segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Café com Nietzsche

Não existe código moral que possa limitar o amor.

O amor simplesmente é. Não é altruísta nem egoísta, está muito acima de todos os conceitos.
Eu sou um emaranhado de amores estranhos, amores-entrega, amores-enganos. Sou o que sinto neste momento, e só assim posso amar. Sou, neste exato instante, a pura e sincera imagem do amor. Somos todos bipolares, e nosso amor não se define por palavra, gesto ou instante, pois ele é o presente momento e não se importa com promessas ou preceitos.

Condicionar o amor é como prender um pássaro - talvez ele cante, mas nunca alçará o intempestivo vôo de que suas asas são capazes e jamais alcançará a amplidão do céu para a qual foi feito.


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Anoitece

Adentro novamente neste sutil emaranhado de emoções controversas - aquele topo de montanha que já foi classificado como "inclassificável" entre todos os sítios semi-inacessíveis da cordilheira íntima na qual me deixo dissolver vez por outra, quando aquilo a que chamam de "sensatez" desnuda-se todinho na minha frente e resolve sair correndo aos saltos pela Alameda Cabral. Por que não, então, mergulhar de vez? (Ou escalar, segundo a perspectiva e a dramaticidade de quem lá chega). Por que não se afogar em derramamentos magmáticos de delírios constantes, em selvas de "nãos" e "talvez" e "porque-sims", em vales infinitos de ódios e pequenas brigas autênticas por autenticidade, de pequenas confusões e pequeníssimas ofensas, pretensas-ofensas. Olho pela janela e é tudo tão pequeno...olho para dentro e me vejo menor ainda...em pequenas crenças e pequenos cultos, pequenos olhares e pequenos sustos, mínimos detalhes...

Ainda assim, minha mente me sacaneia bonito e não me deixa dormir, me joga no chão e me chama de tapetinho. Esquece que sou maior do que tudo isso. Esquece...simples e languidamente...me entristece.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

E o peito, cansado de calar
Agoniza
Inflama
E se afoga.
E o olho, cansado de enxergar
Eterniza
Decora as figuras
E se fecha.
E a mente cansada de mentalizar
Metal-iza
Endurece
E chora.

Considerações de um dia normal

Hoje é um dia de reconsiderar.

Considero minhas falhas emocionais e percebo que sou feita de dilúvios de afeto e naufrágios de indiferença, cadeias de certezas e linhas tortas de insolúveis dilemas. Re-considero o que acredito serem minhas crenças e me vejo como um paraíso a nunca ser alcançado e um nobre juízo, uma ilha de só eu e meus erros certos, um deserto, ora se não? Me desgasto só, por não ser só e só ser, considerando as relações íntimas uma mera invenção sub-entendida em meu íntimo como a mais sublime regra auto-imposta perante todas as verdades falsas da farsa social. E confundo. Confusa sigo-me em quebras de parâmetros bem milimetrados, mesmo quando infringir a lei é apenas uma convenção. Ora, se não é o ladrão o melhor dos impostores? Pois quero ver quem é que me prova que a terra é de quem chegou primeiro ou de quem quer que seja, sendo que somos todos paridos do mesmo ventre e para ele retornamos assim que suspiramos pela última vez...a gota d'água já secou, estamos perdidos.

A amizade humana é uma ilusão e somos todos irmãos.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Auto-redundância resultante em pleonasmo constante
Massacres autofágicos sem norma liricamente programados para acabarem de outra cabrito.

domingo, 14 de outubro de 2012

Ah, sei lá...
Estou com raiva da vida
Mas adoro viver!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Para o intruso

O que quer que seja agora
Não pode ser o que tenha sido ou o que virá a ser.

Tenho que parar de fazer tantas relações inúteis na minha cabeça. Essa exacerbação de busca de referências  para atos simples da vida talvez fosse mais interessante se eu quisesse me dedicar a alguma atividade que exija um raciocínio matemático, uma des-abstração da inteligência focada na resolução de problemas pontuais. Talvez se eu fosse engenheira ou uma acadêmica plena. Por enquanto, cérebro, pare de fazer tantas relações. Obrigada.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Para a musa

As palavras são facas, são feras.
Menos cortam navalhas, pois ferem a carne - não o espírito
a fenda se fecha e sara, não faísca de orgulho o coração ferido
e não fagulhas fazem os ferros, o vidro moído.

Palavras são fogo, são falhas
Espalham fadadas o gozo, as vaias
as dores retorcem, e enfim nada fazem, sentadas
à espera das flores - fachadas
só fincam rumores
faladas!



