesseiro no espaldar, ela sentaria em posição confortável e acenderia o abajour, pois às 6:45 da manhã o quarto permanece sempre numa penumbra indecisa mesclada à luz que supera a barreira de grossas cortinas. Abrindo o caderno de capa de couro, procuraria o lápis que sempre mantém ao alcance, no criado-mudo e, durante os cinco minutos seguintes, dedicar-se-ia com afinco à nobre tarefa de anotar o último de seus incríveis sonhos. Sim, porque ela sonhava muito, tanto que nunca conseguia condensar em linhas de raciocínio inteligíveis todas as oníricas paisagens e situações pelas quais passava durante a noite, reconhecendo pessoas de seu convívio no escritório, atores de novelas, amigos, parentes e até mesmo eu, quase sempre dotado de algum elemento bizarro. Digo isso porque me inquietava a forma como normalmente descrevia minhas aparições em suas fantásticas histórias, ora transfigurado em coelho diabólico ou portando uma cabeça de bode, ora como o marido comum, com o detalhe de estar totalmente nu e, pasmem, eunuco. Após esmiuçar todos os detalhes de sua memória altamente treinada, sairia da cama e penduraria a camisola de seda cor-de-rosa no encosto da cadeira, iria até o banheiro e abriria o chuveiro. Ainda fria, a água lhe tocaria a pele e seus pêlos da nuca ficariam eriçados, como quando ela entra numa piscina ou no mar. Eu sempre achei engraçado os pelinhos se alterarem dessa maneira, sendo que mais de uma vez ela afirmara não ter medo das baixas temperaturas. Celina sempre me criticava por eu, palavras suas, "gravar feito uma máquina registradora" todos os detalhes efêmeros de sua intimidade. A alguns, por mais insignificantes que pudessem ser e talvez graças a uma sensualidade inconsciente, ela atribuia máxima importância, assumindo uma postura infantil ao revelá-los e, por quê não dizer, transformando-os em coisas impessoais, como se o simples ato de descrevê-los não revelasse uma face de sua personalidade. Com alguma intenção obscura que não posso compreender, eu memorizava cada informação exposta aos meus atentos ouvidos, quanto mais íntima, melhor. Em contrapartida, ela se sentia muito observada, e isso a incomodava quando esta minha "obsessão" não lhe convinha. Após o longo banho, ela abriria o box e, na ponta dos pés, apanharia a toalha da parte superior do armário, abafaria o corpo todo e, pouco a pouco, as gotas parariam de escorrer por seu corpo, a seguir viria o creme, que lhe daria um ar condizente com a fresca manhã. Seria um ótimo dia, como qualquer outro, pois os dias naqueles dias eram quadros de um mesmo rolo de filme apenas diferenciados pelos sutis movimentos da idade. Jamais alguém poderia imaginar que nossas vidas, cômicas ou dramáticas, pudessem extrapolar a tela e saltar para a realidade, tão perfeitamente imperfeitas, planejadas nos mínimos detalhes.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Milan, café.

Quero uma imagem tua e minha. Uma em que eu possa me ver como fui, como sou, como seremos daqui a um ano ou dois. Serei mais uma parte de você. À parte de mim, sou tudo o que posso ser neste exato momento, pois todos carregamos o peso da vida com uma dor, intensa, magnífica, dor de desistir de todas as outras existências, desistir de tudo o que não se manifesta agora, a dor de não ser, ou a dor de ser. Ah, como uma dor pode doer tanto e, no entanto, ser tão normal? Dor mesma, que me invade quando dôo na tua imensidão. Dor tanta, em pranto já não deságua.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Oração

Seu amor é igual ao seu ódio. Duro, massivo, possesso, possui-me como a um objeto, com a indulgência bruta de quem ensina uma criança cega a ler. Temo-me por não saber a quem correr, olhar, gritar - gritos espumas num mar de dores - ou a quem confiar minha passiva atitude de ser. Sei-me calma, sei-me dura também. Não poderia recorrer a mim mesma em busca de abrigo. Sei-me muda. Sei-me fraca. Sei-me toda. Amém.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Idade

Quase posso sentir teus intangíveis acessos, teus medos e culpas, tuas vidas todas...como me vês, como te vejo me vendo, como assisto a tudo isso com um quase irresistível desejo de me lançar às tuas águas...Tento captar um sumo de idéia, por mais trôpega que seja, para me deleitar em palavras e mais uma vez cair em desuso - Rápido, elas vão...Seria você um novo ouvinte de uma nova vida que teimo em alterar, criando e re-criando a cada novo passo um inventário massivo de minha tristeza lírica e disforme? Seria você um novo livro, aberto e criativo, nova edição, para vários contos, tragédia, epílogo-chave? Talvez...sei que tenho lido coisas lindas a seu respeito. Sei que tenho feito de tudo para ignorar. Sei que só a minha palavra já não costura remendos. E mais velha, isso tende a piorar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Batalha

I

Cigarro aceso - um olho assim de lado, me sentindo meio estranho...

Descobri que o teu cheiro não passava de fumaça:
Cinza de palha, faísca retrátil
Labareda cega, laborioso retrato
De um único beijo, um evento: teatro

-

II

Se quiser te persigo, te consigo, te rapto
Tenho dois inimigos: a platéia, o palco.