sexta-feira, 27 de julho de 2012

O grande assombro

Assim ela estava, como que envolta numa bola de luz. Seus ossos doíam à medida que chegava mais perto de seu destino, sua mandíbula tensa, olhos como riscos claros no escuro. A dor de perder-se era a mesma do encontro, há anos atrás. A dor da queda, a dor da perda. Já não sabia mais por quê chorava, se chorava -  era o mito, o grande assombro! De tudo lhe restava a dúvida, de tudo o acaso lhe pedia tudo emprestado.

Não demorou muito, sua sorte mudou.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Fluxo

Um cheiro engraçado
Aquelas cores todas
E eu no caos:
à beira de um colapso solitário

As imagens voltavam à mente incansáveis
Os sonhos, realidades paralelas em círculo constante de desobstrução de idéias
e essa força girando

As cores
Não entendo nada - eu disse
Assim me achei

Girando as luzes, sombra de velhas sombras assombrosas

Por que fazer sentido, então?
Se no ápice do sentimento está tudo tão claro e nítido que quase posso arrancar e colar na parede os versos de uma alma obscura! Ora, deixe-me em paz, direito. Raciocínio.

A luta contra o cérebro é a luta contra a razão contra a alma? Ora, acho que os animais também têm alma...mas é só uma opinião. Não morrem se não são mortos e vivem se não fenecem de fome ou tristeza. Eu estava quase voltando ao meu posto de segurar meu corpo em meus limites, quase chegando ao controle, quase cercando minhas linhas divisórias entre tempo e espaço mental. Quase!!! E Gabriel García Márquez segue em demência. Volto ao ponto e...voilá! Cá estou em Esopos e fábulas místicas e perdendo-me em encontros e despedidas, orcas e famigerados chás sagrados. Agora, cá entre nós, há tanto para se ver...e a graça se perde quando tento segurá-la por muito tempo. Isso é bem interessante. 


Posso usar a referência que quiser, posso me dirigir a qualquer pessoa. E a construção será sempre minha, por quê? Porque tudo é nada e isto é tudo. 


Se tento me forçar a lembrar, esqueço tudo, até de tentar lembrar. Se tento pensar, preciso respirar, preciso de ar! Se tento encaixar uma frase em outra, milhares de milhões de possibilidades de novas idéias traçam riscos coloridos sobre a primeira ideia antes que eu possa sequer completar uma sequência concatenada de pensamentos, e todas as novas ideias me distraem, me atrasam, me eternizam, me vaporizam e sucateiam minhas primitivas intenções. Leio, releio, permeio minhas novas ideias com valores antigos e novidades eremitas, enclausuradas em gaiolas verdes por não terem local apropriado no vasto mundo da utilidade prática - permito-me saber e entender. É verdade, eu crio meus sentidos.



domingo, 8 de julho de 2012

Diálogo

Chegou e não bateu
Entrou sentou sorriu
Olhou sentiu feriu

- Embora vou

Quanto tempo assim sem ver
E agora me chega assim 
Dizendo pra nunca mais

- Vou

Sentei senti pensei
Olhei pedi chorei
Calado fiquei

- Ou...

As mãos não mudam com o passar dos anos
Os pés não mudam com a mudança de planos
Parei sumi sonhei
Voltei "por quê?" falei

- Cansei.


Vestiu abriu fugiu
Ventou pairou sumiu
Tentei corri segui
Perdi.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Brisa rasa

Tento caber-me em palavras próximas do que não digo. Sozinha, alimento-me de fluxos externos, alimento-me de vida. A visão turva cega-me os sentidos e já não sou comigo. Já me embriaguei.

(Há um homem gritando na janela. Seu grito é sua expressão. O homem grita e seu grito é mais forte do que eu. O homem grita e não há carros, nem vizinhos, não há noite nem escuridão. Seu grito é presença, seu grito é paixão.)

Tentei me reescrever para alguém. Tentei reconstruir. Tentei subverter.
Agora, sou fogo tentando querer.