Assassínio

Sim, amigos, eu matei Dionísio!

Sangrou como um cabrito - o maldito.

Lavei as mãos, fui pra casa e fiz um ovo frito.

Comi feito um perito.

E adormeci ao som de Beatles.

SIM, AMIGOS, EU MATEI DIONÍSIO!

Dentre todos os delitos, foi o meu favorito.




segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Quem conta...

Percebi que é só escrever e deixar a mente ir...não parar por nada. Quando paro, minha mente pára e desaparecem as opções de lapidação de pensamentos brutos. Os primeiros pensamentos são necessários. As selvagens impressões. A tempestade cerebral. Os primórdios do desenvolvimento intelectual, a primeiridade.

(Confesso:  fiquei com medo da floresta de incoerências que me assombra cada vez que me proponho a entrar no mundo da escrita. Talvez preguiça. Ou impaciência.)

Quando penso em possibilidades de opiniões acerca do que escrevo, tudo se embaça e perco o rumo, paro a busca. Decidi tentar de novo: escrevo para nunca mais e sempre em frente, para não parar de pensar nem por um momento e ativar em mim novamente a vontade viva de criar. Escrever também é criar mundos. Escrever é montar cenários. Escrever é cantar em silêncio.

Medo de ativar o turbilhão que algumas vezes já me incomodou? Talvez, inconscientemente. No entanto, sinto-me tão controlada que a impressão de ter tudo sob meu domínio, inclusive minha loucura, me leva a experimentar os limites de minha sanidade. Piso com calma na água gelada, deixo os pêlos se eriçarem. Sinto o frio como quem prova de um delicioso café quente, escorrendo por dentro, só que de baixo para cima. Até o topo dos fios de cabelo. Bem, se eu tivesse sensibilidade na ponta dos fios, talvez eles estivessem reagindo a esse choque. Piso leve, e a sensação de estar novamente envolvida pelo tráfego místico das palavras me embriaga, me afoga - só de pisar. Mal espero para estar imersa outra vez no fundo do poço.

Escrevo como um náufrago. Como um prisioneiro cavando um buraco de saída. Um túnel secreto. Escrevo como Eva que prova do fruto proibido. Escrevo, simplesmente, para me lembrar que existo.

Busco nas fontes toda a cultura, busco nas fontes todas as opiniões, busco nas fontes tudo o que me alimenta de bons estímulos, de boas notícias, de boas vibrações. Ouço música, vejo filmes, leio livros. Conto comigo mesma e com alguns bons amigos, que me amam e conhecem. Assim, filtro o que vejo com lentes coloridas e me aventuro a contar, com minhas próprias palavras, o que não é meu.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

História

Num tempo sumia. Fugia!

Voltava como a fumaça. Voltava como o inverno e as aves. Bebia.

Com o veneno na xícara, morria: voltaria (viva) ao meio-dia.

Entrava em seus mais belos planos: tremia.
Voltava a seus mais belos anos.
Sorriria?

Ah! Ela sempre voltaria!

Mas, um belo dia...



sexta-feira, 27 de julho de 2012

O grande assombro

Assim ela estava, como que envolta numa bola de luz. Seus ossos doíam à medida que chegava mais perto de seu destino, sua mandíbula tensa, olhos como riscos claros no escuro. A dor de perder-se era a mesma do encontro, há anos atrás. A dor da queda, a dor da perda. Já não sabia mais por quê chorava, se chorava -  era o mito, o grande assombro! De tudo lhe restava a dúvida, de tudo o acaso lhe pedia tudo emprestado.

Não demorou muito, sua sorte mudou.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Fluxo

Um cheiro engraçado
Aquelas cores todas
E eu no caos:
à beira de um colapso solitário

As imagens voltavam à mente incansáveis
Os sonhos, realidades paralelas em círculo constante de desobstrução de idéias
e essa força girando

As cores
Não entendo nada - eu disse
Assim me achei

Girando as luzes, sombra de velhas sombras assombrosas

Por que fazer sentido, então?
Se no ápice do sentimento está tudo tão claro e nítido que quase posso arrancar e colar na parede os versos de uma alma obscura! Ora, deixe-me em paz, direito. Raciocínio.

A luta contra o cérebro é a luta contra a razão contra a alma? Ora, acho que os animais também têm alma...mas é só uma opinião. Não morrem se não são mortos e vivem se não fenecem de fome ou tristeza. Eu estava quase voltando ao meu posto de segurar meu corpo em meus limites, quase chegando ao controle, quase cercando minhas linhas divisórias entre tempo e espaço mental. Quase!!! E Gabriel García Márquez segue em demência. Volto ao ponto e...voilá! Cá estou em Esopos e fábulas místicas e perdendo-me em encontros e despedidas, orcas e famigerados chás sagrados. Agora, cá entre nós, há tanto para se ver...e a graça se perde quando tento segurá-la por muito tempo. Isso é bem interessante. 


Posso usar a referência que quiser, posso me dirigir a qualquer pessoa. E a construção será sempre minha, por quê? Porque tudo é nada e isto é tudo. 


Se tento me forçar a lembrar, esqueço tudo, até de tentar lembrar. Se tento pensar, preciso respirar, preciso de ar! Se tento encaixar uma frase em outra, milhares de milhões de possibilidades de novas idéias traçam riscos coloridos sobre a primeira ideia antes que eu possa sequer completar uma sequência concatenada de pensamentos, e todas as novas ideias me distraem, me atrasam, me eternizam, me vaporizam e sucateiam minhas primitivas intenções. Leio, releio, permeio minhas novas ideias com valores antigos e novidades eremitas, enclausuradas em gaiolas verdes por não terem local apropriado no vasto mundo da utilidade prática - permito-me saber e entender. É verdade, eu crio meus sentidos.



domingo, 8 de julho de 2012

Diálogo

Chegou e não bateu
Entrou sentou sorriu
Olhou sentiu feriu

- Embora vou

Quanto tempo assim sem ver
E agora me chega assim 
Dizendo pra nunca mais

- Vou

Sentei senti pensei
Olhei pedi chorei
Calado fiquei

- Ou...

As mãos não mudam com o passar dos anos
Os pés não mudam com a mudança de planos
Parei sumi sonhei
Voltei "por quê?" falei

- Cansei.


Vestiu abriu fugiu
Ventou pairou sumiu
Tentei corri segui
Perdi.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Brisa rasa

Tento caber-me em palavras próximas do que não digo. Sozinha, alimento-me de fluxos externos, alimento-me de vida. A visão turva cega-me os sentidos e já não sou comigo. Já me embriaguei.

(Há um homem gritando na janela. Seu grito é sua expressão. O homem grita e seu grito é mais forte do que eu. O homem grita e não há carros, nem vizinhos, não há noite nem escuridão. Seu grito é presença, seu grito é paixão.)

Tentei me reescrever para alguém. Tentei reconstruir. Tentei subverter.
Agora, sou fogo tentando querer.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Presente

Esse tempo...que tão depressa me ultrapassa e tão rápido me consome - tanto em tão poucos dias e já nem posso assimilar tanta informação derramada. Tanto tempo, as horas são como nuvens e os dias sem sol serenos, as noites folhas leves, os meses céus infinitos - meu tempo é agora, fazer o quê?
- Noite quente, esta de hoje!
- É, acabou o frio, todos temos que seguir em frente.

E quando o céu não gira? Para onde vou que nem minha sombra me segue? Não, os dias são meus e não largo o osso, mas admito que a doação de certos momentos me faria bem. Me deram tantos instantes, todos os segundos de vida que poderia querer, e não sei o que fazer! Como posso querer menos que isso? Digo, o tempo me consome mas dele não posso escapar. E o tempo é meu principal presente.







terça-feira, 26 de junho de 2012

Paisagem

Despertei enquanto era tempo: Olha!
A neblina cobria minha cara, tapava tudo, estava frio. Acordei e olhei...parece que estou nas nuvens!
Nas nuvens fiquei pois era ali que me sentia bem. Nas nuvens pairei, pirei, me perdi.
E agora sou floco de nuvem.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Manifesto II

Abrir a mente não é apenas usar roupas diferentes, não é pensar diferente, não é se revoltar contra a sociedade e fugir do mundo. Abrir a mente não é ouvir músicas desconhecidas, não é assistir a filmes iranianos ou usar este ou aquele produto. Abrir a mente é mais que isso...abrir a mente é desenvolver uma capacidade maior de compreender atos humanos. Abrir a mente é ver o mundo com olhos de criança, é encantar-se com o belo e simples que a correria dos dias modernos não permite enxergar. Abrir a mente é desfrutar de cada momento, é entender que tudo passa e que o apego não vale a pena. Abrir a mente é abrir mão de expectativas, deixar o mundo fluir, permitir que a vida se desenvolva de acordo com sua própria natureza. Abrir a mente é abrir horizontes, conhecer, dar-se tempo e aprender algo novo a cada instante. Abrir a mente é sentir, vivenciar e amar cada vez mais. Abrir a mente é criar novas maneiras de lidar com as emoções, é enxergar com os olhos do coração. Abra-se, mente, estou aqui para te ouvir. 



Oniricamente (para minhas experiências culinárias)

Primeiro Ato - a queda

Um ano e meio, foi o que ele disse!
- Dentro de um ano e meio terei um filho. Ele se chamará nova vida.
- Mas, e se a sua mulher não concordar com seus planos de paternidade?
- Ela VAI concordar. Está sob meu domínio agora. Pare de chorar. Enxugue essas lágrimas falsas. Você não é mais o centro do universo. Você não é. É apenas gasto de energia. É apenas resto.

Segundo Ato - a maldição

Posto que tudo o que faz sentido me incomoda. Veja, tudo é incongruência nos métodos científicos, nos meios acadêmicos, nas bíblias, na televisão. A escola não maltrata seus alunos, mas não os obriga a serem seres humanos. A família está porque está, não tem outro jeito se não estar. A igreja repete as fórmulas, o estado desliza por cima do muro, o universo conspira a favor...é um estado de graça tão racional que merecia ser fotografado.

Terceiro Ato - a degradação

Ainda me consumo como chama viva
Queimo em sílabas e sonhos, em formas e silêncios, em melodias e multidão
Ermo canto em sincrônicas voltas - sou fogo e sou canção.

Quarto Ato - de volta para o futuro

Otimismo nunca foi meu forte. 
Mas, tá. 
Vou sorrir quando o sol chegar e olhar pela janela mais uma vez. 

Teresa

Soda cáustica. Pensou serenamente em confinar seus últimos desejos a uma carta endereçada ao porvir:
Pensou em ser outra.
Pensou em pular.

No entanto, nada a continha de seguir com seu plano, que ali mesmo demonstrava ser uma tremenda fria. Acabar logo com tudo aquilo não seria mais rápido e eficaz? Não...havia algo que ela devia descobrir. Havia algo para ela, sem dúvidas. Havia o mundo, ao qual ela não poderia renegar nem mesmo depois de morrer. O mundo estava agora atado a ela, ela ao mundo, a vida correndo atrás de sua sombra em perseguição obstinada...o mundo era agora excessivamente dependente de sua existência. E se o sol parasse de brilhar com sua partida? E se o ar desaparecesse? 
Não, jamais poderia cometer tamanho crime contra a humanidade. 


quinta-feira, 14 de junho de 2012

Hoje eu me obrigo a ser algo em comum com minha própria realidade.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Oração III

Ainda bem! Ainda bem que não estou amarrada a nada como um prisioneiro a bolas de ferro. Se estivesse, daria um jeito de quebrar as correntes. Ainda bem que minhas crenças mudam, que meus objetivos mudam, que minhas expectativas mudam! Ainda bem que só possuo um corpo e olhe lá...Deus me livre de acreditar ser uma ideia, não apenas minha mas, pior, uma ideia que os outros poderiam fazer de mim. Deus me livre de me ver livre de pensar. Deus me livre de não ver tudo isto que estou vendo: que os anjos me ajudem a me livrar do conformismo. Que nem estas palavras me pertençam. Amém.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Oração II

Não vou dormir. Vou passar a noite escrevendo porque só assim me liberto de estar, só assim escapo de meus pensamentos. Só assim me verto.
Não vou dormir.
Sei que apagarei pela manhã, exausta de tanto fluxo, exaurida de palavras, exangue. Sei também que a calma me abalará. Me arrebata os sentidos sentir essa paz. Me doem os ouvidos. Me doem as palavras. É essa rua cheia de vazios - gritos, impulsos, ruídos - é essa vida.
Essa vida.
Se me fazem crer que há uma via de mãos dadas valendo cada segundo de existência, esquecem de me fazer crer que visto a pele de vida como cobra e troco a cada estação as meias furadas, que cresço em função do sol, e não da alvorada. Me visto, me troco, me sinto, me broto. Tudo em mim é esperança e medo - vazio e solidão - uma semi-reticência em botão. Copo cheio, as informações transpiram-se de mim sem receio, e eu fico assim, com tanta vergonha! No meio...

Pulo de estação:
aqui tudo é paz.
Beiro a estrada e me deixo à deriva nas curvas do sonho - sinto-me em tempos de Beethoven, quando usar peruca era algo tão normal quanto calçar sapatos. Aqui tudo é misterioso e as casas não têm corredores, mas sim quartos sucessivos e tão amplos que poderiam abrigar este apartamento inteiro. Beiro as ruas e tudo me lembra. Beiro as ruas e tudo. Beiro as ruas e...novamente em ostracismo - bens comuns são coisas do passado.

Só eu me li três vezes em três minutos - não me convenço de nada - e quem chegar até aqui ainda estará tão perdido quanto eu atravessando a Iguaçu vendada. Já falei de olhos, de móveis e labirintos e da manipulação de guarda-chuvas. Já falei e, até agora, a música que ouço é a rua. Um homem passa gritando, mulheres nuas cantando - faz frio. E sua nudez é íntima e vermelha. Como um verso. Como esta noite. Amém.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Bilhar

Leio-me antes
                     agora sou rima andando em letras costuro sentidos
Ando em frases
                    em coisas íntimas e tão sutis em tão grandes problemas tão pequenos casos mínimos médios nada

Médicos me acudam
                        sou pêlos em crinas de centauros
Maus.

Jogo-me ao jogo lento
                     brilho em luzes lentas
                              luto lutas lentas
                              aposto-me e perco.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A verdade

Que seja verdadeiro
Que seja real
Que seja justo
Que seja leal

Que me importa
Que já não seja
Se não for vivido
O que o espírito almeja.

domingo, 3 de junho de 2012

Caminho

Em tudo e em todos
Sou o que o tempo determinar
Nem dona de mim nem do mundo
Sou o que o tempo determinar

Acabo por recomeçar
recomeçando me esqueço e me lembro
Esqueço pois sei que não levo mais nada
nem da vida, nem do espaço...nada

Novamente me guardo na sacola
De molho, no bolso, esperando
À espera de vidas passadas
Ou futuro, com cartas marcadas

Ao todo, seis anos de vida
Em idas, em voltas, saídas
Ao todo, seis anos e nada
me oculta da face a ferida

Recomeço lembrando quem sou
Lembrando esqueci o que passou
Nova eu, novo tu, novos nós
Tem pressa o viver, vamos sós.



sábado, 2 de junho de 2012

Ninho

Me disse que tento à toa
Em silêncio, a resposta

E vôo.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Rechazo I

A solidão tem esse ar de coitadinha
Sozinha, pobre, tão fraquinha
Tem esse quê de não saber se vai ou fica
Quanto mais sozinha: ou some ou se complica

A solidinha bateu à minha porta com paixão
Toda animada, pediu-me um beijo: sim ou não?
Olhei-a nos olhos e gritei, com sotaque francês
- Ó, minha moça-senhora, vá embora, de uma vez!


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Café com Deus

Quero a serenidade
E o turbilhão me abraça
Quero a verdade
E as mentiras sobem pelas paredes como traças

Como posso querer me ver livre da vida?

Nestes momentos, me arrependo das idas
Me arrependo das vindas
Me arrependo das noites andadas e dos dias
E a vida se arrepende de me fazer pensar tanto - pra tanto temer, tanto esquecer
Sabendo, ao fim
Que não tenho escapatória

Só vivo, se vivo sou
E mesmo morto, vivo estou.



 


terça-feira, 29 de maio de 2012

Vertigem II

As palavras pedintes
As palavras esmolas
As palavras que sobram
sem silêncio ficar

As luzes são pernas
As luzes são braços
Pedindo luz
as sombras se arrastam

Matriz multiplicada de muitos minutos molhando a gengiva - momento maxilar.

Arpêndios
        Compêndios
                   Vilipêndios
                            EX-PLÊNDIDOS

SEBRAE: SEMPRE colaborando com o bem-estar da sua Gaviota.


SEMPRE que um carro subir na calçada
Não se esqueça de andar de mãos dadas

publicitários: SEMPRE pedindo mais
Rezando para que o mercado-papão absorva-os, nem que seja em regime de ex-cravidão:

ME ABSOOORVA


ME ABSOOORVA!

Visão

Para enxergar o mundo
É preciso abrir os olhos
Para abri-los
Basta pensar
Para isto, deve-se parar de imaginar
Parar de imaginar,
resolve-se com a vida
Vivida e bem resolvida
Para viver
É preciso se entregar
Para a entrega
É preciso enxergar.

domingo, 27 de maio de 2012

Passarinho

Me disse que meu canto não entoa
Que meu canto enjoa
Que meu canto não fede nem soa

Lhe canto uma resposta
E, em riste
À toa

Me foge muito triste
E voa.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Frutas secas

Te dei uma carta, minha escrita
Letras de fôrma.

No canto esdrúxulo e reverso me encontras
Agora, no tempo, como salgou a palavra

Palavras são frutas secas
Doces, miúdas, e não muito diferentes umas das outras.

Adeus Baco

O que temos em comum nos incomoda
E o que não temos? Se acomoda no tempo, na vida, no espaço.
Incômodo é o silêncio, a partida, a decepção
Incômodo é o abraço, o abuso, o beijo
Incômoda situação...me parece que não temos mais caso.

Abreviadas palavras, tornam-se pausas, decretos, restos
E o sim se transforma em talvez talvez sim talvez não
Ou não
Não se ilude uma vida com outra vida dentro de uma sopa de letrinhas miúdas
Não se muda uma vida (ou uma vírgula) por quem quer que seja
A menos que se distinga um meio de evitar a confusão.

E a confusão...ela respira! Viva a vida e a confusão
Evoé barco, desgovernado, sem direção.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Esses são seus

Sustenidos e sustentados. Simples sem solfejo ou síncopes, são sábios senhores e simpáticos seres sonhando serem sempre soados, seriamente servis na sublime senda de assumir som sem sátira, sem sombra. São santos, sãos e sensíveis - são sons em ascéticos sacos. E, assim sendo, silêncio.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Minhocas

A situação está complicada
A situação está pálida
A situação está cálida
A situação está mais entreverada que a própria vida na cidade:

Cada um correndo para um lado, cada um cuidado do que é seu

A situação está pânica.

domingo, 20 de maio de 2012

Monólogo

Certo dia, um homem  se olhou no espelho e disse:
- Você! É, você mesmo...não tente fugir, não adianta disfarçar...no final das contas seremos só nós dois...você e...você mesmo! É...achou que ia conseguir me enganar? Pois está muito enganado, é impossível te enganar...me enganar...quando você menos espera, terá que se ver consigo, não terá ninguém a quem recorrer a não ser...VOCÊ MESMO!

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Vertigem

Virou a virada do vento e a vida virou um momento
Virou a virada do vento e o verso varou violento
Ventura saber
Que é difícil seguir vivendo
Ventura viver
Vendo a vida seguir vencendo

Viver é ver várias viradas
Vertigens vencidas veladas
Viver é ser carta marcada
Vestígio de vidas passadas
Ventura saber
Vendo tudo cair lá fora
Ventura viver
A virada da vida agora

Eu vivo na vida que passa
Vivendo o viver me ultrapassa
Ao vivo vendido de graça
Num vôo vivido na raça
Ventura entender
Avistar ou sair da valsa
Ventura entender
Os destinos que a vida abraça

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Perto de mim

Eu mesma, em toda minha auto-alienação, não consigo me ver livre dessa existência esmagadora, essa vida simpática e voraz que me atrapalha em todos os sentidos. Ao mesmo tempo em que me quero, me destruo em sinapses confusas, explodo como uma bomba-relógio à beira de um abismo, me desespero no mais íntimo do meu ser por não ser o que não sou, a ponto de verdadeiramente procurar ser o que não sou. Assim, me torno cíclica. Elíptica. Uma roda viva de sentidos e porquês, uma fuga constante de mim - para mim. Não tenho mais para onde ir: já existo, e nem o medo de existir me tira essa lucidez.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Natureza

O vinho do luar me embriaga só de olhar.

Não há palavras para descrever a vida. Em cada ação, cada momento, florescemos com infinitas possibilidades de múltipla criação. Eu sou, portanto, cresço, amo e vivo cada vez mais. O universo está em constante expansão - assim como eu, tu, o tempo, e tudo o que nos rodeia. O rio segue seu curso, e o rumo da natureza é a mudança por natureza.

Juntando as peças da incrível coleção a que chamamos eu, temos tudo, até Deus.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Diálogo 2 - Agora

A solução para todos os nossos problemas é estarmos presentes aqui e agora. O passado fica para trás, e o futuro...ainda virá! Por quê nos preocuparmos, se o agora é maravilhoso? Respirando, simplesmente estando, estamos em sintonia com nosso eu universal. Assim nos tornamos um - o todo - e a vida conspira para que tudo fique bem.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Plateia

A arte é para ser distribuída sem distinção de cor, sexo ou religião. Todos merecem apreciar o melhor de mim, todos merecem minha melhor apresentação - tenho pena de deixar meus receios tomarem conta de meu cantar, contaminar com meu egoísmo qualquer peça minha pregada no quadro da vida. Deixem-me ir, que fluo como rio para um lugar comum, cantando melodias para deus e o infinito: canto pois persisto, e o diabo que me aplauda.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Diálogo 1 - Inconsciência Coletiva

Passamos boa parte da vida tentando nos encaixar em padrões de comportamento e estilos de vida que não nos são naturais. O mesmo se dá com o pensamento, pois ao longo do tempo adquirimos e reproduzimos opiniões sem realmente refletir com espírito consciente sobre as questões da vida, estratificando comportamentos, gerando uma massa de (in)consciência coletiva e medos frente a qualquer mudança. A origem dos conflitos reside, pois, na falta de auto-conhecimento, ou seja, ausência de iniciativa e motivação para buscar melhorias internas. Há guerras porque os seres humanos vivem em conflito diário com seu próprio interior, ou seja, não aceitando-se como são, não podem aceitar aqueles que vivem ao seu redor e possuem compreensões adversas às suas, referentes a experiências de vida diferentes. Assim, tornam-se prisioneiros de suas próprias crenças, entre elas a de que a felicidade é algo externo que, por bondade de algum deus ou guru, lhes será concedida gratuitamente e sem esforço. A ilusão da separação entre corpo, alma e Deus é fonte de confusões mentais e tristeza, pois, assim alienados da unidade do todo, não podemos perceber a beleza da manifestação divina em tudo o que nos rodeia, desde a pequena formiga que corre para seu trabalho, até o esplendor do céu e de tudo o que ele contém. Somos tudo aquilo que acreditamos ser.

Em vida

Estou em música
Transpiro pelos poros do universo, em todo lugar
Em vibração e transparência, sem nome, sem cor
Em vida

Conhece-te a ti mesmo, aí está Deus

As palavras não servem para entender o tudo
O que está por trás das estrelas é o que deve valer a pena:
Ler as entrelinhas, ou ver uma constelação que não significa nada por si mesma, mas que observada em seu girar infinito revela o que cada momento quer dizer

Sou pássaro que brilha, sou sol, sou luz
E em tudo me estou, sem pensar, sem parar
Eterno, brilhante
Em vida
Em paz.

sábado, 3 de março de 2012

Confins

E aqui estou eu novamente, trocando em miúdos o dia pela noite. Não posso dormir com tanto quarto bagunçado, não posso! Minha noite de lua vira um saco cheio de realidade viva, e as luzes do ser simplesmente não me deixam fechar os olhos. Tenho tanto medo de mim mesma que não posso me fugir, apenas corro em círculos e ando em felizes ruas através de sonhos e futuros vis. Todos ao redor sonham em si mesmos, ou menos, e não posso viver longe dessa coisa tão tácita que é o saber-se enfim. Temo-me ao tal, que ponto sem passo não dou, e nó sem agulha já sou, sem furo, remendo, assim. Dou vida aos cadernos, cadeiras, colares e meias que espalho em minutos com vista a seu fim, e em tudo me faço, me passo sem gasto aos traços que em suma ainda deixo de mim.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Canção

Falo em samba e toco valsa
Falo em blues e toco bossa
Por que sentidos meu senso circula
Que só meus olhos entendem ou vêem?

Escrevo certo por rimas tortas
E na canção minha vida se encrosta
Falo em dois, toco em três, não importa
Se no início me afundo em poréns

Uma vez comida pela traça
Na troça de amor consumida de graça
Se vai a dor ao seu leito e disfarça
Já no fim se acostuma aos améns.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Retrato

Algo me diz que devo sair
Olhar o sol, respirar
Antes que se esvaiam os raios e os girassóis
Antes que se acabem as orquídeas e as borboletas
Algo me chama...será meu instinto, talvez?

Minha morada é a selva escura
Minha casa é o nada, com vista para céu e chão
Me toca o teto que a tudo abre luz, me levam vento e mar, a todo lugar, sem de nada eu precisar

E das asas, o que falar?

Quando já for do que o ar mais leve
Quem sabe para que vão servir?
Despluma, asa leve, voa
Voarei!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Fotografia - ou "O passado presente"

O vento que bagunça meu cabelo
O mesmo ar
Odores, ruas, luz do sol
São os mesmos de anos e vidas atrás
O resto dos dias ainda têm o mesmo êxtase sublime de minha infância
Minha infância inerte
Minha doce e curta - infância inerte

Me vivi como em dias frios, tremendo por cada músculo tenso, batendo dentes e esperando um verão descalço
Me vivi como num filme
Eu protagonista de um lugar, uma praça, uma água qualquer
Num instante eterno, o mesmo da foto, o mesmo de todos
Pois tudo lembra, menos a água
A água foi feita de esquecimento
E para o nada corre, como se corresse para o colo de si mesma

Não corro, pois não me sobra mais tempo
Um momento tenho, menos vida, no entanto
Nem segundos, nem dias - nada devolve minhas pequenas horas
Minhas vidas, imagens inversas, as calmas e descasos, os prantos e acasos
E em nada permito ver
Minha própria figura inventada
Frente a recortes e colagens
E um passado tão recente que me toca os ombros
Me embala e pressiona contra o muro
Me derruba
Me desgasta
E me liberta.

Sinopse

O que poderia dizer se sou apenas o aqui e o agora?
As palavras se perdem no espaço e no tempo como grãos de areia no mar, se dissolvem na imensidão que tentam descrever. Mal sabem que o infinito as contêm e que são partes do mecanismo de que acreditam ser o manual. Não existe manual para o universo, viemos ao mundo nus e com tênue idéia de que temos que alcançar alguma coisa, ideia que é tão inverossímil e distante que no percurso de seu alcance, quando estamos apenas começando a entender o caminho que trilhamos, geralmente somos obrigados a transcender.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Poema molhado

Gota
Gota
Gota
Gota

Pingo

Enxurrada

Inundação.

Gota
Gota
Gota

Pingo.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Felicidade

Minha tristeza é a mais feliz que há:

Afinal, não há alegria maior do que sentir-se vivo ao sofrer um desengano!

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Carnaval

Quero a calma que turva a superfície. Quero o sublime profundo e o alívio da tensão. O tenso, inaugurando o sentido, me cresce assim como uma flor.

Assim posso, com o passar dos anos, encontrar toda a paz de que necessito. Assim, meu Dionísio se encarna em palavras fundas e sinceras, em paz de esquecimentos e lembranças, em silêncios, em vãos. Em me encontrar encontro luz, em me doar encontro luz, em me saber me visto e, nus, os pensamentos me permitem. Cresço em símbolos, teia estranha de nervos e vícios e, sem pressa, cresço em cruz.

Divirto-me pois, ao contrário do que eu mesma possa achar. E minha liberdade não tem patrocínio.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Esforço repetitivo por ousar viver

Busco um sol que nasce
Em cada folha e em cada instante recortados pela escuridão.

A senhora me disse - senhora, porque em toda esquina te encontro comprometida com uma nova visão de mundo - que amar é como montar um quebra-cabeças: nunca sabemos o resultado de nossos esforços e sempre acabamos desmanchando tudo para tentar repetir a sensação de prazer que armar o inesperado nos dá. Dito assim, encaixando peça por peça, não soa tão grave quando admito que sempre procurei recriar meu mundo pelos cantos, já que as beiradas são sempre mais fáceis de construir, e que o processo de conclusão do meio acaba sempre ficando um tanto quanto nebuloso e perdido. O tempo que separa o instante em que faço caber a última peça e o momento de re-destruição de minha obra é infinitamente menor que aquele separando o fim das bordas e o começo do meio. Isso porque viver me dá pressa, quero chegar logo ao final para recomeçar.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Adubo

Mergulho fundo no infinito de mim mesma:

Vejo flores, cores, sons, cheiros e toques de uma única e balsâmica canção, uma melodia prismática, peristáltica, volátil - a mesma voz que ouço quando recobro a consciência e me sou, sempre tão perto de mim, sempre tão deus...
Aí me vejo, dentro de cada homem que passa e cada mulher, andando em círculos num mundo igualmente circular, à volta de terras vazias de gelo, cheias de vida, com cada ar respirado e cada planta do chão nascida.

Me planto.

Aqui me sigo, colhendo-me por onde passo, vivendo grãos que já me são escassos. Persigo - em único tempo - a solidão e o fracasso, como tentando agarrar a sorte pelos cadarços. Tenho pressa - ou cansaço? Ainda vejo o mundo como um cândido abraço, e, crescendo ao sol, renasço.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Ermitão

Gosto do ostracismo, cair em desuso, desumanizar. Deus-humano, é essa sua melhor tática? É tudo o que tens para me derrotar? Pois volte, volte para seu panteão chocho, essa meta-insípida-religião, que te faz crer que és o melhor entre os melhores, o sumo da matéria orgânica inteligente, o sopro de vida, o céu e o chão. Volta e não mais me perturbes com esquecimentos, posto que destes me alimento e sustento, achando ainda graça, esquecendo.